Esboços de uma Capital: entrevista fotógrafo de JK (Parte 4)

Gervásio Baptista, fotógrafo mais velho em atividade no Brasil, registrou a rotina da construção de Brasília ao lado de JK
Foto tirada por Gervásio Baptista que foi capa da revista Manchete na edição especial sobre a inauguração de Brasília. (Arquivo Pessoal Gervásio Baptista)

Epoch Times PT: Como o senhor foi enviado a Brasília?
Quando era jovem, trabalhava como repórter fotográfico da revista Manchete. O Adolfo Bloch (presidente da editora Bloch), era uma das personalidades importantes que apoiavam a ideia da transferência da capital para o interior. Como tinha muita energia, me passaram a tarefa de acompanhar semanalmente passo-a-passo da construção de Brasília.

Epoch Times PT: E a relação de proximidade com JK?
Conheci JK antes mesmo dele ser presidente. Ele tinha um escritório no mesmo prédio onde funcionava a editora Bloch, no Rio de Janeiro. De vez em quando conversávamos e ficamos bem próximos. Depois de ser eleito presidente, eu o apelidei de presidente Nonô, em alusão ao apelido dado pela mãe dele durante a infância. Juscelino era um verdadeiro desbravador… ele tinha muita coisa além de coragem.

Epoch Times PT: O senhor pode descrever como foi sua primeira visita a Brasília?
Ela aconteceu em 1956. Cheguei junto com JK no avião presidencial. Por conta da falta de estrutura, todas as aeronaves pousavam em Anápolis (cidade goiana que fica a 139 km do Distrito Federal). Em seguida, pegamos um jipe até Brasília. Quando cheguei fiquei espantado: o lugar era cercado de mato para todos os lados. Pensei comigo: isso vai ser a capital do país? O vento levantava uma poeira danada. Lembro que em vários pontos eram formados aqueles redemoinhos de poeira. A cada dia que passava via grupos de candangos chegando em caminhões, ônibus e alguns até montados em cavalos.

Epoch Times PT: Em qual lugar o senhor ficava durante essas visitas? Como era lidar com a solidão no Planalto Central?
Uma das primeiras acomodações a serem construídas ficava na avenida W3 Sul. Trabalhadores da imprensa, engenheiros e arquitetos ficavam alojados lá. A imprensa nacional e internacional tinha uma sala exclusiva, o que fazia com que a gente interagisse e criasse algumas amizades. Depois de um intenso dia de trabalho, o pessoal ia aos restaurantes da Cidade Livre (atual Núcleo Bandeirante, primeira cidade-satélite de Brasília) e colocávamos a conversa em dia. Eu sempre visitava a capital de 10 em 10 dias e acompanhava as inspeções feitas por JK. Acho que os que mais sofriam com a solidão no cerrado eram os trabalhadores que deixavam suas famílias nas cidades de origem e trabalhavam no dia-a-dia da construção. O meu trabalho era tão dinâmico que não sobrava espaço para que eu sentisse falta de casa.

Epoch Times PT: Qual era a sua maior dificuldade durante a cobertura jornalística da construção de Brasília?
Como a cidade foi erguida no meio do nada, o que era mais difícil era a logística de enviar filmes para a revelação das imagens. Os filmes eram transportados de avião ou enviados via Correios até o Rio de Janeiro. Naquela época os aviões não era tão rápidos como são hoje. Os jornalistas ditavam as notícias ao pessoal da redação por telefone, equipamento que era a salvação da lavoura. A Manchete dedicava de duas a três páginas por publicação para falar sobre o avanço das obras.

Epoch Times PT: Depois de ser uma testemunha do nascimento de Brasília, como o senhor enxerga a figura de JK atualmente?
JK era um homem espetacular em todos os sentidos. Quando perguntavam como iria construir a nova capital, ele respondia com a facilidade de quem ensina o alfabeto. Durante as nossas visitas aos monumentos ele sempre dizia: “ isso que você está fazendo será para os meus netos”. Ele entrava no meio do mato sem medo e na hora do almoço comia a mesma refeição dos candangos (operários). JK tornou-se médico para curar essa ferida de falta de humanidade. O Brasil tem duas datas de descobrimento: a de Pedro Álvares Cabral e a de Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Epoch Times PT: O senhor pode detalhar como tirou a sua famosa foto, capa da revista Manchete na edição especial da inauguração de Brasília?
Todos os fotógrafos que cobriam o evento eram credenciados, mas só eu tive a autorização e o privilégio de ficar lado a lado com JK. Aproveitei aquele momento de alegria e o fotografei enquanto ele acenava para a multidão com sua cartola preta. Foi um momento inesquecível para mim e para todos que testemunharam esse fato histórico.

Epoch Times PT: Entre os monumentos que o senhor fotografou, qual foi o mais marcante?
Na verdade posso citar dois: a Catedral Metropolitana de Brasília e o Palácio do Planalto. O primeiro tem traços que são arrojados até hoje e o segundo se transformou em um novo conceito arquitetônico.

Epoch Times PT: Como o senhor definiria Brasília?
É uma cidade linda que eu não canso de elogiar e apreciar. Essa terra é uma eternidade de beleza. Hoje é um cartão-postal não só do Brasil, mas do mundo.

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