Cuba e EUA retomam relações diplomáticas após mais de 50 anos

Barack Obama e Raúl Castro afirmaram nesta quarta-feira (17) que os EUA irão reatar relações diplomáticas completas com Cuba.

As seguintes medidas serão adotadas:
• os dois países retomarão as relações diplomáticas, suspensas em 1961;
• as viagens de americanos a Cuba serão facilitadas;
• vendas e exportações de bens e serviços dos EUA para Cuba serão autorizadas;
• norte-americanos serão autorizados a importarem bens de até US$ 400 de Cuba;
• novos esforços serão feitos para melhorar o acesso de Cuba a telecomunicação e internet.

Obama assegurou que, pela primeira vez em mais de meio século, os EUA abrirão sua embaixada em Havana, depois que um funcionário americano mantido preso na ilha por mais de cinco anos foi libertado, conforme matéria publicada no portal G1.

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Cuba libertou o prisioneiro americano Alan Gross nesta quarta-feira (17). Em contrapartida, três agentes de inteligência cubanos, membros do grupo Cinco Cubanos, que estavam presos na Flórida desde 1981, voltaram à ilha. A transferência de Gross e dos cubanos Luis Medina, Gerardo Hernandez e Antonio Guerrero já foi finalizada.

Tecnicamente, Gross não fez parte da troca. Ele teria sido libertado em separado por “motivos humanitários”, segundo autoridades americanas. Sua prisão era encarada como um empecilho para harmonizar as relações, conforme Obama já havia sinalizado. “A libertação pelo governo cubano de Alan por razões humanitárias tiraria um impedimento para relações mais construtivas entre os Estados Unidos e Cuba”, disse Obama.

Em dezembro de 2009, Gross foi preso enquanto trabalhava para possibilitar o acesso à internet pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, em inglês). A agência batalha pela democracia no país comunista. Ele já havia ido cinco vezes a Cuba para trabalhar junto às comunidades judias para montar um sistema que driblasse a censura local. Gross foi julgado e sentenciado a 15 anos porque Cuba considera os programas da Usaid como tentativas ilegais dos EUA de arruinar seu governo.

Três dos cubanos que foram soltos em troca de Gross pertenciam ao chamado Cinco Cubanos — grupo de espiões enviados pelo então presidente cubano Fidel Castro para o sul da Flórida. Os homens, declarados heróis em Cuba, foram condenados em 2001 em Miami acusados, entre outras coisas de conspiração e por falharem em se registrar como agentes estrangeiros nos EUA. Dois dos Cinco Cubanos foram antecipadamente libertados após terminarem de cumprir suas penas.

Obama também disse que precisa haver um debate sério no Congresso norte-americano no sentido de amenizar ou levantar o embargo americano a Cuba, caso os legisladores optassem por isso. Os dois países cortaram relações a partir de 1962, e só as seções de menor interesse desde 1977, em suas respectivas capitais, foram mantidas. Obama disse que, com a normalização do relacionamento com Cuba, terminava uma “abordagem ultrapassada” da política externa americana.

Para justificar a decisão, o presidente disse que a política “rígida” dos EUA em relação a Cuba nas últimas décadas teve somente uma pequena repercussão. O presidente americano afirmou que acredita que, negociando novamente com o governo de Cuba, os EUA poderão “ajudar melhor o povo cubano”.

Raúl Castro confirmou, em Havana, o restabelecimento de relações diplomáticas e disse que quer restabelecer os vínculos principalmente quanto a viagens, correio postal direto e comunicações. De sua parte, Cuba concederá a liberdade para 53 presos cubanos considerados presos políticos pelo governo americano. “Peço ao governo dos Estados Unidos que remova os obstáculos que impedem os vínculos entre nossos povos”, disse Castro. “Devemos aprender a arte de conviver de forma civilizada com nossas diferenças”, acrescentou.

Castro disse ainda que não nega que existam “profundas diferenças” entre os dois países, “fundamentalmente em matéria de soberania nacional, democracia, direitos humanos e política exterior”, mas em seguida completou: “Reafirmo nossa vontade de dialogar sobre todos esses temas.”

O presidente cubano ainda disse que a ilha vai soltar e enviar para os EUA um homem de origem cubana que fez espionagens para os americanos – este homem não é Alan Gross, ele já está no território americano.

Na ocasião em que Raúl Castro assumiu o governo da ilha, em 2010, Obama tentou simplificar os deslocamentos e diminuir as restrições financeiras dos americanos que tinham família em Cuba, no entanto ele continua negando os pedidos de pôr um fim no embargo.

Durante a cerimônia após a morte de Nelson Mandela, na África do Sul, Obama e Raúl Castro tiveram uma pequena aproximação, quando apertaram as mãos e trocaram gentilezas no ano passado.

Obama e Castro mencionaram o papel que o Vaticano e o Papa Francisco tiveram na facilitação das negociações históricas entre os dois países. Obama disse que o Papa ajudou ao pressionar pela libertação do americano Alan Gross, segundo reportagem da Folha.

Raúl Castro agradeceu o apoio do Papa Francisco para “ajudar a melhorar as relações entre Cuba e os EUA”. Ele também agradeceu ao Canadá pelo apoio logístico. Um acordo negociado durante 18 meses de negociações secretas promovidas amplamente pelo Canadá e estimuladas pelo papa Francisco, que abrigou um encontro final no Vaticano.

Papa Francisco deu os parabéns para os dois países e afirmou que vai continuar a apoiar o fortalecimento das relações bilaterais.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, reconheceu a coragem do gesto de Obama em trocar os prisioneiros entre EUA e acrescentou que isso foi uma vitória para a ilha. “Temos que reconhecer o gesto de Obama, um gesto corajoso e necessário”, disse Maduro, durante reunião na Argentina, para os líderes do Mercosul.

 
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