A enregelante história de uma jovem num gulag soviético

A obra monumental “Arquipélago Gulag” de Aleksandr Solzhenitsyn é uma leitura obrigatória para estudantes russos do ensino médio. O livro é um relato em primeira mão descrevendo os horrores do sistema repressivo dos campos de trabalhos forçados soviéticos que resultou na morte de até 10 milhões de pessoas ao longo de várias décadas (os números da União Soviética eram muito mais baixos e amplamente disputados).

Os gulags tornaram-se sinônimo do regime do ditador Joseph Stalin na União Soviética, mas os campos foram iniciados em 1918, logo após Vladimir Lenin assumir o poder e a Guerra Civil Russa começar. O relato de Solzhenitsyn, publicado em 1973, foi amplamente visto como uma refutação a ideia de que o sistema gulag era uma criação stalinista e não uma concepção comunista. O sistema de campos de prisioneiros foi criado sob a liderança de Lenin, embora Stalin o tenha expandido muito, criando em 1930 o termo “GULAG”, um acrônimo ou sigla em russo para “Administração Geral dos Campos de Trabalho Correcional”.

Jordan Peterson, professor de psicologia da Universidade de Toronto, numa palestra recente que se tornou viral na internet, referenciou um relato na obra-prima de Solzhenitsyn. Este incluiu um momento doloroso no qual Solzhenitsyn descreve o Gulag Marfino, que ele disse ter sido relativamente “privilegiado”:

“Fogo, fogo! Os ramos estalam e o vento noturno do final do outono sopra a chama da fogueira de um lado para o outro. O complexo está escuro: estou sozinho na fogueira e posso trazer ainda mais aparas de carpinteiro. O complexo aqui é privilegiado, tão privilegiado que é quase como se eu estivesse em liberdade – esta é uma Ilha do Paraíso, este é o ‘sharashka’ – um instituto científico operado por prisioneiros – do [Gulag] Marfino em seu período mais privilegiado. Ninguém está me supervisionando, convocando-me para voltar a uma cela ou retirando-me da fogueira. Estou vestido numa jaqueta acolchoada e mesmo assim sinto frio sob um vento penetrante.”

“Mas ela, que já está parada no vento por horas, os braços caídos, a cabeça pendendo, chorando, e ficando entorpecida e imóvel. E então, novamente, ela implora com pesar: ‘Cidadão-chefe! Perdoe-me! Eu não farei isso de novo.’ O vento carrega seu gemido em minha direção, como se ela estivesse gemendo junto ao meu ouvido.”

O “cidadão-chefe”, diz ele, não a responde; ela estava sendo punida por fazer um comentário impróprio depois que uma jovem escapou do gulag “escorregando por um desfiladeiro”.

Um de seus companheiros prisioneiros do gulag, ao ouvir sobre a fuga, exclamou: “Oh, espero que a capturem, a [palavrão]! Eu espero que eles usem suas tesouras e cortem todos os cabelos dela na frente de todos!” Essa era uma forma das mulheres serem punidas no sistema gulag.

A jovem, que foi punida sendo forçada a ficar de pé do lado de fora no frio, não concordou.

Solzhenitsyn escreveu:

“Mas a jovem, que agora estava de pé do lado de fora no frio, suspirou e disse: ‘Pelo menos ela pode experimentar um bom tempo em liberdade por todos nós!’ O carcereiro ouviu o que ela disse e agora ela estava sendo punida; todos os outros foram levados para dentro do campo, mas ela foi colocada lá diante do portão ‘em prontidão’. Isso foi às 6 p.m., e agora já são 11 p.m. Ela tentou mudar de um pé para o outro, mas o guarda estendeu a cabeça e gritou: ‘Fique de pé, vagabunda, ou então será pior para você!’ E agora ela não estava se movia, apenas chorava: ‘Perdoe-me, cidadão-chefe! Deixe-me entrar no campo, eu não farei isso de novo!’”

Ele observa que ninguém no campo diria nada, acrescentando que os guardas do campo queriam “dar-lhe uma lição”.

Ele continua: “Uma garotona loura, tão ingênua e inculta! Ela foi presa por alguma linha de carretel. Que pensamento perigoso você expressou lá, irmãzinha!”

Antes de adicionar: “Por aquela fogueira e por você, menina, eu prometo: o mundo inteirinho lerá sobre você.”

Solzhenitsyn passou cerca de oito anos em prisões e campos gulag; ele foi preso em 1945 por criticar Stalin em cartas particulares a um amigo. Depois de publicar o “Arquipélago Gulag” em 1973, ele foi acusado de traição e exilado da União Soviética. O livro ganhou um Prêmio Nobel da Paz.

O sistema gulag dobrou de tamanho como um destino para o envio e execução de prisioneiros políticos e como fonte de mão-de-obra e trabalho baratos. Os prisioneiros eram forçados a trabalhar.

“Mas”, segundo GulagHistory.org, “seu trabalho era tipicamente não qualificado, manual e economicamente ineficiente. A combinação de violência endêmica, clima extremo, trabalho duro, rações escassas de alimentos e condições insalubres levaram a taxas de mortalidade extremamente altas nos campos.”

Embora o sistema tenha sido reduzido em tamanho após a morte de Stalin em 1953, os campos de trabalhos forçados existiram até o colapso da União Soviética.

Estimativas de morte variam de cerca de 1 milhão a 10 milhões, com a estimativa mais baixa proveniente de um estudo de 1993 baseado em dados soviéticos entre 1934 e 1953. Não havia dados de arquivo de 1919 a 1934. A estimativa de 10 milhões vem da obra “O Grande Terror: uma reavaliação – 40ª edição de aniversário“, da autoria do historiador britânico Robert Conquest.

 
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