Invasão do MST no Paraná pode prejudicar mais de mil trabalhadores locais

No dia 30 de maio, cerca de 5 mil pessoas foram às ruas de Quedas do Iguaçu para protestar contra a ameaça de invasão do MST as terras onde trabalhavam. Funcionários e diretores da empresa também participaram da manifestação que aconteceu em uma praça pública da cidade. Os moradores temem que a invasão force o fechamento da empresa e consequentemente enfraqueça o comércio local. A própria empresa já havia se manifestado sobre os riscos de suas operações na cidade caso ocorresse uma nova ocupação.

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Reação

A Caciopar (Coordenadoria das Associações Comerciais e Empresariais do Oeste do Paraná) emitiu nota lamentando a invasão na Araupel. Para a entidade, a Araupel é uma empresa que há décadas contribui com o desenvolvimento econômico de vários municípios das regiões Oeste e Sudoeste.

“Atitudes como essa, em um País que tanto precisa investir na produção e em avanços sociais e econômicos, não podem mais ser toleradas. A invasão de uma área produtiva, como é o caso específico da Araupel, é uma afronta à Constituição que trata, em um de seus capítulos mais importantes, sobre o direito à propriedade”, frisou a entidade classista.

Pelas redes sociais moradores de Quedas do Iguaçu e região também demonstraram preocupação com a invasão. Na comunidade “Sou a favor da Araupel”, com quase nove mil seguidores, internautas cobraram uma solução imediata para o caso. Alguns sugeriram manifestações de rua para forçar uma negociação que leve à retirada do sem terra do local.

“Não é justo que a cidade, a empresa e todos os trabalhadores pais de família honestos que não roubam, que dão seu suor trabalhando para defender seu pão sejam agredidos dessa forma”, comentou um internauta.

No perfil do governador Beto Richa no Facebook, vários moradores da cidade deixaram comentários pedindo providências do estado. Eles também cobraram um pronunciamento do governador sobre a questão. Até as 18 horas de ontem, Richa não havia respondido aos comentários dos internautas

MST cumpre ameaça

O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) invadiu durante a madrugada do último sábado (19) uma área da fazenda Araupel, entre os municípios de Rio Bonito do Iguaçu e Quedas do Iguaçu. Segundo o movimento, 3 mil famílias participaram da ocupação. Boa parte dos invasores é formada por filhos de sem terra. Esta é a quarta invasão de terra que a empresa sofre nas últimas duas décadas. Dois terços de sua área já foram desapropriados pelo governo para fins de reforma agrária que resultaram nos assentamentos Ireno Alves, Marcos Freire e Celso Furtado. Juntos eles formam hoje o maior assentamento da América Latina.

Desde o dia 1º de maio, filhos de sem terra assentados nos acampamentos começaram a montar um novo acampamento dentro do assentamento Ireno Alves, em Rio Bonito do Iguaçu. O MST alega que a empresa Araupel foi constituída em cima de terras griladas, que pertencem à União e que ela não possui os documentos de posse. Por meio da página oficial do movimento na internet, o MST informou que as famílias reivindicam a desapropriação dos 35 mil hectares da fazenda.

“Essas são uma das melhores terras do Brasil, e a Araupel apenas produz madeira para exportação. Queremos produzir alimentos nessas terras e, por causa das ilegalidades, elas devem sim ser destinadas à reforma agrária, para que possamos trabalhar e produzir alimento de qualidade ao povo brasileiro”, disse Antônio Miranda, da direção nacional do MST.

De acordo com a empresa Araupel, a ocupação teve início por volta das 23h30 na área de reflorestamento mais produtiva da empresa onde as árvores já estão prontas para o corte e comercialização. Alguns caminhões com toras que abasteceriam a empresa ficaram retidos junto com outras máquinas e tratores. Os acessos foram bloqueados e, segundo a empresa, os funcionários que estavam no local só conseguiram deixar a área na manhã de ontem.

Requião defende invasão

A Araupel criticou o posicionamento do senador Roberto Requião (PMDB) que concedeu uma entrevista a uma emissora de rádio local defendendo a invasão e que, na opinião da empresa, pode ter incentivado a ação dos sem terra. Ele acusou a empresa de ser usurpadora de terras públicas e questionou se ela possui a documentação.

“A população não pode ser prejudicada, mas você não pode defender uma invasão. E eu não estou falando da preocupação de uma pessoa que desesperadamente procura um pedaço de terra para produzir, estou falando de invasão de terra pública. É um assunto delicado, mas o Estado tem condições de intervir nisso”, afirmou Requião. A empresa classificou as declarações de Requião como “atitude leviana que serviu de plataforma para promoção política, desestruturando a indústria”.

A empresa informou ainda que elaborou um dossiê com documentos provenientes de cartórios públicos do Paraná contendo toda a cadeira sucessória do título dominial daquelas áreas desde o tempo imperial até a compra de 1972. São documentos públicos.

“A Araupel está no centro de uma discussão, que é a questão agrária, servindo de ferramenta para fomentar o discurso de senadores e outros políticos que estão usando uma suposta ilegalidade – sem sequer nos perguntar se existe a documentação – para promoção própria em época eleitoral”, informou a empresa.

Há duas semanas, foi formalizada pela superintendência do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) no Paraná, um pedido de nulidade da área por existirem dúvidas jurídicas sobre a legitimidade de propriedade por parte da Araupel. Policiais do Batalhão de Choque de Cascavel também estão no local. O caso corre na 3ª Vara da Justiça Federal em Cascavel.

Policiais militares de vários batalhões do Estado foram deslocados para garantir a segurança do local. Na manhã de sexta, um helicóptero da PM (Polícia Militar) sobrevoou a área para fazer um reconhecimento da situação. Segundo a PM, policiais do serviço de inteligência também fazem um levantamento da situação, já que o governo busca uma solução negociada para o impasse. A empresa possui um interdito proibitório em seu favor o que na prática proibia o MST de ocupar a área.

Folha Centro Sul

 
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