Enorme desmatamento na China ameaça lar dos pandas gigantes

No coração dos Santuários do Panda Gigante, na província de Sichuan, um chocante desmatamento de 3.200 acres de floresta natural, o equivalente a 1.814 campos de futebol, vem ocorrendo desde 2009, para dar lugar a plantações de espécies de madeira que podem ser vendidas a preços lucrativos.

O Greenpeace, que publicou os resultados em um relatório no mês passado, disse que a área fazia parte das Reservas Naturais Nacionais e do Corredor de Fluxo Genético dos Pandas. A estabilidade deste corredor é fundamental para a conexão e proteção da população de pandas gigantes das reservas naturais de Fengtongzhai. Entretanto, o desmatamento criou uma série de buracos na área habitacional dos pandas.

Para dar lugar a uma floresta de “baixo funcionamento”, a grande maioria das florestas virgens, que são o lar de raros animais selvagens, estão sendo destruídas com impunidade, de acordo com um post intitulado “Exploração madeireira ilegal é ameaça dos pandas gigantes da China”, de Wu Hao, um defensor florestal do Greenpeace da Ásia Oriental.

O relatório do Greenpeace indicou que, em estreita proximidade com essas áreas de desmatamento florestal, estão localizados um grande número de pontos de atividade dos panda, e diversas plantas protegidas a nível nacional, como o Teixo e a Davidia.

Como resultado, grandes áreas de florestas naturais são agora florestas artificiais, feitas pelo homem. Em algumas áreas, foram feitos replantios de má qualidade que têm prejudicado a proteção das plantas nacionais de nível trófico, ou seja, que compõem o primeiro nível da cadeia alimentar. A perda da floresta nativa, que é rica em recursos alimentares, representa um grande perigo para os pandas gigantes.

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Wu Hao afirmou em seu post que “as plantações que estão substituindo a floresta desmatada não podem sequer chegar perto de reproduzir o delicado e equilibrado ecossistema, que é essencial para a prosperidade dos pandas”. O Greenpeace informou que o replantio de florestas de “baixo funcionamento” tem ultrapassado os limites ecológicos mais sensíveis e frágeis da China.

Além da ameaça às reservas naturais, o Greenpeace alertou que as florestas naturais compõem o fator mais importante para a conservação do solo e da água, e que a área desmatada sofrerá uma crescente probabilidade de desastres geológicos semelhantes aos efeitos de um terremoto, tais como deslizamentos de terra e fluxos de detritos.

Em um estudo de caso, o Greenpeace descobriu que após o terremoto de Lushan em 20 de abril de 2014, a floresta em Baoxing Xinhua Village (reconhecida no final do século 19 como o lugar de origem dos pandas gigantes) foi destruída, em nome de uma “restauração da floresta afetada pelo terremoto”. Este desmatamento está ligado à reserva natural nacional Fengtongzhai.

“Nossa expedição mais recente, feita em junho deste ano, revelou que a destruição não parou”, escreveu Wu Hao.

A prática de desmatamento em Sichuan está longe de ser um caso isolado. Investigações anteriores do Greenpeace descobriram atividades semelhantes em Yunnan (2013) e Zhejiang (2014), segundo Wu Hao. “O projeto de reconstrução de floresta está acontecendo em toda a China.”

O Greenpeace sugeriu que as brechas na gestão florestal foram as causas do desmatamento em larga escala de florestas naturais. Por exemplo, os padrões de “baixo funcionamento” foram mal definidos. Além disso, diversas equipes expandiram o projeto para maximizar os lucros, violando os regulamentos ambientais.

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A Administração Florestal Estatal da China respondeu às preocupações do Greenpeace, dizendo que o departamento florestal local foi instruído a realizar uma investigação sobre o relatório, segundo a China News.

O dissidente chinês Zheng Yi, disse à estação de rádio Free Asia, em uma entrevista por telefone, que além das brechas políticas, “certamente estão envolvidas questões que temos ouvido frequentemente, como o conluio de interesses comerciais, e a vista grossa feita pelos departamentos responsáveis”.

Um internauta de nickname “alpinista” comentou no artigo da China News, dizendo que “20.000 Mu (cerca de 3.200 acres) de desmatamento não se limita apenas a exploração madeireira ilegal, é algo como banditismo aberto. Aqueles que não possuem conexões com o alto escalão [do Partido Comunista Chinês] não se atreveriam a se engajar em tais atos ilegais desenfreados e em plena luz do dia”.

 
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