Fazer acordo com o diabo não terminará bem

É uma regra silenciosa geralmente observada pelo setor de negócios e de bancos de investimento internacionais que, por causa de interesses, curvar-se a Pequim, voluntariamente ou a contragosto, seria necessário. Esta regra foi mais tarde observada também pelo setor educacional, por exemplo, quando centenas de Institutos Confúcio financiados pela China foram abertos em universidades ao redor do globo.

Mas o que me surpreende é que mesmo a liberdade de expressão dos estudantes do ensino médio americano é violada e constrangida por esta regra silenciosa.

Adolescente americano encara a censura de Pequim

Várias formas de intercâmbio entre os EUA e a China aumentaram nos últimos anos, e se espalham pelo domínio do ensino secundário. Henry DeGroot, um estudante de intercâmbio da Newton North High School, em Boston, EUA, foi para a Escola Pequim Jingshan estudar por um semestre, o que coincidiu com o 25º aniversário do movimento da Praça da Paz Celestial de 1989.

Após escrever no caderno de um colega chinês algumas frases pró-democracia, como “A democracia é para garotos legais”, “É correto se rebelar”, e “Não acredite nas mentiras que sua escola e governo lhe dizem”, DeGroot foi detido por cinco horas em sua escola na China e impedido de se graduar em sua escola Newton North no final do semestre.

Esta não foi a primeira instância em que a China deteve crianças por mencionarem algo proibido. Em setembro de 2013, Yang Hui, um estudante do terceiro ano da Escola Zhangjiachuan, em Gansu, foi incriminado por seus comentários na internet. A notícia de que um adolescente foi penalizado por seu discurso atraiu críticas em todo o país, e a polícia local eventualmente liberou Yang sem acusações, depois de prendê-lo por sete dias.

Tendo em vista a imensa pressão na China, administradores da escola de Yang naturalmente se absteriam de defendê-lo. Em vez disso, eles expulsaram Yang enquanto ele estava na prisão. No entanto, a Newton North High School, embora situada em Boston, Estados Unidos, a terra da liberdade, não denunciou o movimento terrível do lado chinês e castigou-o ainda mais, alegando que o aluno violou as regras do semestre no exterior e “mostrou tanto desrespeito aos chineses que o relacionamento de longa data com a escola poderia ser prejudicado”.

As ações da Newton North indicam que o ensino médio está disposto a abandonar o princípio da liberdade de expressão garantido pela Constituição americana. DeGroot ficou muito decepcionado por não poder participar de sua formatura. Ele opinou que os funcionários da escola exprimiram seus direitos e acrescentou que, embora a Newton North pregasse o tempo todo a importância da desobediência civil e de falar abertamente, ele foi penalizado quando pôs isso em prática.

As pessoas que vivem na China nascem sem liberdade. Por exemplo, Zhao Huaxu, um estudante do segundo ano na Universidade de Estudos Internacionais de Pequim (mais conhecida entre os chineses como Escola de Segunda Língua Estrangeira de Pequim) divulgou na internet informação sobre o incidente de 4 de junho de 1989 e foi criminalmente detido pela polícia “de acordo com a lei”.

Ao invés da China autocrática estar sendo influenciada pelos valores de liberdade e democracia dos EUA, o resultado do intercâmbio cultural entre os EUA e a China é que adolescentes que nascem com liberdade estão percebendo o caráter irracional da autocracia e a natureza frágil da “democracia”. É um direito inalienável dos adolescentes que crescem na sociedade americana desfrutar da liberdade de expressão, assim como do ar e da água. No entanto, na China, a liberdade de expressão é um luxo que exige a liberdade pessoal como preço.

Interesses estão acima do valor universal da liberdade?

David Fleishman, o superintendente da Newton North, evitou a questão crítica de se os alunos devem expressar livremente seus pensamentos. “O problema não é que um jovem de 18 anos tenha expressado suas opiniões, mas que ele fez isso num semestre patrocinado pela Newton North para estudar na China, violando um código de conduta claramente enunciado aos alunos antes de partirem”, disse Fleishman.

O que Fleishman disse soa um pouco convincente numa primeira impressão e foi o bastante para enganar algumas pessoas. No entanto, para aqueles que estão familiarizados com a evolução das relações EUA-China em anos recentes, o incidente da Newton North os lembraria de outro incidente semelhante a este.

Em fevereiro de 2006, quatro gigantes da internet foram convocados pelo Congresso americano para uma investigação, o motivo foi que estas empresas “obedeceram às leis chinesas” e ajudaram o governo chinês a restringir e manipular o discurso na internet. Essa investigação deve servir como uma bússola moral para incidentes posteriores de natureza semelhante.

Ao entrar no mercado de internet da China em grande número, as empresas americanas foram obrigadas a cumprir as exigências do governo chinês (ou seja, elas passaram a obedecer às leis chinesas) e ajudaram a filtrar informação para ganhar uma posição no país. O Yahoo! foi acusado de colaborar com o governo chinês em vários incidentes, alguns dos quais são os seguintes: (1) o Yahoo! ajudou a polícia chinesa e entregou às autoridades dados de navegação do dissidente Li Zhi, o que resultou em sua acusação por “incitar subversão” e numa condenação a oito anos de prisão em dezembro de 2003; (2) a empresa auxiliou a China na prisão do dissidente Shi Tao, que foi condenado em 2005 a dez anos de prisão por “fornecer segredos de Estado a entidades estrangeiras”.

Em 15 de fevereiro de 2006, o Comitê de Relações Internacionais do Senado dos EUA realizou a 2ª sessão da audiência intitulada “Internet na China: Uma ferramenta para a liberdade ou repressão?”, e convocou gigantes da internet como Microsoft, Google, Yahoo! e Cisco para um inquérito sobre seus papéis no sentido de ajudar o governo chinês a filtrar informações.

A gerência sênior do Yahoo! apresentou suas razões, afirmando que eles tinham de cumprir a lei chinesa para fazer negócios. Google e Microsoft também admitiram sua conformidade com as demandas de censura do governo chinês e que filtravam palavras que o governo chinês considera politicamente sensível. No entanto, o Google estava convencido de que essas concessões valiam a pena, porque, mesmo que eles concordassem com algumas restrições, sua presença no país com uma população de 1,3 bilhão ampliou os canais por meio dos quais o povo chinês obtém informações.

Da mesma forma, os administradores da Newton North poderiam naturalmente insistir que, para permitir a continuação do intercâmbio com o setor educacional da China, seria necessário algumas concessões. No entanto, o que esta escola ganhou foi insignificante e isso veio com o preço de abandonar os mesmos princípios que os quatro gigantes da internet desconsideraram para ter acesso ao mercado chinês.

Se cada instituição norte-americana se conformar com as leis chinesas (ou contratos) que estão em conflito direto com os valores americanos, então quão grande dano isso causaria a esses valores? A forma como a Newton North tratou este incidente foi equivalente a dizer a seus alunos que, enquanto a escola ensina o princípio de “desobediência civil”, e que cada pessoa tem o direito de livre expressão, seus alunos devem aprender a abrir mão de seus princípios e abaixar a cabeça quando estiverem em países autocráticos porque: interesses são mais importantes.

Interesses acima de tudo na China

Houve inúmeros casos em que princípios foram ignorados por causa de interesses. Um exemplo recente são os mais de 30 bilhões de dólares em contratos comerciais que o premiê chinês Li Keqiang trouxe consigo quando visitou a Grã-Bretanha. Enquanto a Grã-Bretanha ficou muito feliz com isso, ela foi enfaticamente lembrada por Liu Xiaoming, o embaixador da China no Reino Unido, a não criticar a República Popular da China sobre questões de direitos humanos se quiser manter uma estreita cooperação econômica entre os dois países. Outro exemplo foi quando o New York Times publicou em 12 de junho um artigo intitulado “Mídia de Hong Kong se preocupa com a penetração da China enquanto anúncios desaparecem”. O artigo dizia que “dois bancos sediados em Londres, o HSBC e o Standard Chartered, terminaram no ano passado relacionamentos de publicidade de longa data com o jornal Apple Daily quando foram assim orientados pelo governo chinês”.

Embora ambos os bancos tenham dito que suas decisões de publicidade eram comerciais, Mark Simon, o diretor comercial da Next Media Ltd., afirmou numa entrevista com o NYT que o motivo verdadeiro era a pressão das autoridades comunistas, cujo objetivo era amordaçar as “organizações de mídia de Hong Kong que criticam a China continental”.

A única coisa que se obtém em troca da submissão a países autocráticos é seu desdém. As grandes potências europeias têm sido durante muito tempo submissas à “ordem diplomática” da China por considerações econômicas. Após a crise financeira de 2008, as relações e oportunidades de cooperação econômica com a China se tornaram particularmente valiosas para a França, Alemanha e Reino Unido. Ciente disso, Pequim mudou sua estratégia de propaganda nacional, de artigos que retratavam a “diplomacia hipócrita de direitos humanos do Ocidente” para críticas abertas e desprezo. Por exemplo, em 6 de junho de 2013, a mídia estatal chinesa Diário do Povo publicou um artigo que sugeria aos europeus deixarem sua “mentalidade condescendente profundamente enraizada” porque os tempos mudaram e o equilíbrio de poder mudou, a “União Europeia deve reconhecer o fato de seu declínio”.

Após a experiência do estudante Henry DeGroot da Newton North High School em Pequim vir à tona, todos os setores dos EUA deveriam agir e refletir seriamente sobre os valores e princípios que não devem ser abandonados. Afinal, inúmeros incidentes mostram que firmar um acordo com o diabo não acaba bem.

He Qinglian é uma proeminente autora chinesa e economista que atualmente vive nos Estados Unidos. Ela é autora de “China’s Pitfalls”, que trata da corrupção na reforma econômica da China da década de 1990, e “The Fog of Censorship: Media Control in China”, que aborda a manipulação e restrição da imprensa. Ela escreve regularmente sobre questões sociais e econômicas da China contemporânea

 
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