Grande maioria dos canadenses se opõe a políticos fazendo viagens patrocinadas

Nove em cada dez canadenses se opõem a membros do Parlamento e senadores fazerem viagens patrocinadas, segundo uma nova pesquisa.

A pesquisa realizada em 8 de janeiro, conduzida pela Nanos Research para o jornal The Globe and Mail, mostra que 73% dos canadenses acham a prática totalmente inaceitável e 16% acham isso um tanto inaceitável.

Registros do Comissário de Conflito de Interesses e Ética do Canadá mostram que, desde 2007, os membros do Parlamento realizaram cerca de mil viagens patrocinadas, com mais de 95% para países estrangeiros.

Os patrocinadores das viagens variam de governos estrangeiros até associações e empresas privadas. A China também estava entre os destinos visitados, com as viagens sendo patrocinadas por agências do governo central, governos locais ou associações pró-Pequim no estrangeiro.

A China foi citada por funcionários da inteligência como um dos países estrangeiros mais agressivos na tentativa de exercer influência no Canadá.

Numa entrevista em 2010, o chefe da Agência Canadense de Segurança da Inteligência, Richard Fadden, disse que algumas autoridades canadenses já estão sob a influência de regimes estrangeiros e insinuou que a China é uma das mais ativas.

“Você convida alguém para visitar seu país. Você paga [por] suas viagens e, de repente, você descobre que, quando ocorre um evento que é de particular interesse para o país ‘X’, você contata a pessoa e pede que ela apresente uma visão particular”, disse Fadden.

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O ex-parlamentar John McCallum, agora embaixador do Canadá na China, foi um dos maiores beneficiários de viagens patrocinadas pela China quando era um membro do Parlamento.

O parlamentar liberal Geng Tan e o senador conservador Victor Oh também são viajantes frequentes para a China, informou The Globe and Mail.

Reportagens online em chinês no website do Escritório de Assuntos Ultramarinos Chineses (EAUC) do Conselho de Estado da República Popular da China mostram Geng Tan reunindo-se com o chefe desta organização, que opera sob o aparato da Vanguarda Unida da China.

Victor Oh, John McCallum e Michael Chan, um ministro do gabinete de Ontário, também estavam entre um grupo que deu as boas-vindas ao chefe do EAUC em Toronto, de acordo com reportagens no website do consulado chinês em Toronto. Geng Tan também esteve presente como executivo de uma associação local.

O Partido Comunista Chinês (PCC) usa sua Vanguarda Unida para conduzir as operações de Pequim por meio de suas embaixadas e consulados no exterior, trabalhando especificamente para criar uma “frente unida” que permita ao Partido infiltrar, influenciar e subverter os governos e as sociedades estrangeiros.

‘Eles me tratam como um imperador’

Em 2010, depois de retornar de uma viagem para a China, o então prefeito de Ottawa, Larry O’Brien, retirou seu apoio para uma proclamação reconhecendo os praticantes locais do Falun Dafa, também conhecido como Falun Gong, um grupo espiritual cujos adeptos são perseguidos brutalmente pelo regime chinês. Ele explicou explicitamente sua mudança de coração para um conselheiro de Ottawa como resultado de um “compromisso” que ele assumiu enquanto esteve na China.

Segundo Chen Yonglin, um ex-diplomata chinês que desertou para a Austrália em 2005, o Falun Dafa está entre os “cinco grupos-alvo” que o Partido Comunista Chinês vê como uma grande ameaça. Os cinco incluem os exilados tibetanos, taiwaneses, muçulmanos uigures, ativistas da democracia e adeptos do Falun Dafa.

Enquanto no cargo, o ex-prefeito de Vancouver, Sam Sullivan, que foi convidado várias vezes para ir à China, acionou o sistema judicial para encerrar um local de protesto do Falun Dafa em frente do consulado chinês em Vancouver. “Quando eu vou à China, eles me tratam como um imperador”, disse Sullivan ao Vancouver Sun em 2006.

O ex-prefeito de Londres, Ken Livingstone, foi levado a Pequim durante as Olimpíadas de 2008 como parte de um acordo do regime chinês que custou mais de US$ 30 mil. Ele disse ao London Evening Standard que a China está “indo na direção certa” sobre os direitos humanos. Isso ocorreu quando a China estava constantemente no topo da lista mundial de violadores dos direitos humanos por anos consecutivos. “O governo chinês quebrou sua promessa de melhorar os direitos humanos em paralelo com a permissão de sediar os Jogos Olímpicos de Verão de 2008”, informou a Human Rights Watch em seu relatório anual de 2009.

De acordo com Chen Yonglin, a China também usa frequentemente “armadilhas adocicadas” para enredar e aliciar os políticos ocidentais, incluindo um funcionário australiano que Chen disse ter sido forçado a defender os interesses do regime depois de ter sido envolvido numa dessas armações.

Em seguida, o vice-prefeito de Londres, Ian Clement, foi seduzido e roubado de informações importantes sobre as operações de Londres quando viajou para as Olimpíadas de Pequim em 2008. Isso ocorreu após um incidente envolvendo um assessor do primeiro-ministro britânico, que enfrentou um problema similar uma semana antes.

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