Estudos, mistificações e nobres propriedades do Chaga

Até recentemente, o fungo chaga era praticamente desconhecido para quem não vive em climas frios. Hoje, é promovido na internet como uma panaceia.

Alvo de histórias exageradas e até de estudos inventados, o chaga adquiriu alguma fama desde o seu início obscuro, mas é verdade que também tem méritos comprovados. Este fungo tem história em uso tradicional entre várias culturas, e existem evidências modernas do seu potencial de cura.

Às vezes chamado de cogumelo – na realidade é um micélio – o chaga parece e sente-se ao toque como se fosse um pedaço de madeira carbonizado e rachado nas bordas.

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O chaga tem sido chamado de câncer de árvore, pois o seu desenvolvimento é como um filme de terror em camera lenta para as árvores. Este parasita fúngico infecta as árvores profundamente a partir do tronco. À medida que a massa cresce, durante vários anos empurra as casca e cria bolhas de dentro para fora até à morte de sua anfitriã.

O fungo pode afetar o amieiro, o álamo-branco e outras árvores, mas só quando é colhido de uma bétula viva – particularmente da bétula negra, do vidoeiro-de-papel e da bétula amarela – é que é considerado medicinal.

Em medicina popular, o chaga foi usado para problemas do estômago e de pele, mas serviu primariamente como aquilo que chamamos de adaptógeno – uma planta que ajuda o corpo humano a adaptar-se competentemente para enfrentar o estresse. Algumas culturas queimam o chaga e usam a sua fumaça para limpezas rituais, como fazem também com a sálvia. Na Finlândia é usado como substituto de café.

Muitas das indicações populares sobre o chaga (e o próprio nome) vêm da Sibéria Ocidental, de onde é dito que vêm os melhores espécimes Ao novelista russo Aleksandr Solzhenitsyn é dado o crédito por ter promovido o fungo. Em sua novela de 1968, “A ala do câncer”, o autor e vencedor do Prémio Nobel fala de um médico de província que observa os camponeses russos utilizando o chaga para tratar suas doenças.

Fatos e Ficção

O chaga possui alto valor em antioxidantes, mas muitos websites promovem um número enorme, sugerindo que se baseiam em um estudo da Universidade de Tufts. Infelizmente, a Universidade afirma nunca ter realizado nenhuma análise do chaga. Exemplos similares de falsa propaganda podem ser encontrados em “Chaga – Os fatos”.

A Polónia e a Rússia foram os primeiros a investigar o chaga, com estudos mais recentes vindo do este da Ásia. Clínicas no Japão e na Coreia tratam pacientes com extratos de chaga.

O chaga também tem chamado atenção na China, mas o seu elo com antiga medicina chinesa pode ser mais fraco do que os relatos sugerem. Muitos websites declaram que Shen Nung, o pai da agricultura chinesa, louvou o chaga como a “rainha das ervas”, e como uma “oferta preciosa da natureza”. Contudo, Shen Nung provavelmente não teria encontrado o chaga, porque ele cresce somente no extremo norte da China.

A Rússia foi a primeira a reconhecer o chaga em medicina moderna no ano de 1955, aprovando o extrato para a gastrite e em estágios iniciais de alguns cânceres. Esta preparação que se diz ser ainda feita de acordo com uma antiga receita, encontra-se disponível sob o nome Befungin.

Em um campo mais vasto da ciência, os benefícios do chaga são ainda especulativos. A pesquisa está atrasada em relação a outros cogumelos medicinais, como o shitake e o Trametes versicolor, mas as evidências até agora parecem boas. A The USA Women and Cancer Fund (A Fundação da Mulher e do Câncer dos Estados Unidos) recomenda o chaga siberiano baseada em relatórios e literatura favorável. No Outono de 2014, o perito do Journal of the American Herbalist Guild, Christopher Hobbs, identificou o chaga como sendo “uma espécie de futuro”.

Com potencial para a medicina

O chaga tem boas propriedades terapêuticas e pode ser consumido na forma de chá, cápsulas ou tintura. Em países como a Finlândia é utilizado como chá cotidiano, já que não tem sabor de cogumelos (Shutterstock)**
O chaga tem boas propriedades terapêuticas e pode ser consumido na forma de chá, cápsulas ou tintura. Em países como a Finlândia é utilizado como chá cotidiano, já que não tem sabor de cogumelos (Shutterstock)**

Investigadores descobriram muitos fitoquímicos no chaga. Em doses regulares e moderadas o fungo não mostra sinais de ser tóxico.

Como outros cogumelos medicinais, o chaga ajuda a melhorar a imunidade, mas possui características que não existem em outros fungos. O chaga estimula a produção de superóxido dismutase (SOD), um grupo especial de enzimas que protegem o corpo contra degeneração oxidativa e os radicais livres.

O chaga contem uma quantidade apreciável de beta-glucano, um composto que fortalece o sistema imunitário e que é encontrado em todos os cogumelos, e muita melanina, um pigmento químico que dá côr à nossa pele – e dá a cor preta às bordas do chaga. Esta alta concentração de melanina contribui para o enorme conteúdo antioxidante e pode proteger o corpo de estragos no DNA.

Hoje o chaga é usado para o bem-estar geral, como preventivo contra o câncer e para combater os efeitos tóxicos da químioterapia e do tratamento com radiação. Também foi demonstrado que consegue reduzir o tamanho de tumores em fase inicial de malignidade.

Parte da reputação anti-tumor do chaga está ligada à betulina e ao ácido betulínico, que o fungo absorve da bétula. Estes componentes possuem uma forte ação antiviral, mas são de difícil absorção para os humanos. Uma teoria que prevalece é que o chaga tem capacidade de concentrar estes químicos da bétula em uma forma facilmente assimilável pelo sistema digestivo.

Colheita sustentável

Peritos em cogumelos preocupam-se com que a crescente popularidade do chaga possa levar ao excesso de colheita e assim prejudicar o ambiente.

Em um artigo de 2012 o micologista Paul Stamets desafiou os ecologistas florestais a compreenderem melhor o papel ecológico do fungo em longo prazo para que “não aconteça que mais tarde se descubra que a colheita de chaga selvagem pode acelerar a reprodução do escaravelho e de outras pragas, com futuras consequências imprevisíveis”.

Stamets promove o chaga cultivado porque não só é mais sustentável, mas porque também é mais limpo: não tráz insetos e suas fezes e é menos provável que absorva metais pesados concentrados da poluição do ar.

De acordo com Stamets, o chaga cultivado demonstra efeitos antioxidantes similares ao seu irmão selvagem, mas pode ter deficiências em outros aspetos. Os investigadores descobriram que só o chaga selvagem que cresce nos climas com invernos rigorosos – como no Alaska, na região de Changbai na China, e na Filândia – desenvolvem os poderosos constituintes curativos, que são únicos do fungo, como a betulina, o ácido betulínico e a melanina.

O chaga está disponível em pedaços não processados, assim como em tintura, pó ou chá. Os preparados mais profissionais são concebidos para maximizar os ingredientes-chaves. Se estiver interessado em fazer o próprio preparado, considere a origem do fungo e o método de extração utilizado. A receitas disponíveis na internet variam muito.

 

Conan Milner, Epoch Times

* Imagem de Shutterstock “A autumn birch grove among orange grass”

** Imagem de Shutterstock “A medicinal drink and chopped into pieces Chaga”

 
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