Indústria farmacêutica na encruzilhada

O pesadelo da redução de custos e demissões
O coagulante Plavix, que é usado para prevenir ataques do coração e AVCs, numa farmácia nos EUA (Robert Sullivan/AFP/Getty Images)
O coagulante Plavix, que é usado para prevenir ataques do coração e AVCs, numa farmácia nos EUA (Robert Sullivan/AFP/Getty Images)

A indústria farmacêutica, que já foi um setor de grande sucesso, tem reduzido custos de todos os lados, fechado fábricas, despedido funcionários, recorrido à mão-de-obra de países do terceiro mundo e reduzido esforços de pesquisa ao mínimo possível.

“Os bons velhos tempos da indústria farmacêutica acabaram para sempre. Nem sequer um melhor ambiente econômico global deverá deter os esforços dos governos de países desenvolvidos de limitar despesas com medicamentos”, segundo um relatório da ‘McKinsey Quarterly’ de dezembro, uma publicação econômica da McKinsey & Company.

Apesar do forte desempenho financeiro do terceiro trimestre, a Novartis International AG, uma gigante farmacêutica baseada na Suíça, anunciou que fechará três de suas filiais e despedir 2000 pessoas. De acordo com uma chamada de conferência, cerca de 35% dos postos de trabalho serão subcontratados à China e Índia.

“A Novartis anunciará hoje mais atividades de redução de custos, que serão executadas nos espaço de três a cinco anos […] resultando no encerramento de dois locais na Suíça e um na Itália. […] No total, serão cortados cerca de 2000 postos nos Grupos […] a maioria na Suíça e nos EUA, que serão compensados com 700 novos postos de baixo custo em outros países”, segundo um comunicado de imprensa da Novartis.

No terceiro trimestre, as vendas líquidas aumentaram 18% para 14,8 bilhões de dólares em comparação com o mesmo período de 2010. Os rendimentos líquidos aumentaram em 7% para 2,5 bilhões de dólares.

A gigante global AstraZeneca, sediada em Londres e a sétima maior empresa farmacêutica do mundo em termos de receita, anunciou em dezembro que reduziria sua força de trabalho nos EUA em 1.150 funcionários, cerca de 24% de sua força nos EUA, até fevereiro de 2012.

Os esforços na redução de custos, incluindo a redução indicada em cima, pouparão à empresa entre 50 e 100 milhões de dólares, resultando num lucro de 3 bilhões de dólares no terceiro trimestre, um aumento de 36% em relação aos números do terceiro trimestre de 2010.

Rich Fante, presidente da AstraZeneca nos EUA, afirmou num comunicado de impressa recente, “Existem decisões difíceis que têm impacto sobre nossos valiosos funcionários. Mas as alterações que estamos efetuando nos ajudarão a obter melhores resultados em nossos negócios e, mais importante, continuarão a concretizar nossa missão de saúde dos pacientes.”

Modelo de negócios falho das empresas farmacêuticas globais

“As margens de lucro serão significativamente inferiores às atuais. Esta situação dramática requer que os executivos das grandes farmacêuticas prevejam respostas que vão além de simplesmente mexer na base de custos ou recorrer a fusões e aquisições”, aconselhou o relatório da McKinsey.

Apesar das vendas totais de medicamentos de 2010 de 856 bilhões de dólares, a indústria farmacêutica está sobre pressão, considerando que a indústria não produziu um medicamento inovador nos últimos anos. Os novos medicamentos são apenas cópias melhoradas dos medicamentos existentes.

A história do desenvolvimento de medicamentos sugere que dos 10 mil medicamentes em desenvolvimento só um ou dois terão sucesso no mercado e que cada um deles demorará entre 10 e 15 anos para desenvolver. Apesar de ser difícil avaliar os custos do desenvolvimento, estima-se que o desenvolvimento de um novo medicamente custe mais de 1 bilhão de dólares.

Em 2011, estavam sendo testados cerca de 3 mil medicamentos em ensaios clínicos e/ou aguardando avaliação da Administração de Alimentos e Drogas (FDA) dos EUA.

Mais importante, a indústria enfrenta a expiração de um grande número de patentes, como o Plavix (Bristol-Myers Squibb) e o Zyprexa (Eli Lilly & Co.), resultando na perda do rendimento resultante. Os fabricantes de medicamentos genéricos espreitam na esquina e é provável que já tenham medicamentos genéricos mais baratos à espera, que serão vendidos no dia em que as patentes expirarem.

“Os próximos cinco anos deverão refletir um desequilíbrio significativo entre a introdução de novos produtos e a perda de patentes”, sugeriu um artigo no website da Zacks Pesquisa e Investimento.

Em resposta à falta de flexibilidade e aos ambientes burocráticos das grandes empresas, a indústria começou a se fragmentar em diferentes segmentos, que incluem genéricos, biotecnologia, ciências da vida, equipamentos de cuidados de saúde e empresas farmacêuticas médias.

De 84 empresas existentes em 1989, a indústria cresceu para 192 empresas, com 52 médias empresas farmacêuticas e 51 empresas de equipamentos de cuidados de saúde representando a maioria delas.

“A fragmentação é particularmente problemática para as grandes farmacêuticas porque seria natural esperar que as rendas econômicas aumentassem para as empresas mais inovadoras da indústria. Como algumas grandes farmacêuticas não produzem inovações com a mesma rapidez das empresas de biotecnologia, só a força da marca e presença comercial global permitiriam a continuação do exercício de preços ótimos”, segundo o artigo da McKinsey.

Além do mais, pesquisa e desenvolvimento desenfreado é uma ferida aberta para os investidores, que têm vociferado que tais atividades prejudicam seus dividendos e não acrescentam valor para o investidor.

Analistas especializados no estudo da indústria farmacêutica têm sugerido que não haverá mais crescimento nas grandes companhias globais, contudo, poderá haver crescimento nas pequenas e médias empresas que surgiram nos últimos anos. Mais importante, os melhores resultados seriam conseguidos quando os profissionais da indústria trabalharem em colaboração pelo desenvolvimento de novas drogas ao invés de tentarem desenvolver novos produtos sozinhos.

De acordo com um artigo da Associação Americana para o Desenvolvimento da Ciência (AADC), Chemjobber, o pseudônimo de um químico e blogueiro norte-americano, sugere que cada vez mais os funcionários das grandes companhias farmacêuticas são absorvidos por pequenas companhias e que grandes companhias perderão influência à medida que perdem seu pessoal mais talentoso.

McKinsey recomenda que “os executivos incrementem a disciplina financeira, relocando o capital de forma agressiva pelo espectro da indústria e, em particular, longe dos ativos de pesquisa e desenvolvimento de baixo desempenho e de mercados maduros que já não conseguem sustentar grandes vendas”.

Demissões frequentes para melhorar os resultados

“Postos de trabalho de desenvolvimento de drogas desapareceram aos milhares dos Estados Unidos e às centenas da Europa à medida que a indústria corta custos para se reajustar aquilo que se compreende como o fim da era das drogas de sucesso mundial”, afirma o artigo da AADC.

Neste ano, a indústria farmacêutica cortou 20.251 postos de trabalho e, desde 2000, cortou 297.650 postos de trabalho segundo a empresa ‘Challenher, Gray & Christmas Inc.’, especializada em relocação. Desde 2000, a maioria das demissões ocorreu em 2009, com 61.109 pessoas despedidas, seguidas de 53.636 em 2010. A Pfizer Inc. despediu 29.500 entre 2007 e 2009 e a Merck e Co Inc. demitiu 24.400.

“À medida que as fontes de renda diminuem e os investidores reclamam mais ganhos, o arrocho levou dezenas de milhares de empregados das farmacêuticas a perderem seus trabalhos. […] Os grandes fabricantes de drogas deparam-se agora com muitas pessoas politicamente astutas que estão mais interessadas em ‘jogar seguro’”, segundo um artigo no website da Pharmalot.

Lutando contra o declínio das vendas

“Com a maior parte das grandes companhias farmacêuticas envolvidas ou suscetível de se envolverem em lutas relacionadas com patentes de drogas populares, as companhias têm-se voltado para fazerem fusões e aquisições e licenciar atividades com o intuito de compensar a perda de lucros”, segundo um artigo da Zacks Pesquisa e Investimento.

Algumas destas atividades incluem o anúncio da Pfizer do início de dezembro que completou a aquisição da Excaliard Pharmaceuticals Inc. Em janeiro, a GE Healthcare, uma divisão da General Electric Co, informou que adquiriria a Clarient Inc. por 587 milhões de dólares, uma acordo de 5 dólares por ação.

O número de fusões e aquisições não aumentou entre 2009 e 2010, mas o total de fusões e aquisições mais que dobrou para 4,7 bilhões em 2010.

“O valor das fusões e aquisições aumentou em 2010 e alcançou níveis excepcionais em 2011. Os compradores não só eram participantes no setor de DIV (diagnóstico in vitro), mas também investidores financeiros, grupos de pesquisa de ciências naturais, clínicas laboratoriais e empresas de tecnologia médica”, segundo um relatório de 2011 da PricewaterhouseCoopers.

 
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