Documentário retrata abuso sexual de menores por autoridades chinesas

A cineasta Nanfu Wang, que vive em Nova York, filmou seu primeiro longa-metragem na China numa viagem para visitar uma influente ativista dos direitos da mulher apelidada de “Hooligan Sparrow” (“Pardoca brigona”, tradução livre). A diretora disse que durante essa viagem, ela ficou profundamente chocada com os acontecimentos que testemunhou em seu país de origem.

“Basicamente o que eu queria fazer na ocasião era documentar tudo”, disse ela. “Eu queria mostrar ao mundo. Eu queria que as pessoas vissem.”

O filme é intitulado “Hooligan Sparrow”, o apelido da ativista cujo nome verdadeiro é Ye Haiyan. No filme, ela lidera um grupo de ativistas e advogados em protestos contra o estupro de seis meninas entre 11 e 14 anos na província de Hainan, onde elas foram levadas para um hotel pelo reitor de sua escola e um funcionário do governo. As meninas ficaram desaparecidas por quase 24 horas e foram pagas o equivalente a 2 mil dólares após o incidente.

Nanfu Wang entrevistou os pais das crianças no filme, que explicaram a ela exatamente o que ocorreu. Mas quando advogados tentaram representar os pais, eles se recusaram, dizendo que eles foram alertados por funcionários do regime para não recorrerem ao sistema judicial.

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Agressores sexuais em posições de poder na China frequentemente escapam longas sentenças de prisão, argumentando que eles deram dinheiro às vítimas e que estavam apenas envolvidos em prostituição infantil, explicou Nanfu Wang. Ye Haiyan e outros ativistas queriam chamar a atenção para este caso e ajudar as pessoas a entender que essas ações devem constituir claramente abuso sexual e estupro.

No protesto, a advogada de direitos humanos Wang Yu distribuiu cópias da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, que a China é signatária, para famílias em frente da Escola Elementar No. 2 de Wanning. A Convenção é o mais ratificado de todos os tratados da ONU e é considerado o mais completo guia para a proteção de crianças menores de 18 anos.

Durante um protesto diante da Escola Elementar No. 2 de Wanning, na província de Hainan, a advogada Wang Yu distribui a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança. (Cortesia de Hooligan Sparrow)
Durante um protesto diante da Escola Elementar No. 2 de Wanning, na província de Hainan, a advogada Wang Yu distribui a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança. (Cortesia de Hooligan Sparrow)

A Convenção afirma, “Signatários adotarão todas as medidas legislativas, administrativas, sociais e educacionais apropriadas para proteger a criança contra todas as formas de violência física ou mental, dano ou abuso, abandono ou tratamento negligente, maus tratos ou exploração, inclusive abuso sexual.”

Ye Haiyan e outros envolvidos no protesto, incluindo Nanfu Wang, logo em seguida são perseguidos e interrogados. Ye Haiyan é levada presa e despejada de sua casa, embora ela seja uma mãe solteira com uma menina. A advogada Wang Yu é eventualmente detida e acusada de subverter o governo chinês.

Enquanto isso, as câmeras de Nanfu Wang são destruídas, mas ela é capaz de continuar a filmar com dispositivos de gravação secretos, preservando assim gravação suficiente para contrabandear para fora do país para seu filme.

Durante todo o processo, Nanfu Wang descobre um número assustador de agentes de segurança à paisana nas ruas da China, praticamente indistinguíveis de cidadãos comuns. Seu medo cresce, pois esta é uma parte do país que ela não tinha conhecimento antes, mesmo tendo vivido no país por mais de 20 anos.

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“Eu estava realmente com medo e tinha pesadelos quase todas as noites”, disse Wang. “O que nós testemunhamos era algo que o governo não quer que as pessoas vejam.”

O resultado é uma imagem do quão longe o regime comunista chinês está disposto a ir para silenciar qualquer informação, qualquer verdade que possa despertar a desconfiança generalizada do público em geral e ameaçar a regime absoluto de seu sistema de partido único. Isso também destaca o problema da corrupção que parece permear todo o sistema.

Acima de tudo, o filme mostra a necessidade desesperada de resolver um desafio fundamental e básico para o povo chinês.

“O maior problema é que há muito pouca informação na China”, disse Nanfu Wang. “A narrativa que as pessoas normalmente recebem provêm da TV e jornais estatais, e muito raramente há qualquer contranarrativa.”

Nanfu Wang disse que mostrou a advogada Wang Yu um corte não editado de seu filme. A advogada comentou: “Estou muito feliz que você documentou tudo. Mas este é apenas um caso. E se você me acompanhasse, à medida que eu fosse defendendo outros casos, cada caso é tão dramático, tão grave como este, e coisas como essa estão ocorrendo por toda a China e a todo o momento.”

Nanfu Wang espera que seu filme e outros filmes independentes possam ajudar o povo chinês a se conscientizar do que os líderes do país tentam esconder deles.

“Hooligan Sparrow” recebeu o apoio de organizações como o Sundance Institute e o Independent Filmmaker Project, e foi uma seleção oficial de 2016 do Festival de Cinema Sundance, do Festival de Cinema da Human Rights Watch, bem como de muitos outros.

Entre os prêmios que ganhou estão o do grande júri e de melhor diretor de documentários no 32º Festival Anual de Cinema da Ásia-Pacífico em Los Angeles, que ocorreu em abril. O documentário estreou nas salas de cinema de Los Angeles em 29 de julho e estreará na emissora PBS em 17 de outubro.

Visite HooliganSparrow.com para mais informações.

 
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