Europa deve parar de remendar crises e comprometer-se com a união e a reforma

Voluntário carrega caixas contendo alimentos e produtos de casa, que serão distribuídos às vítimas da severa crise financeira no Chipre, em 3 de abril de 2013 (Yiannis Kourtoglou/AFP/Getty Images)

O progresso da Europa em direção a uma maior unidade ao longo do último meio século tem sido um negócio turbulento, marcado por alertas recorrentes de colapso seguidos de compromissos que não satisfazem ninguém, mas mantêm o show na estrada. Então, por que esta crise de 40 meses na zona do euro seria diferente? Com o caso vergonhoso do Chipre resolvido, será que uma solução não foi conseguida com outro remendo?

A resposta é provavelmente ‘não’ e as ramificações do que está acontecendo vão muito além do tipo de ajustes de fim de noite que os líderes europeus têm sido tão adeptos em conceber no passado. A crise que começou com a divulgação de um buraco negro no orçamento da Grécia em 2009 é mais ampla e interligada do que antes.

A crise europeia envolve questões fundamentais que os líderes europeus têm contornado, enquanto o bloco comercial do Mercado Comum da década de 1950 evoluiu para a máquina hodierna altamente complexa sediada em Bruxelas e com uma moeda comum que é um trabalho em andamento.

O Chipre foi tratado, ao menos por hora, pelo tipo de medidas draconianas que os membros poderosos podem impor num pequeno e frágil membro de seu clube. Sem o acordo de última hora alcançado em 25 de março, a ilha teria falido, abandonada não só pelos parceiros europeus, mas também pelos russos que se aproveitaram das frouxas regulamentações bancárias para colocar dinheiro em seus bancos.

Assim, o país deve agora pagar o preço com a austeridade, o fechamento de um grande banco e a reestruturação de outro, além de mais impostos sobre depósitos bancários que destruirão as pretensões de um próspero centro financeiro no estrangeiro e deixarão aqueles com depósitos maiores ainda pior.

Jeroen Dijsselbloem, chefe holandês do Eurogrupo, uma organização formal intergovernamental de ministros de finanças da região, em seguida, elevou as apostas, dizendo que isto estabeleceria um modelo para o futuro. Os acionistas de bancos insolventes em países que necessitem de resgate seriam atingidos primeiro, seguidos por portadores de títulos e depositantes não-assegurados. Embora Dijsselbloem tenha rapidamente retirado sua declaração, o futuro parece claro enquanto outros membros menores da zona do euro estão sob olhos atentos e investidores enfrentam a perspectiva de verem seus capitais expropriados como resultado de decisões políticas desesperadas para evitar que a moeda comum escorregue.

Navegando na maré de dinheiro barato que flui da flexibilização monetária, os mercados têm aceitado isso com calma, mas se medicina semelhante for aplicada num país maior, a corrida até a porta pode se transformar numa debandada.

O estilo de ajustar as coisas ao longo do caminho, aplicado durante a crise, e mais evidente na condução caótica da crise no Chipre, é ainda mais perigoso por causa do contexto da moeda comum.

Considerando o compromisso com a austeridade para retirar o continente de seus problemas, tal como aprovado por seus líderes, é difícil ver um erguimento geral significativo na expansão econômica; mesmo o presidente francês Hollande, grande defensor do crescimento, está prometendo cortes de gastos. Isso aumentará o já elevado nível de desemprego em muitos dos membros maiores da região, enquanto o setor público é emagrecido e empresas retêm investimentos ou remodelam seus negócios para se tornarem mais competitivas com menos pessoal.

A necessidade de reforma estrutural, inclusive nos mercados de trabalho, tem sido evidente há décadas, mas os fáceis anos iniciais mimaram governos e cidadãos da zona do euro com a complacência.

Agora, o preço está sendo pago e a linha de batalha está sendo traçada entre o espírito austero dos Estados europeus do Norte, em geral em boa forma, e seus parceiros do Sul, que não estão bem. Fatores políticos agora entram em jogo em algumas das maiores nações do continente. A Itália está nas garras de uma crise governamental após eleições inconclusivas. Hollande vive uma baixa recorde nas urnas e falhou em passar uma mensagem convincente numa entrevista de televisão na semana passada. O partido governante na Espanha é acusado de envolvimento num escândalo de financiamento.

Com as eleições federais no final deste ano, a mulher forte do continente, a chanceler alemã Angela Merkel, não pode se dar ao luxo de oferecer concessões que os eleitores alemães veem como favores a países que, na sua opinião, já foram autorizados a se safarem com irresponsabilidade por tempo demais. Partidos e movimentos extremistas que denunciam o sistema político ganharam terreno na Itália e na Grécia, enquanto um quarto do eleitorado optou por candidatos antieuropeus no primeiro turno da eleição presidencial francesa do ano passado.

Por trás de tais problemas imediatos esconde-se a questão fundamental de saber se a construção da zona do euro pode ser concluída pela união fiscal necessária para operar uma verdadeira moeda comum. Isso envolveria entregar a soberania, o que ficaria na garganta de alguns Estados, a começar pela França.

O equilíbrio de poder significa que o avanço do processo, que começou com o Tratado de Roma em 1957, seria inevitavelmente feito nos termos estabelecidos pela Alemanha e seus aliados economicamente fortes no norte da Europa. Isso seria difícil de resolver considerando os tropeços vistos na crise atual. Até agora, os políticos podem congratular-se por terem bolado uma série de escapadas de última hora, mas, quanto mais tempo isso durar, mais difícil será permanecer em cena.

Jonathan Fenby é comentarista sediado em Londres e autor de “The General: Charles de Gaulle and the France He Saved”. Atualmente, ele trabalha numa história da França moderna. Com a permissão de YaleGlobal Online. Copyright © 2013, Centro Yale para o Estudo da Globalização da Universidade de Yale.

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