Crise da China ameaça o Brasil e o mundo

Há certo tipo de analista que acredita em milagres, ainda pensa que existem verdades absolutas. Um bom exemplo são as bobagens que nos últimos anos vinham sendo escritas sobre a economia da China. Os comentaristas pareciam embriagados pelo crescimento do PIB chinês, que amedrontava o mundo e ameaçava ultrapassar até mesmo os Estados Unidos.

Acontece que Economia não é ciência exata, muito pelo contrário. Trata-se de uma ciência social literalmente sujeita a chuvas e trovoadas, sem regras inflexíveis, pois cada caso é um caso, a solução que se aplica num país pode ser trágica em outro, daqui a pouco a Economia vai ter mais teorias do que a Psicanálise.

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Pois os analistas achavam que a economia chinesa seria à prova de crises. Era como se o planejamento central do comunismo pudesse estruturar de tal forma o capitalismo que os dois se uniriam e seriam felizes para sempre.

Não há regime ideal

O fato é que o ser humano é errado pela própria natureza, a perfeição é apenas uma meta, com diz Gilberto Gil, e o tal modelo chinês já estava se sustentando numa espécie de autofagia, com a criação de bolhas econômicas e tudo o mais. A primeira crise foi no começo de julho, esta é a segunda. Pode até haver acomodação em curto prazo, mas outras crises virão, podem ter certeza. Não existe regime ideal, por isso discutir capitalismo e comunismo a esta altura do campeonato é pura perda de tempo.

O regime chinês está como barata tonta. O jornalista Jamil Anderlini, do Financial Times, diz que as medidas de intervenção sem precedentes, adotadas ao longo dos últimos 30 dias, incluem a proibição de vendas a descoberto e ofertas públicas iniciais, compras forçadas de ações por veículos estatais de investimento, proibição de vendas por grandes acionistas e apoio direto do banco central em forma de crédito.

Por três semanas consecutivas, o índice de referência do mercado de ações chinês vinha se recuperando da queda do começo de julho, quando as autoridades revelaram a maioria dessas medidas, depois de um colapso de 30% no valor agregado das ações do mercado em menos de um mês. Até o começo da noite de anteontem (26), o regime não havia se pronunciado quanto ao que planeja fazer a seguir, e os funcionários do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários se recusaram a responder quaisquer perguntas, quando contatados pelo “Financial Times”, bem ao estilo chinês.

Modelo esgotado

O fato é que o modelo está se esgotando. No início, tudo eram flores para os capitalistas ocidentais. A China não tinha leis ambientais, direitos trabalhistas rigorosos nem previdência. O governo aceitou que indústrias altamente poluidoras, proibidas nos países de origem, se instalassem no país e o povo trabalhasse para elas por salários vis. Mas de repente, não dá mais para segurar, como dizia Gonzaguinha.

Se as autoridades reconhecem que na China a poluição mata 400 mil pessoas por ano, podemos multiplicar este número por 10 ou 20. Para ser realizada a Olimpíada em Pequim, as fábricas poluidoras foram fechadas com antecedência de um mês. O Rio Amarelo hoje é marrom, o problema é gravíssimo em todas as regiões industriais.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores querem direitos trabalhistas, a Previdência teve de ser implantada, mas por enquanto quase ninguém se aposenta, apenas desconta, e o governo enche os cofres.

Estatísticas manipuladas

A China cresceu 7,4% no ano passado, seu melhor desempenho em 24 anos, e Pequim vai ter de batalhar para atingir sua meta de “cerca de 7%” para este ano, depois que a economia cresceu exatos 7% em cada um dos dois primeiros trimestres. O que demonstra que na China a estatística ainda é a arte de torturar os números até que eles confessem o que você quer ouvir.

A crise da China ameaça o Brasil e o mundo. É bom que nos acautelemos e procuremos outros mercados, se é que existem. Mas o governo brasileiro não está interessado nisso, a única preocupação é manter dona Dilma sentada naquela cadeira.

 
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