Dezenas de milhares protestam contra indústria química na China

Em 30 de março, dezenas de milhares de moradores protestaram na cidade de Maoming, província de Guangdong, Sul da China, contra o governo local inaugurar uma indústria petroquímica na cidade. Confrontos entre manifestantes e policiais militares resultaram em inúmeras lesões, enquanto as autoridades censuraram notícias e descreveram a reação popular como orquestrada por “um pequeno número de bandidos”.

Fotos postadas em websites de mídia social chineses mostram pessoas com sangue no rosto e na roupa, além de vários caídos no chão, aparentemente espancados até ficarem inconscientes. Um grande número de manifestantes acusou a polícia de choque de atacar violentamente os ativistas pacíficos com cassetetes, gás lacrimogêneo e canhões de água.

Muitas dessas mensagens foram rapidamente apagadas de websites nacionais, mas estavam disponíveis fora da China. Um vídeo (não confirmado) postado no YouTube mostra um grande grupo de policiais militares, usando cassetetes e escudos para bater nos manifestantes reunidos diante do prédio do governo municipal de Maoming.

As estimativas do número de mortos e feridos variam: os participantes estimam que 8 pessoas morreram e 300 ficaram feridos, embora as alegações não sejam facilmente verificáveis. Testemunhas disseram que mais de mil policiais de choque foram enviados para suprimir violentamente os manifestantes.

O governo da cidade publicou um anúncio em seu website oficial, dizendo: “ninguém morreu”, e não mencionou os feridos ou a repressão. O anúncio também condenou “alguns baderneiros” que supostamente atiraram pedras e garrafas d’água em torno das 22h30 de domingo.

Os protestos começaram com várias centenas de pessoas às 8h30 e gradualmente aumentaram para dezenas de milhares. Os manifestantes solicitaram uma reunião com o governo da cidade de Maoming e com líderes do Partido Comunista sobre a fábrica de paraxileno, que está prestes a ser aberta. O paraxileno é um produto químico essencial na produção de fibras e plástico, mas pode causar danos, inclusive fatais, a órgãos internos e ao sistema nervoso central se inalado.

Vídeos mostram manifestantes gritando palavras de ordem e exibindo cartazes escritos: “PX, fora de Maoming!” e “Queremos ar limpo!”, enquanto marchavam em direção aos prédios oficiais. Transeuntes batiam palmas e gritavam em apoio.

Mais tarde, a polícia, carregando longos cassetetes apareceu, avançou sobre os manifestantes, enquanto a multidão se dispersava; então eles começaram a disparar o que pareciam bombas de gás lacrimogêneo contra a multidão. Em outro vídeo, um policial espanca brutalmente com um bastão de metal um manifestante caído no chão, para o choque dos espectadores.

O objeto dos protestos é uma fábrica de paraxileno que custou 3,5 bilhões de yuanes (US$ 563 milhões) e visa a aumentar as operações petroquímicas já existentes na cidade, administradas em conjunto pelo governo local e a gigante estatal do petróleo Sinopec. A nova fábrica pode produzir 600 mil toneladas de paraxileno por ano.

Os opositores se preocupam com a segurança de uma fábrica de produtos químicos numa cidade com uma população de cerca de sete milhões. Muitos também estão enfurecidos que as autoridades locais tenham promovido o projeto sem o mínimo de consultas.

Su Anyan, uma residente de Guangdong, escreveu na mídia social: “Uma vez que haja um incidente, o governo bloqueia a cidade, a informação e os meios de comunicação. A decisão do governo é baseada na opinião das pessoas? PX é um projeto de alta poluição. O governo sacrifica o meio ambiente e a saúde das pessoas para crescer o PIB. Eu perdi a esperança no governo de Maoming.”

A mídia do continente tem estado em silêncio sobre os protestos e confrontos, mas o anúncio feito pelo governo local condenando os protestos por “violação grave da lei e grave impacto na ordem social”, foi publicado pela mídia estatal Diário de Maoming e amplamente reproduzido em grandes meios de comunicação na China.

Protestos semelhantes contra usinas de paraxileno também ocorreram em outras cidades chinesas nos últimos anos, incluindo Kunming, província de Yunnan, em maio passado; Ningbo, província de Zhejiang, em outubro de 2012; e Dalian, província de Liaoning, em agosto de 2011.

Protestos intensificam, 44 são presos

A polícia condenou 18 manifestantes à detenção criminal e 26 a sanções administrativas por “perturbar a ordem social em multidões”, “causar problemas” e outras acusações similares, anunciaram as autoridades chinesas numa conferência de imprensa na quinta-feira.

A cidade de Maoming, na província de Guangzhou, tem visto dias de protestos pesados e retaliação violenta por parte das autoridades, em grande parte capturados em câmeras de smartphones e enviados para a internet. Dezenas de milhares de pessoas exigem o cancelamento dos planos de construção da fábrica de paraxileno (PX) na cidade. O paraxileno é usado para produzir poliéster, mas seus vapores são perigosos para a saúde humana.

‘Solavancos’

A Secretaria de Segurança de Maoming Pública insistiu que não ocorreram óbitos durante o confronto recente, e culpou a imprensa estrangeira por reportar rumores de que houve “15 mortos e 300 feridos”. “É totalmente um rumor para confundir as pessoas”, disse um representante da polícia numa conferência de imprensa.

A polícia de Maoming não mencionou quantos manifestantes ficaram feridos, embora tenham se desculpado por “ferir espectadores do acidente”. “Houve realmente alguns solavancos”, acrescentou o oficial.

Isto foi visto como uma tentativa de minimizar severamente o que os manifestantes consideram brutalidade arbitrária da polícia. Vídeos feitos por testemunhas oculares mostram grandes grupos da polícia militar perseguindo e espancando manifestantes desarmados com cassetetes e objetos longos.

Uma cena mostra uma mulher de joelhos, implorando a um grupo de policiais que pare de bater num homem caído de costas no chão, mas a polícia continua a espancá-lo com seus bastões.

Discussões acaloradas se seguiram num website chinês, condenando as autoridades por “mentir”, descreveram a repressão como um “massacre” e classificaram a polícia de “pior do que bandidos”.

Protestos continuam

Se a conferência de imprensa foi destinada a apaziguar os manifestantes, isso não pareceu ter alcançado o objetivo.

Fotos, vídeos e relatos escritos continuam a emergir, descrevendo protestos que continuam, e a polícia enviou mais forças para reprimi-los.

“Enormes multidões estão no terreno e helicópteros sobrevoam baixo no céu”, escreveu Han Zhipeng, um conselheiro político, no Sina Weibo, na quinta-feira. “As pessoas de Maoming voltaram novamente para protestar contra o projeto de PX em frente à prefeitura esta tarde.”

Fotos em 3 de abril mostram a polícia de choque com cassetetes, escudos e capacetes formando uma parede humana. Internautas dizem que eles acabaram de chegar de Zhanjiang, uma cidade 65 milhas a oeste de Maoming.

O acesso da mídia à zona de protesto tem sido difícil, seja nacional ou estrangeira, enquanto o governo da cidade bloqueia as ruas. Censores da internet, entretanto, apagam ativamente da web vídeos e fotos dos protestos e da violência policial. Chineses passaram a postar esses vídeos no YouTube, onde eles estão fora do alcance dos censores chineses.

 
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