O fracassado experimento soviético do “amor livre”

A desastrosa tentativa comunista de substituir a família pelo Estado

Por Petr Svab, Epoch Times

É provável que ao pensar em “amor livre” você se imagine em Woodstock e não na Rússia Soviética do início do século XX, mas na verdade foi o regime comunista que propôs a tentativa mais ambiciosa da história de liberar a sexualidade humana — com os resultados que já eram esperados.

Assim que os comunistas tomaram o poder em 1917 na Rússia, começaram a criar sistematicamente regulamentos que seguiam as doutrinas de Karl Marx. Seu sonho de uma utopia materialista podia ser alcançada “apenas com a derrubada pela força de todas as condições sociais existentes”, assim como escreveu Marx em seu “Manifesto Comunista”.

Isso incluía não apenas confiscar os “meios de produção”, como fábricas e terras, mas também desintegrar a instituição da família. Os comunistas consideram o compromisso com a família como um obstáculo à devoção do povo pela busca de sua utopia materialista. Em vez disso, as pessoas devem viver em “uniões livres”, se acasalando à vontade.

Para um grande número de russos, especialmente os cidadãos das zonas urbanas, foi vendida a ideia do Partido de que a restrição moral sobre o desejo sexual, enraizada na ética familiar, não trazia nenhum benefício e era algo prejudicial.

Os comunistas convenceram as mulheres que cozinhar para suas famílias e criar seus filhos faziam delas “escravas”. Trabalhar nas fábricas do Estado, disseram eles, tornaria as mulheres muito mais “livres”.

O que foi feito com as crianças? Elas foram separadas de suas mães o mais rapidamente possível — levadas como rebanho para a pré-escola, creches e mais tarde para a escola — para serem criadas pelo Estado como a próxima geração de engrenagens “liberadas” da máquina socialista.

Com base na tradição e na lei russas, as esposas eram materialmente dependentes de seus maridos, enquanto os maridos tinham a obrigação de cuidar e sustentar suas esposas e toda a família. Naquela época, os russos gozavam de um certo grau de liberdade religiosa, e era permitido que as diferentes religiões ditassem as regras do casamento. O divórcio estava limitado a resolver situações como a infidelidade (apenas com duas testemunhas), o abandono ou a impotência.

Os comunistas descartaram e denunciaram todas as leis e tradições, como Marx ditou, e estabeleceram o Código Familiar de 1918. A lei era “nada menos do que a legislação mais progressista que o mundo já tinha visto”, escreveu Wendy Goldman, professora de História da Universidade Carnegie Mellon e perita em história russa, em seu livro “Mulheres, o Estado e a Revolução”.

Casamentos religiosos não eram mais considerados válidos. Em vez disso, se estabeleceram cartórios de registro, onde as pessoas chegavam e simplesmente se registravam como casadas. Da mesma forma fácil, a pedido de qualquer um dos cônjuges, podia-se dar andamento a um divórcio.

“O processo de divórcio é tão simples que não existe perda de dinheiro ou de tempo. Sob a lei atual, o ato de dissolver um casamento pode ser concluído em 15 minutos”, disse o escritor russo P. Zagarin sobre a família em 1927.

A ideia era “libertar” a mulher do casamento e, portanto, da família. Mas em vez disso, o regime deu ao homem a desculpa perfeita para abandonar sua família. Muitos homens de repente descobriram que não tinham “nada em comum” com suas esposas, e logo após o divórcio, encontravam uma surpreendente conexão com mulheres mais jovens e desimpedidas.

Até o final de 1918, quase 7 mil casais se divorciaram apenas em Moscou, enquanto menos de 6 mil se casaram. Em 1927, Moscou tinha 9,3 divórcios para cada 1.000 pessoas — quase três vezes mais do que em Nova Iorque em 2014.

Em nível nacional, no primeiro semestre de 1927, um em cada quatro casamentos soviéticos acabou em divórcio — 50% mais do que nos Estados Unidos, mais de 3,5 vezes a proporção na Alemanha, e 48 vezes a proporção na Inglaterra e no País de Gales.

Incentivadas pelos ensinamentos comunistas da sexualidade sem restrições, as pessoas deixaram de se preocupar em registrar casamentos.

“A grande massa de pessoas não considera o registro do casamento como a base das relações matrimoniais. De fato, as uniões voluntárias estão se tornando cada vez mais generalizadas, escreveu A. Stel’makhovich, presidente do Tribunal provincial de Moscou em 1926.

Se conseguir que o ex-marido pague a pensão alimentícia parece difícil no século XXI, era ainda mais na Rússia dos anos 1920. Os tribunais estavam abarrotados de processos de apoio à criança, e os homens encontravam muitas maneiras de evitar o pagamento, tais como mudança de emprego ou de residência.

O censo soviético de 1926 descobriu que de 530 mil mulheres divorciadas, apenas 12 mil receberam a pensão.

Pior ainda, depois de uma década de guerra, guerra civil e Terror Vermelho, os homens ficaram escassos, o que tornou mais fácil para eles se casarem novamente.

Entretanto, a promessa de que o governo cuidaria das crianças não foi cumprida e a consequência disso foi devastadora. De 1926 a 1927, a pré-escola abrigava cerca de 150 mil crianças de uma população de 10 milhões.

Naquela época, Vera Lebedeva, chefe do Departamento para a Proteção da Maternidade e Infância, disse: “A debilidade do vínculo conjugal e o divórcio criam massas de mulheres solteiras que carregam sozinhas o fardo do cuidado das crianças. Imagine ser uma mulher assim, sem o apoio de seu marido, com uma criança em suas mãos, demitida devido a uma redução de pessoal e expulsa de sua casa […] sem a possibilidade de continuar a se sustentar”.

Mulheres tentam vender suas joias e peças de vestuário em um mercado de rua em outubro de 1921 durante a Grande Fome Russa, ocorrida entre 1921 e 1922 (Topical Press Agency/Getty Images)
Mulheres tentam vender suas joias e peças de vestuário em um mercado de rua em outubro de 1921 durante a Grande Fome Russa, ocorrida entre 1921 e 1922 (Topical Press Agency/Getty Images)

Geralmente, as mulheres divorciadas acabavam na rua.

“Não havia representação mais perfeita do contraste entre o ideal socialista de união livre e as condições da época, como o espetáculo de mulheres que se vendiam nas ruas”, escreveu Goldman. “Foi uma piada a ideia de que as mulheres eram pessoas livres e independentes que podiam ter um relacionamento com base em uma escolha pessoal”.

O conceito de uniões livres fracassou ainda mais miseravelmente no campo. O divórcio significava a divisão dos já pequenos campos de cultivo entre os ex-cônjuges, que podiam se casar novamente e se divorciar repetidas vezes, fazendo com que todos tivessem terras dispersas demais para sobreviver. Por outro lado, se a lei mantinha as fazendas inteiras, a mulher não ficava com quase nada depois do divórcio.

Talvez alguém pense que o “amor livre” falhou devido à falta de contraceptivos, mas a taxa de natalidade já era baixa, para não mencionar o grande número de mortes ocorridas na guerra e pelo Terror Vermelho. Com um desastre demográfico batendo à porta, a Rússia realmente precisava de mais filhos, não menos.

Outros podem dizer que os soviéticos só precisavam de mais pré-escolas e creches. Mas isso teria reduzido o fardo de famílias com mães solteiras apenas um pouco — tornando a situação de devastadora a muito pesada — como muitas das mães solteiras de hoje podem confirmar.

Outros ainda podem dizer que as mulheres só precisavam de mais empregos, mas mesmo que isso aliviasse sua miséria, não teria resolvido o problema fundamental. “Mesmo se a mulher trabalhasse, o divórcio significava uma queda substancial em seu padrão de vida”, escreveu Goldman.

Para reverter o desastre na sociedade, em 1936 a União Soviética abandonou a ideologia do “amor livre” e retornou às suas políticas pró-familiares, proibindo o aborto, cobrando taxas consideráveis para o divórcio, impondo grandes penalidades para quem abandonava sua família e incentivando as mulheres a terem mais filhos.

“A ideia de que o Estado assumiria as funções da família foi abandonada”, escreveu Goldman.

Calcula-se que o comunismo matou pelo menos 100 milhões pessoas, mas seus crimes não foram totalmente compilados e sua ideologia ainda persiste. O jornal Epoch Times procura expor a história e as crenças desse movimento, que tem sido uma fonte de tirania e destruição desde seu surgimento. Leia mais matérias da série O Fim do Comunismo

O conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente as opiniões do Epoch Times

 
Matérias Relacionadas