As implicações da prisão de Hugo Carvajal para a América Latina (Vídeo)

O maior general aposentado do exército venezuelano, Hugo Carvajal, foi preso na Espanha na sexta-feira, 12 de abril, a pedido do serviço de inteligência dos EUA, acusado de tráfico de drogas

Por Pachi Valencia

Após a prisão de Hugo Carvajal em 12 de abril na Espanha, a informação que pode ser revelada pelo ex-chefe de inteligência venezuelano se ele for extraditado para os Estados Unidos será fundamental para o futuro do país socialista.

Carvajal declarou em uma entrevista ao New York Times em fevereiro que o narcotráfico e a corrupção são praticados dentro do regime venezuelano por funcionários de alto escalão, desde ministros como Néstor Reverol, ou Tareck El Aissami, até o próprio Nicolás Maduro.

No entanto, José Antonio Colina, presidente da organização “Perseguidos Políticos Venezuelanos no Exílio”, VEPPEX, acredita que há provas suficientes para mostrar que Hugo Carvajal também estaria envolvido nesta máfia.

“Ele é militar aposentado, mas é um traficante de drogas procurado pela justiça internacional”, disse ele em entrevista ao jornal Epoch Times.

Colina disse que Hugo Carvajal usou o poder que Hugo Chávez lhe concedeu como chefe da inteligência militar, de 2004 a 2011, para prender seus adversários e fortalecer seu cartel de drogas. Isso permitiu-lhe acesso a uma das mais poderosas rotas de tráfico de drogas liderada pelo “Cartel dos Sóis”, presumivelmente composta por membros militares de alta patente das Forças Armadas.

Por outro lado, Hugo Carvajal declarou em fevereiro que seu envolvimento com traficantes de drogas era apenas para fins de investigação enquanto ele esteve no comando da Diretoria Geral de Inteligência Militar.

“Narcotraficantes como ‘El Pollo’ Carvajal, que causou um claro dano à nação, que fez parte da grande tragédia que a Venezuela está vivenciando, têm que enfrentar um sistema de justiça no qual terão que pagar, porque todo mundo sabe que o sistema judicial dos Estados Unidos é implacável”, disse Colina.

Colina disse que sentia que a justiça agora prevalecia, já que foi demonstrado que Carvajal não estava cooperando com os Estados Unidos sob um programa de proteção a testemunhas, como muitos acreditavam.

“Tenho certeza de que (Carvajal) será extraditado, e ele terá que fornecer todas as informações para minimizar sua sentença, porque, caso contrário, ele enfrentará sentenças severas que poderão levá-lo à morte na cadeia”, disse Colina.

Esta não é a primeira vez que os Estados Unidos tentam levar Carvajal à justiça. Em 2008, ele foi sancionado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos por proteger carregamento de drogas na Venezuela e fornecer armas às FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Seis anos depois, em julho de 2014, houve uma tentativa de prisão em Aruba, mas foi bloqueada por causa de sua posição como Cônsul Geral de Aruba, concedida no mesmo ano, o que lhe deu imunidade diplomática.

Desta vez, Colina tem certeza de que Hugo Carvajal será extraditado para os Estados Unidos e que fornecerá todas as informações necessárias para minimizar sua sentença. Essas informações podem incluir o nome de generais de alto comando até figuras do chavismo como Diosdado Cabello, o que permitirá abrir processos judiciais nos Estados Unidos, assim como desvendar as conexões do narcotráfico não apenas na América Latina, mas também no mundo.

Informação em posse de Carvajal

Para Daniel Osorio, presidente da Andean Capital Advisors, uma das questões mais importantes que Carvajal terá que responder perante a justiça americana, além das conexões do governo venezuelano com as FARC, quadrilhas mexicanas e o Hezbollah, é: onde está o dinheiro?

“Tem muito dinheiro escondido. Eu ouvi estimativas tão altas quanto entre 500 e 600 bilhões de dólares que Chávez roubou e que está espalhado pelo mundo todo (…) Carvajal pode muito bem ser a pessoa que vai indicar onde estão os fundos e sob que nome eles estão”, ele apontou.

Segundo Osório, isso traria grande pressão para Nicolás Maduro e para os poucos países que o reconhecem como presidente legítimo da Venezuela, como China, Rússia, Irã, Turquia e alguns países da América Latina; especialmente para Cuba, já que as informações em posse de Carvajal também podem confirmar pela primeira vez o envolvimento do regime cubano como colaborador do narcotráfico na América Latina.

Ex-presidente Raúl Castro (dir.) homenageia Nicolás Maduro no Palácio da Revolução em Havana, em 18 de março de 2016 (YAMIL LAGE / AFP / Getty Images)
Ex-presidente Raúl Castro (dir.) homenageia Nicolás Maduro no Palácio da Revolução em Havana, em 18 de março de 2016 (YAMIL LAGE / AFP / Getty Images)

Esta pressão aumentou depois que o governo dos Estados Unidos declarou na quarta-feira passada (17) a imposição de sanções contra países e empresas que continuam negociando com Cuba. Osorio acredita que “a ira do governo dos Estados Unidos” será definitivamente um problema para esses regimes autoritários.

Uma mudança para a Venezuela

Hugo Carvajal rompeu com Maduro no final de fevereiro deste ano, através de um vídeo publicado no Twitter no qual ele apoia Juan Guaidó como presidente venezuelano. Neste vídeo, ele também pede que seus ex-colegas sigam seu exemplo.

Para Colina, Hugo Carvajal tentou usar a crise política na Venezuela como uma tábua de salvação para escapar da punição por crimes cometidos no passado. “Para aqueles de nós que viram esta situação, sabemos que seu apoio não representa absolutamente nada porque ele é um traficante de drogas convicto e confesso. Um elemento intimamente ligado à revolução do chavismo original”. Da mesma forma, Colina acredita que os militares que desejam desertar devem fazê-lo pelas razões certas.

“O fato de eles dizerem que mudaram de posição, o fato de reconhecerem Juan Guaidó, não apaga seus crimes ou os pecados cometidos no passado”, disse Colina.

José Antonio Colina e seus colegas acham que a justiça foi feita depois de tantos anos denunciando a participação dos militares nas atividades de tráfico de drogas, e espera que os responsáveis por essas atividades ilícitas no país paguem na justiça nacional e internacional.

“Não estávamos errados quando falamos e lutamos contra este regime nefasto. Não estávamos errados quando decidimos não participar de atividades ilícitas na Venezuela, não estávamos errados quando lutamos contra o regime de Hugo Chávez.”

Policial colombiana abraça um membro das Forças Armadas da Venezuela (centro) que desertou para a Colômbia, em Cúcuta, em 25 de fevereiro de 2019 (RAUL ARBOLEDA / AFP / Getty Images)
Policial colombiana abraça um membro das Forças Armadas da Venezuela (centro) que desertou para a Colômbia, em Cúcuta, em 25 de fevereiro de 2019 (RAUL ARBOLEDA / AFP / Getty Images)

Colina diz que a situação atual na Venezuela não é culpa de uma pessoa, mas do sistema socialista, embora admita que, dentro da população venezuelana, ainda há 30% que acha que o regime de Chávez foi melhor.

“Acho que temos que fazer um ótimo trabalho para convencê-los e para que entendam que a causa de toda essa desgraça é Hugo Chávez, que quem começou toda essa tragédia foi Hugo Chávez com seu sistema falido, chamado socialismo do século 21, e que, para corrigir as coisas, é preciso arrancar o mal pela raiz”.

Para Daniel Osório, a mudança no regime só virá através dos próprios venezuelanos, já que as sanções impostas pela justiça americana serão apenas uma ferramenta que lhes permita superar a crise.

“Algumas pessoas acham que a memória de Chávez é muito mais popular que a realidade de Maduro, mas a história lhe dirá que as sementes dessa crise e as sementes dessa catástrofe econômica, política e cultural foram semeadas por Chávez.”

Ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (esq.) e Nicolás Maduro, em 18 de dezembro de 2007, no prédio da Universidade de Montevidéu (MIGUEL ROJO / AFP / Getty Images)
Ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (esq.) e Nicolás Maduro, em 18 de dezembro de 2007, no prédio da Universidade de Montevidéu (MIGUEL ROJO / AFP / Getty Images)

O maior general aposentado do exército venezuelano, Hugo Carvajal, foi preso na Espanha na sexta-feira, 12 de abril, a pedido do serviço de inteligência dos Estados Unidos, acusado de tráfico de drogas.

 
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