A iminente crise de água na China

Grande atenção tem sido dada às consequências negativas da poluição ambiental na China, mas uma nova crise ainda pior ameaça a vida das pessoas e o desenvolvimento do país: a escassez de água.

O relatório “Tendências Globais 2030: Mundos alternativos” do Conselho Nacional de Inteligência afirma que, com relação à China, “os problemas ambientais, as tendências de urbanização e novos estilos de vida criarão enorme demanda de água e carência de colheitas em 2030”. Além dos custos econômicos e à saúde pública, a escassez de água também põe em perigo o crescimento econômico e a estabilidade social.

A falta de água na China é agravada pelos altos níveis de poluição. Hu Siyi, vice-ministro do Ministério de Recursos Hídricos, declarou em 2012 que até 40% dos rios da China estavam gravemente poluídos após 75 bilhões de toneladas de esgoto e resíduos industriais terem sido despejados neles. Ele também disse que cerca de dois terços das cidades chinesas são “necessitadas de água” e que cerca de 300 milhões de residentes rurais não têm acesso à água potável.

Estima-se que 4,05 milhões de hectares de terra sejam irrigados com água poluída, que tem efeito negativo na produtividade das culturas e na qualidade e segurança alimentar. A poluição da água faz com que haja níveis crescentes de diarreia e hepatite viral, particularmente em crianças menores de 5 anos. Os efeitos da poluição da água sobre a saúde são particularmente graves em locais onde efluentes industriais não são controlados ou não há esgoto e estações de tratamento.

Uma das razões para os altos níveis de poluição é que, com a rápida industrialização do país, um grande número de fábricas de produtos químicos foi construído ao longo do rio Yangtzé e perto das principais fontes de água potável. Esses recursos hídricos foram contaminados por grandes derramamentos de substâncias tóxicas, como cádmio e cromo. Além disso, grandes porções de aquíferos da China (corpos rochosos através dos quais a água pode se mover facilmente) sofrem com a contaminação por arsênico da água subterrânea.

Um relatório de 2013 da Pesquisa Geológica da China afirmou que 90% das águas subterrâneas do país estão poluídas. Estimativas do Ministério da Proteção Ambiental disse que a água de aproximadamente 25% dos maiores rios da China está tão poluída que não poderia ser usado pela indústria ou agricultura. De acordo com o Ministério de Supervisão há cerca de 1.700 incidentes de poluição de água anualmente, resultando em quase 60 mil mortes prematuras por ano.

Esta é uma situação paradoxal, pois a China é um dos países mais ricos em água do mundo. No entanto, seus recursos hídricos estão distribuídos de forma desigual, uma vez que estão esmagadoramente concentrados na parte sul do país, enquanto as regiões do norte são propensas a falta de água, uma situação que está atingindo níveis alarmantes.

Hidrovias estranguladas

O Ministério de Recursos Hídricos anunciou em 2012 os resultados de um levantamento dos cursos de água do país, que revelou que 28 mil rios desapareceram nos últimos 20 anos, aumentando os graves temores de ambientalistas e funcionários do governo. Embora algumas autoridades acreditem que um declínio tão dramático possa ser explicado por meio de técnicas de mapeamento desatualizadas, os especialistas acreditam que a explicação mais plausível é o rápido desenvolvimento econômico do país e diretrizes ambientais mal aplicadas.

Além disso, a China controla as cabeceiras de vários rios importantes do continente asiático, como o Irtysh, Mekong e Brahmaputra. O represamento dos rios da China provocou protestos dos países afetados. As ações da China a montante pode ter consequências dramáticas nos alcances mais baixos que influenciam o fluxo de água, inundações, níveis de sedimentação e a presença de uma variedade de vida selvagem, bem como os meios de vida das pessoas a jusante. A China construiu tantas grandes barragens quanto todo o resto do mundo junto.

Diante dessa situação crítica, o governo chinês está tomando uma série de medidas, como o Projeto Sul-Norte de Transferência da Água, um empreendimento de US$ 62 bilhões, duas vezes mais caro que a Barragem das Três Gargantas, este o maior projeto hidrelétrico do mundo. O objetivo do Projeto Sul-Norte é desviar pelo menos 22,7 trilhões de litros de água por ano da região sul através dos rios Amarelo e Hai até o Norte da China.

No entanto, esse projeto colossal tem vários inconvenientes. Além do custo, talvez o mais importante seja o número de pessoas que serão afetadas pelo projeto. Mais de 350 mil aldeões estão sendo realocados para abrir caminho para o canal, em muitos casos para terras de baixa qualidade e longe de seus locais nativos. Além disso, um projeto desta magnitude pode destruir a ecologia natural dos rios do Sul, com efeitos incalculáveis para a saúde e vida das pessoas.

Por causa de dúvidas sobre a qualidade da água que será desviada, a dessalinização está sendo tentada como uma alternativa. No entanto, a dessalinização consome quantidades consideráveis de energia para produzir filtros e processar e transportar a água potável, afirma Zhang Junfeng, um ativista ambiental e professor de Meio Ambiente e Saúde Pública da Universidade do Sul da Califórnia. Ele também disse que a dessalinização é uma solução imediatista que não incentiva as pessoas a conservarem os recursos valiosos.

Especialistas argumentam que o governo chinês deve se concentrar em reduzir a demanda de água por meio da utilização mais racional dos suprimentos limitados e do controle da poluição. Além disso, nova regulamentação deve ser decretada para levar à utilização mais eficiente da água na indústria e na agricultura. Novas cidades devem ser construídas levando em consideração a disponibilidade de água e poluidores devem ser multados. Em última análise, muitos especialistas acreditam que a solução para a crise de água na China é mais política do que técnica.

Dr. César Chelala é um especialista e consultor internacional de políticas públicas e ganhador do prêmio “Overseas Press Club of America”

 
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