Nacionalização das forças armadas da China em debate

A questão sobre qual o papel que os militares devem desempenhar começa a surgir dentro do Partido Comunista Chinês, entre os militares chineses e até mesmo entre o povo chinês.

Numa entrevista recente para a TV Phoenix de Hong Kong, o major-general Luo Yuan do Exército da Libertação Popular [ELP] falou sobre os desafios que as forças militares da China enfrentam frente à mudança de expectativa do povo chinês. O povo espera que os militares se afastem do maoísmo e da ideologia comunista, mudem sua postura agressiva frente a outros países e não se envolvam nos conflitos internos do Partido Comunista Chinês (PCC).

A questão-chave subjacente a essa mudança de expectativa está no fato de que o povo chinês quer que os militares sirvam o Estado em vez de o PCC.

Esse chamado para a nacionalização das forças militares não vem só do povo chinês. O colunista Peter Yang escreveu um artigo no jornal Oriental Daily de Hong Kong, no qual diz que a mudança no ambiente geopolítico global fez os chefes militares chineses pensarem de modo mais independente.

Como resultado, os oficiais de alta patente já não juram lealdade ao Partido e a seus líderes cegamente como faziam os oficiais do passado e como era esperado deles pelo Partido. Yang também supõe que as lideranças mais antigas do ELP possivelmente estejam discutindo este assunto.

Partido desconsidera apelos pela nacionalização

Num recente discurso numa conferência na província de Fujian, o líder chinês Xi Jiping reafirmou o princípio de que “o Partido comando os militares”.

Em 3 de novembro, no dia seguinte à conferência, o Global Times, um jornal estatal porta-voz do PCC, publicou um artigo de opinião do major-general Luo Yuando, intitulado “A nacionalização dos militares levaria ao fim do Partido e do país”.

PCC comanda as armas

Essa postura reativa do PCC à nacionalização das forças militares é totalmente esperada.

Para o regime comunista chinês, o papel dos militares está na declaração clássica de Mao Tsé-tung: “O poder político nasce do cano do fuzil.” A nacionalização do poder militar ameaça a autoridade inquestionável e absoluta do PCC.

Evidências de um conflito ideológico dentro das forças militares chinesas podem ser encontradas nas publicações militares, que mostram o PCC se colocando no sentido de refutar os argumentos em favor da nacionalização.

O website Militares da China, mantido pelo jornal Diário do ELP, publicou em 13 de outubro um editorial de primeira página que alerta para a “sempre afiada e complexa luta ideológica” contra “forças inimigas ocidentais” e acusa essas forças inimigas de “tentarem provocar confusão ao defenderem a nacionalização das forças militares” e a “independência dos militares em relação ao controle do Partido e a luta pelo poder político”.

Em 27 de outubro, um editorial de primeira página desse mesmo website alertou sobre a “importância de obedecer o Partido sob todas as circunstâncias”.

Esses editoriais foram precedidos de dois artigos em Agosto

Em 06 de agosto, o “Diário do PLA” advertiu que “forças inimigas” estavam tentando usar a “nacionalização dos militares” para causar agitação e divisão entre os militares.

Em 11 de agosto, um artigo do “Diário do PLA” citou o apelo do Departamento de Política Geral do PLA para que os militares “resolutamente se posicionem contra o liberalismo político”.

A nacionalização

Argumentos a favor da nacionalização são expressos publicamente, principalmente, nos meios de comunicação fora da China.

Chen Kuide, editor-chefe da revista americana China in Perspective apontou que, no século 21, o Partido Comunista Chinês é o único órgão governante do mundo a se opor abertamente à nacionalização das forças militares.

Chen aponta que, mesmo na China, essa postura viola a Constituição chinesa, que estabelece: “As forças armadas da República Popular da China pertencem ao povo.”

Zheng Jiwen, editor do jornal taiwanês Defense International, disse a um repórter da Voz da América que “a nacionalização das forças armadas é um importante critério para [se julgar] a democratização de um país”.

“Se os militares não puderem ficar à margem das disputas internas entre facções políticas do PCC, ou seja, subordinados a alguns poucos indivíduos ou a um Partido, isso criará muitas barreiras e problemas inimagináveis quando o país quiser se mover em direção à democratização e à modernização.”

O conhecido intelectual chinês Cao Siyuan postou num blog na China continental um resumo de suas descobertas decorrentes de uma pesquisa sobre a Constituição de 110 países. 84 desses países estabelecem constitucionalmente que as forças militares pertencem ao Estado. Nos outros 26 países, é o Estado que de fato tem o controle sobre as forças armadas, ainda que a Constituição não estabeleça isso claramente. Portanto, a nacionalização das forças militares é um padrão global, concluiu Cao.

Crise no Partido Comunista Chinês

No dia 3 de novembro, numa conferência sobre política militar, foram usadas citações nas quais oficiais do ELP declararam lealdade e apoio a Xi Jinping, o atual secretário-geral do PCC e o presidente da China. Isso marca a quinta vez este ano que militares de alta patente declaram publicamente lealdade a um líder do regime chinês, o que é raro na história do PCC. Analistas veem isso como um sinal de tremenda crise dentro do Partido.

Em julho, o tenente-general Liu Yazhou escreveu na influente revista Qiushi, do PCC, que o ELP continua a adotar cegamente a mesma prática do passado que levou à queda da Dinastia Qing.

Avançando em sua argumentação, Liu previu que o regime chinês “terá um destino pior que o da Dinastia Qing” e “uma guerra de grande escala e longa duração surgirá dentro do país ou ao longo de suas fronteiras”.

Leia o artigo original em chinês aqui.

 
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