Detenções na China Unicom sinalizam problemas para filho de ex-líder chinês

Com a prisão de dois altos executivos da China Unicom, a campanha anticorrupção que varre o Partido Comunista Chinês nos últimos dois anos começa a se focar no setor de telecomunicações. Na China, a política cria oportunidades de negócios, e as mudanças no cenário político trazem mudanças para os negócios.

O primeiro oficial a cair foi Zhang Zhijiang, gerente-geral de construção de rede da Unicom, em 15 de dezembro. Uma nota na mídia estatal Xinhua disse que ele estava sendo investigado por autoridades anticorrupção por “violações da disciplina”. Em seguida, em 18 de dezembro, Zong Xinhua, gerente-geral da unidade de TI e e-commerce, foi removido – novamente, sob investigação, presumivelmente por desvio e apropriação de recursos.

A Central Chinesa de Televisão (CCTV) também acusou recentemente a China Mobile, uma das maiores empresas estatais de telecomunicações, de “roubo” – uma acusação política sobre uma empresa que há muito tempo tem ligações com a facção política do ex-líder chinês Jiang Zemin.

Leia também:
Revelados os crimes e enorme fortuna ilícita do ex-chefe da segurança da China
Assessor do ex-líder chinês é alvo de investigação
Ex-prefeito de Nanjing, aliado do ex-líder Jiang Zemin, é indiciado por suborno
Mais de 500 associados do ex-chefe da segurança são detidos após sua prisão

Se esta campanha se desdobrar como tem ocorrido anteriormente, essas prisões seriam apenas o prólogo para a derrubada de figuras mais proeminentes no setor, em particular, Jiang Mianheng, o filho mais velho de Jiang Zemin.

A campanha anticorrupção tem sido sem precedentes em seu escopo. A Agência de Notícias Xinhua afirmou em junho que cerca de 80 mil funcionários haviam sido investigados. Em outubro, ela publicou uma lista de 55 funcionários de alto escalão que foram demitidos, com os aliados de Jiang Zemin dominando a lista.

Quando a campanha vai atrás de alguém, ela tende a lançar uma ampla rede, e todos os associados do alvo são investigados, começando pelo exterior e trabalhando incansavelmente em direção ao centro.

Quando as forças anticorrupção desencadeadas pelo atual líder chinês Xi Jinping visaram o ex-chefe da segurança Zhou Yongkang, um dos maiores aliados de Jiang Zemin, elas caçaram primeiramente seus associados no aparato de segurança, no setor petrolífero, onde Zhou inicialmente ganhou poder e riqueza, e na província de Sichuan, sua primeira base de poder.

Antes de Xu Caihou, o ex-vice-comandante militar da China e aliado de Jiang Zemin, ser expurgado e preso, houve uma série de detenções nas forças armadas, como Gu Junshan, um subordinado próximo de Xu Caihou.

As detenções de Zhou Yongkang e Xu Caihou foram terremotos no cenário político chinês. Um ex-membro do Comitê Permanente do Politburo como Zhou seria intocável e Xu Caihou era uma figura dominante nas forças armadas do país.

Mas um movimento contra Jiang Mianheng seria ainda maior, porque ele é filho de Jiang Zemin. Se Jiang Mianheng acabará algemado e exibido num tribunal ainda não está claro. Mas, assim como a política elevou Jiang Mianheng subitamente no mundo dos negócios, essa mudança de maré política pode varrê-lo da cena.

Uma investigação das autoridades anticorrupção na empresa China Unicom está em andamento (Liu Jin/AFP/Getty Images)
Uma investigação das autoridades anticorrupção na empresa China Unicom está em andamento (Liu Jin/AFP/Getty Images)

‘Regras ocultas’

Durante a década de 1990, Jiang Zemin era o líder do Partido Comunista Chinês (PCC). E, como o setor de telecomunicações passava por reformas e construía redes de telefonia e fibra óptica sofisticadas em todo o país, Jiang Zemin se certificou que seu filho mais velho Jiang Mianheng estivesse no banco da frente nas mudanças.

Na imprensa de língua chinesa no estrangeiro, que é livre para reportar as aventuras econômicas de funcionários chineses e seus familiares, Jiang Mianheng é frequentemente referido como o “Rei das Telecomunicações” da China, por causa de seus extensos interesses e controle na indústria.

“É muito simples: qualquer grande empresa, se deseja operar sem problemas do governo, precisa encontrar um patrocinador político”, disse Cheng Xiaonong, um ex-assessor dos principais líderes chineses, que completou sua dissertação sobre a política das empresas estatais chinesas.

“Na China, as coisas funcionam por meio de regras não escritas – no Ocidente, os acionistas têm o direito de fiscalizar a empresa, mas na China eles não têm. E quem tem influência nem sequer precisa de ações, porque eles podem nomear os gerentes seniores.”

Jiang Mianheng foi o ‘patrocinador político’ – cujo termo em chinês é ‘kaoshan’ e significa literalmente “uma montanha para se apoiar” – da empresa de telecomunicações chinesa que surgiu posteriormente, a China Unicom, que agora está sendo investigada.

O fenômeno dos filhos de líderes que controlam enormes ativos – modelando a economia chinesa em zonas de interesse ao seu redor – foi documentado por pesquisadores, embora muitos dos detalhes desses acordos permaneçam ocultos.

Um exame do trajeto de poder de Jiang Mianheng representa um estudo de caso típico de como os negócios estão entrelaçados com a política na economia chinesa. Ele é apenas um de muitos familiares de altos funcionários que se beneficiaram de seus laços com o poder para controlar um vasto império comercial – em particular entre 1990 e início de 2000, quando Jiang Zemin, como líder chinês, presidiu o florescimento de empresas nominalmente “privadas” engordadas com investimento estrangeiro.

Um começo rápido

Jiang Mianheng nasceu em Shanghai e estudou ciência nuclear na Universidade de Fudan em 1977. Em 1986, ele viajou para os Estados Unidos para uma dissertação em engenharia elétrica na Universidade de Drexel, na Filadélfia. (De acordo com o Wall Street Journal, ele foi admitido na escola só depois que seu pai contatou Hun Sun, um professor de Drexel e ex-colega de Jiang Zemin, para lhe “ajudar”, disse Sun.)

Ao voltar para a China em 1992, Jiang Mianheng entrou para os negócios e na política. Normalmente, as autoridades comunistas chinesas são acusadas de “conspirar nos negócios e no oficialismo”, mas Jiang Mianheng foi visto como uma distorção do tema: “um homem de negócios e um funcionário ao mesmo tempo”, conforme a descrição dos primeiros anos de Jiang Mianheng pela revista Xin Shiji de Hong Kong.

Primeiro, Jiang Mianheng ganhou o controle da Shanghai Alliance Investment Ltd., conhecida como SAIL. A empresa pertencia oficialmente ao governo municipal de Shanghai, que a estabeleceu em setembro de 1994, mas era amplamente conhecida como “a empresa de Jiang Mianheng”, segundo editoriais na China na época.

A SAIL superou uma empresa local de investimento controlada pela cidade e alinhada com um competidor político de Jiang Zemin, Zhu Rongji (que serviu como primeiro-ministro de Jiang Zemin). Impulsionada pelos laços políticos de Jiang Mianheng, a SAIL levantou dinheiro e começou a fazer investimentos em infraestrutura de telecomunicações na cidade. Mas permaneceu secreta: ela não teve cerimônia de abertura, não publicou os resultados de negócios, e nunca explicou quem eram seus executivos.

Wing-Chung Ho, um acadêmico de Hong Kong, deixa claro como este arranjo foi politizado: “Em 1994, Jiang Mianheng não tinha experiência em gestão e, presumivelmente, tinha pouco capital e nenhuma credencial financeira. Estes dois pedaços de informação apoiam a opinião generalizada de que a criação da SAIL e a implantação de Jiang Mianheng como seu dirigente foram principalmente devido a seu histórico principesco.”

Com a SAIL, Jiang Mianheng ganhou o controle de quase 40% da Shanghai Information Investment Corporation, que em seguida foi premiada com parte dos US 8,5 bilhões dos gastos em infraestrutura de telecomunicações da cidade, incluindo o vasto projeto “Shanghai Infoport“, segundo o livro de Eric Harwit, “China’s Telecommunications Revolution”. O público nunca soube como sua empresa ganhou tamanha participação dos investimentos estatais.

A posição também permitiu que Jiang Mianheng obtivesse um assento no conselho da China Netcom, na ocasião uma pequena empresa de telecomunicações que lutava para competir com a gigante estatal China Telecom, que controlava mais de 80% do mercado de telefonia.

No papel, a SAIL detinha um terço das ações da China Netcom. Edward Tian (ou Tian Suning, em chinês), o presidente da China Netcom, e seus esforços no comando da empresa receberam louvores exagerados na mídia ocidental – comparando-o a Steve Jobs e Bill Gates – e num estudo de professores da Harvard Business School.

Mas, segundo o pesquisador Bo Zhiyue, Edward Tian deixou escapar o que muitos já suspeitavam: “O verdadeiro chefe da empresa” era Jiang Mianheng.

Wing-Chung Ho, o acadêmico de Hong Kong, demonstrou num estudo de 2013 as manobras hábeis de Jiang Mianheng de combinar o poder político com o controle corporativo estatal. Logo depois de ganhar o controle da Netcom, Jiang garantiu um investimento de US$ 300 milhões da Goldman Sachs e de Rupert Murdoch (em aparente violação à lei chinesa, que proíbe estrangeiros de possuírem títulos no setor de telecomunicações e em empresas de tecnologia da informação na China).

O sucesso, até agora, não era nada se comparado com o que viria a seguir: no final de 2001 e 2002, a gigante estatal China Telecom foi dividida ao meio, e sua infraestrutura em 10 províncias do norte foi entregue a China Netcom.

Assim, apenas três anos após sua fundação, a China Netcom, com Jiang Mianheng no comando, tornou-se a terceira maior empresa de telecomunicações na China. Em 2004, ela se tornou pública e iniciou negociações nas bolsas de Hong Kong e Nova York. Como Wing-Chung Ho escreveu: “Embora Jiang Mianheng não fosse sequer diretor do conselho, era amplamente admitido que ele ainda controlava a empresa.” Em 2008, quando ainda era pública, ela valia quase US$ 26 bilhões.

Lu Yimin, presidente da China Unicom, acena para a imprensa numa cerimônia em Taipei em 18 de janeiro de 2013. Lu seria o ex-secretário do poderoso político comunista chinês Zeng Qinghong, um membro principal da facção política do ex-líder chinês Jiang Zemin (Sam Yeh/AFP/Getty Images)
Lu Yimin, presidente da China Unicom, acena para a imprensa numa cerimônia em Taipei em 18 de janeiro de 2013. Lu seria o ex-secretário do poderoso político comunista chinês Zeng Qinghong, um membro principal da facção política do ex-líder chinês Jiang Zemin (Sam Yeh/AFP/Getty Images)

Luta territorial

Em 2008, a China Netcom foi incorporada pela China Unicom. Após revelações internas da corrupção maciça de Jiang Mianheng, conforme documentado em cabos do Departamento de Estado vazados por volta de 2007, ele teria perdido influência no sistema. No entanto, nenhuma ação foi tomada contra Jiang Mianheng, e não está nada claro se ele perdeu sua posição na indústria de telecomunicações.

O atual diretor-executivo e presidente da China Unicom não é outro senão Lu Yimin. Segundo o website da Unicom, Lu atuou por 13 anos no gabinete do Secretariado do Comitê Central do Partido Comunista Chinês – uma posição política altamente sensível.

Lu é amplamente considerado o secretário de longa data de Zeng Qinghong, um agente sinistro de Jiang Zemin nos bastidores políticos. “Secretários” são uma parte importante, muitas vezes informal, do sistema comunista chinês de gestão dos negócios de seu mestre político, incluindo seus bens, imóveis, subornos e rede de contatos. E eles sabem onde os corpos estão enterrados.

De acordo com a tese de doutorado de 2005 de Qing Duan, a estrutura que o setor de telecomunicações assumiu no final da década de 1990 e início de 2000 foi “em grande parte [resultado] da luta territorial entre protegidos de Jiang Zemin e subordinados de Li Peng”. Li Peng foi primeiro-ministro da China.

“Incumbentes do Partido Comunista lutam ferozmente para proteger seu território e impedir sua remoção de áreas estabelecidas”, escreve Qing. “Diferentes burocratas competem por fama e ganhos pessoais, bem como por seus interesses organizacionais.”

Baseado nesta leitura, o desmembramento da China Telecom segue a simples lógica da luta de poder entre as famílias aristocráticas comunistas.

Observadores da China e empresários acompanharão os desdobramentos para ver se as prisões na China Unicom prenunciam maiores tremores na indústria.

 
Matérias Relacionadas