Fertilidade masculina também é afetada pelo álcool

Pais biológicos que consomem álcool podem ter um papel significativo nas causas dos problemas de saúde de seus filhos

Por Diana Lucia e Karen Moritz

Abster-se do álcool durante a pré-concepção e a gravidez é geralmente considerado responsabilidade da mulher. A principal preocupação em torno da exposição ao álcool durante a gravidez muitas vezes se relaciona com evidências bem estabelecidas de recém-nascidos desenvolvendo uma série de deficiências comportamentais, físicas e cognitivas posteriormente na vida.

Mas pesquisas recentes também apontam para uma ligação entre o álcool e o desenvolvimento deficiente de espermatozoides, o que significa que o ônus também está nos pais. Uma miríade de estudos tem mostrado que pais biológicos que consomem álcool podem ter um papel significativo nas causas dos problemas de saúde de seus filhos.

Estudos mostram que o consumo paterno de álcool tem efeitos negativos em todos os níveis do sistema reprodutor masculino, além de resultados neurológicos, comportamentais e bioquímicos alterados nas gerações subsequentes.

Levantadores de copo

Nas últimas Diretrizes Dietéticas para americanos, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos definiu como sendo consumo moderado a ingestão de até dois drinques por dia para homens e um drinque por dia para mulheres.

De acordo com essa definição, um em cada três adultos americanos bebe excessivamente. As taxas são particularmente altas entre homens e adultos jovens, de forma que os homens mais jovens acabam por correr maior risco devido a este comportamento.

Esses números são alarmantes, dadas as evidências convincentes sobre o impacto do consumo abusivo, crônico ou excessivo de álcool no esperma, na qualidade do sêmen, na fertilidade e na saúde infantil.

Estudos em animais mostraram que uma dose única de etanol no revestimento do estômago (equivalente a um consumo excessivo de álcool em humanos) produz danos nos testículos, danificando as células essenciais para a formação de espermatozoides.

Em outro estudo experimental, a saúde e a fertilidade espermática foram avaliadas em ratos machos após a administração de álcool no estômago por 10 semanas. Os resultados confirmaram que o álcool reduziu significativamente a concentração de espermatozoides e a capacidade do espermatozoide de se mover adequadamente. E nenhum dos ratos expostos ao álcool fertilizou as fêmeas, apesar da confirmação de sucesso no acasalamento.

Estudos sugerem que o uso de álcool no período pré-concepcional pode ser prejudicial para a saúde do seu bebê (Shutterstock)
Estudos sugerem que o uso de álcool no período pré-concepcional pode ser prejudicial para a saúde do seu bebê (Shutterstock)

Uma miríade de outros estudos em não humanos também mostrou resultados semelhantes, sugerindo que o álcool tem a capacidade de danificar o esperma e a fertilidade.

Estudos em humanos também corroboraram esses resultados. Um estudo recente feito com 1.221 jovens dinamarqueses de 18 a 28 anos de idade acompanhou o consumo de álcool na semana anterior ao estudo para determinar seus efeitos sobre a qualidade do sêmen (volume, concentração, contagem total e forma).

Os resultados mostraram que a concentração espermática, a contagem total de espermatozoides e a porcentagem de espermatozoides com forma normal pioravam à medida que os homens bebiam. Esta associação foi observada em homens relatando pelo menos cinco doses de álcool em uma semana típica, mas foi mais pronunciada em homens com uma ingestão típica de mais de 25 unidades por semana. Isso sugere que mesmo o modesto consumo habitual de álcool de mais de cinco unidades por semana pode afetar negativamente a qualidade do sêmen.

Uma revisão recente de estudos e metanálises de dados populacionais replicou muitos desses achados. Os principais resultados mostraram que uma ingestão diária de álcool em níveis moderados a altos teve um efeito prejudicial no volume e na forma do sêmen.

Os efeitos nas crianças

Estudos restritos rastrearam os padrões de consumo dos pais na época da concepção e os resultados subsequentes na saúde da criança. Mas os modelos de roedores mostraram mudanças no peso e desenvolvimento da prole, aprendizado e atividade, comportamentos relacionados à ansiedade, assim como nos efeitos moleculares e fisiológicos.

Um estudo também relatou que as mulheres cujos parceiros consumiram 10 ou mais doses por semana antes da concepção tiveram um aumento de duas a cinco vezes no risco de aborto, em comparação àquelas cujos parceiros não beberam durante a pré-concepção.

Outros estudos fornecem algumas evidências preliminares de que o uso excessivo de álcool na pré-concepção paterna está associado à leucemia, o uso diário a malformação cardíaca e o uso leve a moderado a microcefalia e efeitos em relação ao crescimento fetal e comprometimento cognitivo.

Como o álcool pode afetar o esperma?

O mecanismo exato de como o álcool altera o desenvolvimento dos espermatozoides e os resultados posteriores na saúde do feto ainda não são totalmente compreendidos. Tem sido sugerido que o álcool pode alterar o micro-ambiente dentro dos testículos, alterando o desenvolvimento e a maturação do esperma.

Também foi sugerido que o álcool pode influenciar os espermatozoides, criando alterações genéticas e marcas epigenéticas. Isso significa que mudanças na expressão gênica ocorrem sem alterações na sequência de DNA subjacente. Essas marcas epigenéticas podem ser transferidas no momento da fertilização. Isso pode posteriormente alterar a composição molecular do embrião inicial, levando a alterações no desenvolvimento fetal e no potencial de prejudicar a saúde da prole.

O maior obstáculo para os pesquisadores agora continua sendo traduzir as descobertas das ciências básicas para pesquisas mais sofisticadas em humanos. A próxima etapa é identificar padrões de uso do álcool por homens durante o período pré-concepcional nos desfechos fetais e infantis.

Mas o mais importante, precisamos perceber que as decisões sobre o uso de álcool durante o período de pré-concepção não são de responsabilidade exclusiva das mulheres. Precisamos conversar com os homens sobre essas questões para garantir resultados saudáveis para o bebê.

Diana Lucia é doutoranda em neurociência na escola de Ciências Biomédicas da Universidade de Queensland. Karen Moritz é professora da Universidade de Queensland. Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation.

 
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