Ex-chefe da segurança da China implicado em extração forçada de órgãos

Em recente mudança de linha de discurso, Huang Jiefu, ex-vice-ministro de saúde da China e autoridade responsável por conduzir questões ligadas a transplantes de órgãos na China, culpou Zhou Yongkang, ex-chefe geral de segurança da China, pelo uso de prisioneiros de Estado como estoque vivo de órgãos. Zhou Yongkang foi uma liderança do regime chinês que sempre esteva a serviço de Jiang Zemin, ex-presidente da China.

As novas declarações de Huang Jiefu ajudam a confirmar um crime que nenhuma autoridade chinesa havia admitido: o massivo uso de órgãos de prisioneiros em transplantes, e não apenas de prisioneiros no corredor da morte (condenados ao fuzilamento), mas também de prisioneiros de consciência vivos.

Huang Jiefu, maior autoridade ligada a transplantes na China.
Huang Jiefu, maior autoridade ligada a transplantes na China (Song Xianglong/The Epoch Times)

Zhou Yongkang foi recentemente preso como parte da campanha anticorrupção dirigida pelo líder do Partido Comunista Chinês e Presidente da China, Xi Jinping, campanha essa que, no fundo, é um esforço não velado para eliminar todos os partidários leais a Jiang Zemin, ex-líder do Partido e ex-presidente da China (1993-2003).

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As autoridades chinesas que já foram presas nessa campanha anticorrupção, entre elas Zhou, estão envolvidos na perseguição contra o Falun Gong, a qual foi iniciada e encabeçada por Jiang Zemin. Investigadores descobriram que os praticantes da disciplina espiritual Falun Gong são os principais alvos dessa extração de órgãos iniciada em 2000 e que continua até hoje.

Foi numa extensa entrevista à emissora Phoenix Television de Hong Kong, que Huang Jiefu, ex-vice-ministro de saúde da China, fez essas declarações.

Narrativa heróica

Huang, em sua narrativa de lutas heróicas pessoais e de seus colegas para reformar o abusivo sistema de transplante de órgãos na China, disse: “Quando decidimos tratar da questão da dependência de órgãos de prisioneiros”, foi “o período mais desamparado que já estive”.

“Usar órgãos de prisioneiros é uma situação que naturalmente leva a todo tipo de problemas obscuros e difíceis. Vocês sabem o significado de minhas palavras?, disse Huang, enigmaticamente, a um jovem repórter.

“Tornou-se algo imundo, obscuro e intratável, tornou-se uma área extremamente complicada, extremamente sensível, basicamente uma área proibida”, continuou Huang.

“Isso tudo foi devido à influência nefasta de Zhou, chefe da segurança”, disse Huang. “Mas a nova liderança (Xi Jinping) e seus aliados, com uma severa campanha anticorrupção, foram capazes de tornar as reformas possíveis”, disse Huang.

Tigre grande

Quando perguntado qual “grande tigre” (poderosa autoridade chinesa) foi o maior obstáculo às reformas, Huang respondeu rapidamente: “Está muito claro. Todo mundo sabe quem é o grande tigre. Zhou Yongkang, ex-membro do Comitê Permanente do Politburo, é o grande tigre. Zhou estabeleceu nossas políticas e leis. Todo mundo sabe disso… De onde os órgãos de prisioneiros executados vêm, isso não está muito claro?”.

Zhou Yongkang, ex-membro do Comitê Permanente do Politburo chefe do aparato de segurança da China.
Zhou Yongkang, ex-membro do Comitê Permanente do Politburo e ex-chefe do aparato de segurança da China (AP Photo/Lee Jin-man)

Huang disse que o ex-presidente Hu Jintao (2003-2013) e o ex-premier Wen Jiabao apoiaram os nosso esforços de reforma, e que o atual presidente Xi Jinping e o premier Li Keqiang também fazem isso.

Huang declarou que, na China, há uma tentativa de rever o atual modelo de transplante que depende de órgãos de prisioneiros. Se essas mudanças serão realmente implementadas é uma questão para debate entre os especialistas.

Não há dúvida que Zhou, como chefe do poderoso aparato de segurança da China, teve um papel nisso e, provavelmente, um papel fundamental no uso de órgãos de praticantes de Falun Gong.

Numa tentativa de aparar arestas e limpar a barra de outras lideranças do Partido, toda a responsabilidade está sendo jogada apenas sobre algumas poucas altas lideranças do Partido Comunista Chinês como o ex-poderoso chefe da segurança, Zhou. De fato, Zhou comandou um temido e intimidador aparato de vigilância e violência, e foi, em grande parte, sob sua supervisão que ocorreram os abusos com órgãos de prisioneiros.

Extração de órgão por militares

Houve também o general Xu Caihou, um alto comandante militar deposto que também foi apontado por encabeçar os abusos cometidos nos transplante de órgãos nos meios militares. Xu permitiu que militares abrissem caminho para a extração de órgãos de pessoas semi-vivas, na verdade, de prisioneiro mantidos vivos durante a extração de seus órgãos. Esse hediondo procedimento cirúrgico permite obter órgãos excelentes para transplante, porque, a cada minuto que o órgão deixa de receber fluxo de sangue, sua qualidade se degrada (isquemia).

Coincidentemente, a veiculação de notícias sobre Xu como o responsável pela extração de órgãos de prisioneiros – acusado por um bem conhecido cirurgião ex-militar de Pequim – precedeu o anúncio de sua morte de apenas alguns dias. A data de sua morte por si só é causar estranheza, pois ocorreu precisamente um ano depois de ele ter sido preso sob acusação de suborno.

Ambos, Zhou e Xu, foram leais a Jiang Zemin, que iniciou a perseguição ao Falun Gong em 1999 e, de acordo com organizações de defesa dos direitos humanos, ordenou a extração de órgãos de seus praticantes.

Xi Jinping gastou a maior parte de sua energia ao longo dos últimos dois anos para eliminar a influência de Jiang e seus comparsas sobre o Partido Comunista Chinês, entre os quais estão Zhou e Xu Caihou.

Mentir constantemente

Não está claro se as recentes declarações sobre o envolvimento de Zhou e Xu na extração de órgãos são simplesmente parte dessa campanha para acabar com a influência de Jiang sob o Partido ou se destinam a tentar evitar que o Partido Comunista Chinês seja responsabilizado pelo assassinato em massa de prisioneiros de consciência (religiosos, defensores de direitos humanos, minorias étnicas, etc.), caso toda a história em torno disso venha à tona.

O que os comentários de Huang fazem é “mostrar o quanto político Huang Jiefu é”, disse David Matas, coautor de um extenso relatório sobre a extração forçada de órgãos de praticantes do Falun Gong. “Huang disse apenas o que ele considera que pode ser dito no atual contexto político da China. Ele não nos traz novos fatos, apenas diz  que a atual situação política já permite dizer”.

David Kilgour, também coautor do relatório, disse que Huang é um perfeito mentiroso e não se deve confiar nele, pois ele apenas repete uma diretriz do Partido Comunista Chinês já estabelecida: “Huang Jiefu nunca admitiu que órgãos vêm de praticantes do Falun Gong. Ele apenas diz que são órgãos de prisioneiros. Ele mente sobre isso, finge que as vítimas do Falun Gong não são fonte desses órgãos “, disse Kilgour.

Não há dúvida de que Zhou, como chefe geral do aparato de segurança da China, teve papel nisso e, provavelmente, papel fundamental no uso de órgãos de praticantes do Falun Gong para transplantes. Contudo, se esse uso abusivo de órgãos, como tudo indica, começou em 2000, ou seja, antes do mandato de Zhou como chefe de segurança.

Reforma? De fato?

Outro elemento confuso nas declarações de Huang é a real intenção por trás disso: Huang novamente diz estar ajudando a construir um sistema que nunca mais usará órgãos de prisioneiros. Apenas de cidadãos que voluntariamente quiserem doar órgãos e estejam cadastrados num sistema oficial de captação e distribuição de órgãos, que supostamente garantirá uma fila de espera por órgãos justa.

No entanto, alguns meses atrás, Huang redefiniu, em várias ocasiões, o que é “doação voluntária de um cidadão” de modo a efetivamente incluir prisioneiros entre esses “cidadãos” com direito a doar órgãos.

China Daily, a publicação oficial do regime chinês em idioma Inglês, em dezembro do ano passado, também deixou claro que “prisioneiros estão entre os candidatos qualificados a serem doadores”, citando Huang Jiefu.

Dupla intenção

Este jogo de palavras – a reclassificação de presos como cidadãos autorizados a doar (em situação onde o consentimento é duvidoso e eticamente condenável) – parece ser ainda em jogo.

Ethan Gutmann, autor de um livro sobre a extração forçada de órgãos de praticantes do Falun Gong, comparou as reformas a um ‘faz de conta’ como aqueles vistos na época de Joseph Stalin. Huang Jiefu dá uma entrevista na qual diz: Não se preocupem. Presos farão doações voluntárias a partir de agora”, escreveu Ethan Gutmann em um e-mail.

Gutmann continuou: “Huang Jiefu tenta persuadir o Ocidente de que, no que se refere a transplantes de órgãos, as coisas estão entrando no eixo na China. Não é nem mesmo uma boa mentira, é quase desrespeitoso. Somente aqueles no Ocidente que realmente querem ser enganados aceitariam um tão óbvio ‘bait and switch’ (oferta um algo mentiroso, mas atraente, como isca com a intenção de vender outra coisa)”.

 
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