EUA: agentes do FBI veem demissão do vice-diretor como desvencilhar agência da política

Andrew McCabe renunciou a seu cargo de vice-diretor do Departamento Federal de Investigação (FBI) dos Estados Unidos em 29 de janeiro, apenas algumas horas antes de o Senado aprovar a liberação de um memorando que alegadamente mostra o FBI usando seus poderes por motivos políticos que protegeram Hillary Clinton e procuraram minar o presidente Donald Trump.

A reviravolta no topo do FBI está sendo definida por alguns políticos e grandes mídias como um ataque à própria agência, incluindo o ex-procurador-geral Eric Holder que afirmou no Twitter: “Ataques falsos ao FBI e ao DOJ [Departamento de Justiça] para distrair a atenção de um inquérito criminal legítimo causa danos desnecessários e em longo prazo a esses fundamentos do nosso governo.”

Um agente veterano do FBI, no entanto, diz que, para muitos agentes do FBI, as reivindicações de Holder e outros não poderiam estar mais longe da verdade.

“A verdade é que os agentes são pessoas muito inteligentes. Eles sabem que os ataques da Casa Branca não são direcionados a maioria dos funcionários e a organização, mas claramente direcionados à elite [da instituição]”, disse Marc Ruskin, autor de “The Pretender: My Life Undercover for the FBI“, que passou 27 anos na agência.

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Ruskin disse que, entre a comunidade de agentes antigos e aposentados do FBI, eles acreditam em grande parte que a agência foi envolvida na política pelo ex-diretor do FBI, James Comey, e que essa politização da agência continuou sob Andrew McCabe.

“Para cada agente que defende Comey, há dez que estão furiosos com o Departamento ter sido manipulado para fins políticos”, disse ele.

“A crença da grande maioria dos agentes do FBI e dos agentes aposentados é que a politização do FBI, que ocorreu nos últimos dois anos sob Comey, McCabe e outros, está sendo essencialmente limpa”, disse Ruskin.

“Esta é uma limpeza geral e restaura o FBI ao seu papel como uma agência neutra e livre da influência política”, afirmou.

Purificar o FBI da influência política também foi abordado por Frank Gaffney, o presidente do Centro de Política de Segurança. Ele afirmou num e-mail que, para aqueles que admiram o FBI “e entendem o seu importante papel na proteção da segurança nacional e da segurança pública”, o dia 29 de janeiro foi um dia crucial.

McCabe, disse Gaffney, “representa a politização da administração sênior do Departamento, o que prejudicou sua atuação sob os ex-diretores Robert Mueller e James Comey, e prejudicou a confiança do povo americano na organização.”

Ele observou que o memorando alegadamente expõe “a vigilância doméstica politicamente motivada e outras malversações” que ocorreram no FBI sob a direção de McCabe.

De acordo com Ruskin, para entender corretamente a reviravolta e suas percepções dentro do FBI, é importante entender a divisão entre administração do FBI e os agentes comuns em geral.

A maioria das burocracias usa um sistema de gerenciamento de pirâmide, em que os funcionários geralmente entram na base, e então fazem esforços para subir nas fileiras. Ruskin observou: “O FBI não é assim. A maioria dos agentes entra no nível inferior, e a maioria quer ficar no nível inferior.”

Muitos que entram no FBI, disse ele, fazem isso pelo desejo de aventura ou por um senso de justiça. Ao avançar suas carreiras, Ruskin disse: “Eles querem participar de investigações mais complexas e, em vez de lidar com casos de rotina, eles lidam com grandes casos de colarinho branco ou crime organizado.”

Os agentes que entram na administração do FBI, no entanto, são muitas vezes uma raça completamente diferente. “Os agentes que entram na administração são frequentemente os que não são os melhores agentes de rua”, disse Ruskin. “Eles são aqueles que não se sentem muito confortáveis ​​na rua ou não conseguem desenvolver um relacionamento. Uma vez que eles estão na administração, eles tentam se agarrar e rastejar até o topo.”

Por causa dessa diferença de metas, existem duas culturas claramente distintas no FBI entre os agentes no terreno e aqueles que entram na administração.

“Os agentes [de rua] são muito dedicados à verdade e a encontrar os criminosos”, disse Ruskin. “A outra cultura é composta de burocratas que tentam avançar suas carreiras e subir para o próximo nível. Eles tentam não balançar o barco, e não fazem nada que impeça sua ascensão até o topo.”

“Indivíduos como McCabe eram conhecidos por serem notórios por destruir qualquer um que entrasse no seu caminho. Muitos o reconheciam como uma pessoa autoritária e mandona que esmagaria qualquer um que estivesse no seu caminho”, disse Ruskin.

McCabe, disse ele, era conhecido como um administrador pequeno que gostava do poder e perseguia aqueles que estavam abaixo dele, mas também tinha uma natureza sicofanta e procurava apaziguar os supervisores acima dele. Ruskin disse: “Não haverá lágrimas caídas por causa de sua partida, particularmente para as pessoas que ele considerava como obstáculos em sua ascensão contínua.”

“Compreendendo que existem essas duas culturas, a cultura burocrática e a de rua, você consegue entender que os agentes em geral e a organização não se incomodam com os comentários sobre a politização”, disse Ruskin. “Eles não sentem que estão sendo visados. Eles entendem que eles e a gerência são dois animais diferentes, e um ataque à administração não é um ataque aos agentes e a organização.”

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