Família: o que a China comunista poderia (mas não vai) aprender da Romênia

Menos crianças significa menos chineses para sustentar a economia e o exército

Por Bernardo Schotgues

Planejamento familiar: Em países livres isso significa pensar nos filhos com antecedência, gravidezes desejadas e planejadas. Na China, significa um dos maiores experimentos sociais da história.

Em 1980 o partido comunista começou a política do filho único, assustado por teorias pseudocientíficas de superpopulação. Muitas mulheres receberam DIUs, esterilizações e abortos coercitivamente. Famílias desesperadas tinham filhos em segredo, que não recebiam documentos e eram proibidos de participar na sociedade.

A legislação mudou o limite para 2 filhos em 2015, e para 3 em 2021. Se atingiu o objetivo de diminuir o crescimento populacional. O censo de 2020 mostrou o menor número de nascimentos em 60 anos.

A mudança não foi por acaso. A China se colocou em maus lençóis. Menos crianças significa menos chineses para sustentar a economia e o exército, exatamente quando o crescimento econômico está diminuindo e as tensões militares aumentando. As ambições de dominação econômica mundial do partido comunista podem fracassar, não por causa de forças estrangeiras, mas pela própria demografia chinesa. Como o regime autoritário irá reagir?

Outros países comunistas já tiveram políticas pró-natalistas, com o tiro saindo pela culatra. Um dos casos mais emblemáticos é o dos famosos orfanatos romenos.

A Romênia legalizou o aborto em 1957, com uma das políticas mais liberais da Europa. Não havia grande disponibilidade de outros meios para  impedir nascimentos no país. Com o baixo padrão geral de vida, a modernização pós-guerra e alta participação das mulheres na força de trabalho, 1966 alcançou o mais baixo número de nascimentos da história da Romênia.

Em outubro do mesmo ano, o ditador Nicolae Ceaușescu assinou pessoalmente o decreto 770. Abortos e todos os métodos anticoncepcionais estavam proibidos. Só poderiam ser considerados para mulheres acima de 45 anos, gravidezes de risco, incesto ou estupro, ou se a mulher tivesse pelo menos 5 filhos.

Toda a sociedade foi estritamente controlada para fazer cumprir o decreto. Contraceptivos sumiram das lojas. Todos os meses havia inspeções ginecológicas obrigatórias para detectar gravidezes e garantir que seriam levadas a termo. Securitate, a polícia secreta romena, mantinha um pente fino em procedimentos hospitalares. Educação sexual focava nos benefícios da maternidade, principalmente a “satisfação de ser uma heroína que dá muitos filhos ao país”. Pessoas acima de 25 anos pagam taxas de 30% sobre a renda.

Em 1 ano, o número de nascimentos dobrou. A geração de 67 e 68 é a maior da história da Romênia. Só que em 1970, os nascimentos começaram a cair outra vez. Os ricos subornavam médicos por diagnósticos falsos para poder abortar, ou compravam contraceptivos ilegais. Os pobres usavam métodos mais rústicos, levando a infecção, esterilização e morte. A mortalidade infantil estava em queda constante na região, enquanto na Romênia havia subido para mais de 10 vezes a das nações vizinhas. Muitas dessas crianças morriam, ou viviam, nos orfanatos lotados.

Os orfanatos submetiam as crianças a todo tipo de abuso, negligência e violência para controlar o comportamento. O nome era trocado por um número, e várias nunca descobriram seu nome completo. Em 82, Ceaușescu confiscou uma parte significativa da riqueza nacional para pagar o débito estrangeiro. Comida, aquecimento e eletricidade eram escassos. O destino mais severo era reservado para as crianças etiquetadas de “irrecuperáveis” – consideradas pelo estado como “não produtivas”, e encaminhadas para tutela do ministério do trabalho.

Sobreviventes relatam como podiam ficar amarrados a suas camas o dia inteiro, sobre os próprios excrementos. Eram lavados com uma mangueira de água fria, detergente e vassoura. Doenças e ferimentos simples podiam levar à morte pela falta de cuidado. Instrumentos sujos eram usados no tratamento, infectando as crianças com HIV. Às vezes, só morriam de fome. Em um orfanato, 5 crianças morreram caindo do segundo andar porque ninguém estava prestando atenção. Punição corporal era encorajada, e os funcionários que não batiam nas crianças eram considerados fracos e frouxos.

Essas condições só foram descobertas após a queda do regime, em 1989, e consideradas uma grave violação de direitos humanos. A Romênia foi o único país onde o líder foi violentamente morto no fim da guerra fria. Os órfãos mais velhos teriam 22 anos na época, e se especula que foram proponentes da derrubada violenta do regime.

Os números oficiais de países comunistas não são confiáveis, entretanto, quando a atrocidade veio a público, mais de 100.000 órfãos foram encontrados. É estimado que meio milhão cresceram nesses lugares, e 10.000 morreram neles.

A comoção internacional levou a muitas adoções, mas irregularidades levaram a Romênia a banir a adoção por estrangeiros em 2004. Os órfãos mais velhos e os que não foram adotados continuaram no sistema, sendo soltos na sociedade aos 18 anos sem qualquer preparo ou adaptação. Muitos vivem nas ruas, usando drogas e mendigando.

Os que foram adotados também encontraram diversas dificuldades. Houveram danos cognitivos permanentes. Mesmo anos depois, se constatou ansiedade, apegos inseguros, dificuldades com relacionamentos interpessoais, QI baixo, TDAH e cérebros menores, com bem menos atividade elétrica. Muito do que se sabe da importância de cuidados, estimulação e nutrição em bebês vem do estudo desses órfãos.

Controle populacional não é incomum em regimes comunistas e outros tipos de totalitarismo. A vida das pessoas é reduzida à função que desempenham no jogo do governo centralizado. A pretensão é o insidioso controle sobre o destino das pessoas, do juízo de quem nasce, vive ou morre, e como. O resultado é o imenso custo humano que vem com a destruição da família, da liberdade e do espírito.

As opiniões deste artigo são ideias do autor e não refletem necessariamente os pontos de vista do Epoch Times.

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