A cortina de bambu entre a China e o Ocidente

Ao longo da história, talvez ninguém viajou pela Rota da Seda e visitou a China mais do que o grande comerciante e explorador veneziano Marco Polo, cujo lendário conto ainda é ternamente recontado até hoje. Mas ele alertou as pessoas: “Eu não contei a metade do que vi.” Embora a tecnologia moderna tenha transformado o mundo numa aldeia global mais acessível, o fosso entre a Europa e o “Reino Médio” continua a ser, em muitos aspectos, tão mistificador como sempre.

Recentemente, o líder chinês Xi Jinping fez uma turnê de “amizade” por alguns estados-chave da União Europeia (EU), com uma comitiva de mais de 200 líderes empresariais e alguns contratos multibilionários assinados para comprar aviões e carros na França e Alemanha. Enquanto a mídia estatal chinesa Xinhua saudou a viagem como um novo capítulo de cooperação entre a UE e a China, a Europa parece ainda duvidosa para relaxar ou levantar-se pela China numa ampla gama de questões, incapaz de compreender totalmente o que está por trás da “cortina de bambu”.

Internamente, Pequim enfrenta dois grandes desafios simultaneamente. Em primeiro lugar, no lado econômico, Pequim informou que em 2014 a China viu um aumento da dívida do governo local para quase US$ 3 trilhões, ou 67% maior do que em 2010. Isso elevou a dívida pública total da China, incluindo a dívida do governo central, para 58% da sua economia, avaliada em US$ 8,5 trilhões. A rápida expansão dos empréstimos bancários viu a criação de US$ 15,26 trilhões em crédito, e os números divulgados pelos bancos em fevereiro mostram que os empréstimos de baixo desempenho e inadimplentes subiram para o nível mais alto desde a crise financeira.

Pior ainda, as quedas recentes no Índice de Gerente de Compras Industrial (PMI) (48,5 em fevereiro) e nas exportações preocupam Pequim profundamente porque esses indicadores significam perda de força de trabalho, bem como menos ganhos de moeda estrangeira – afinal de contas, a China ainda continua a ser uma economia de exportação. O número oficial de 0,473 no Índice de Gini, conforme apresentado por Pequim, é bastante subestimado, inclusive na opinião dos economistas chineses. A diferença de renda alarmante na China continua a ser uma grande preocupação para sua estabilidade social. Mais notavelmente, os preços da habitação nas grandes cidades, como Shanghai e Pequim estão entre os mais altos do mundo, enquanto o PIB per capita na China ocupa a triste 91ª posição no mundo.

Em segundo lugar, a luta interna de longa data pelo poder tem visto seu clímax no recente Congresso Popular do Partido Comunista Chinês, em meio a amplas reportagens sobre a corrupção e as contas bancárias offshore de líderes comunistas seniores. A nova liderança sob Xi Jinping está tentando consolidar sua base de poder, enquanto a velha-guarda linha-dura permanece no controle de alguns ramos críticos, como o sistema de propaganda, as forças de segurança pública, especialmente a polícia militar, e o sistema judicial. Com mais de 100 mil protestos de massa registrados por ano na China, a justiça social tem falhado miseravelmente devido à ausência do estado de direito. A desaceleração do crescimento do PIB, juntamente com um Estado rigidamente controlado por um regime de partido-único, levará a mais instabilidade social e polarizações, como observado por analistas da China.

Necessitada e cautelosa

Neste momento, a China precisa de ajuda da UE para fins múltiplos. Em 2013, com o comércio bilateral de US$ 559 bilhões, a UE era o maior parceiro comercial da China, enquanto a China é o segundo da UE, atrás dos Estados Unidos. A Europa fornece a China carros, aviões, produtos químicos e itens de luxo, enquanto a Europa importa US$ 385 bilhões em têxteis, eletrônicos e outras mercadorias da China.

Apesar do crescente comércio, a China, a segunda maior economia do mundo, desconfia de várias maneiras e profundamente da UE. Primeiro de tudo, há anos, a UE ainda não reconheceu a China como uma economia de mercado e continua seu embargo de armas contra Pequim, devido ao massacre sangrento dos estudantes na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em 1989.

Segundo, a China espera ampliar suas exportações para a UE para (1) manter seu status de centro mundial de fabricação; (2) sustentar sua economia baseada em exportações para obter moeda estrangeira; (3) manter sua força de trabalho ocupada; (4) adquirir tecnologia e know-how por meio de investimento estrangeiro direto (IED); e (5) utilizar o comércio como alavanca para maximizar o interesse nacional ao se engajar com Estados individuais da UE, incluindo silenciar as críticas da UE sobre seus abusos de direitos humanos, como a resolução do Parlamento Europeu contra a extração forçada de órgãos de praticantes do Falun Gong e de outros prisioneiros de consciência na China.

Além de meios econômicos, a China também está construindo ativamente seu poder suave na Europa, por meio da instalação de muitos dos chamados ‘Institutos Confúcio’ em campi universitários europeus e para usar essas instituições para promover seus programas de propaganda no exterior e a doutrinação comunista.

Preocupações da União Europeia

A UE, por outro lado, também não está satisfeita com seu déficit comercial de US$ 180 bilhões com a China no ano passado, especialmente com as restrições às importações impostas na China, o maior mercado na Ásia. Com pouco mais de 2% do IED da UE investido na China, a China também tem baixo IED na UE. Como os investidores norte-americanos, os países da UE acham que é impossível participar financeiramente em setores estratégicos chineses, como transporte, telecomunicações e saúde.

Outras preocupações comerciais graves do lado da UE incluem as medidas antidumping da China, sua violação dos direitos de propriedade intelectual e sua prática de politizar os negócios. Por exemplo, as ordens de compra da China, feitas a Airbus da França ou a Boeing dos EUA, frequentemente dependem se o presidente de um desses países encontrou-se com o líder tibetano, o Dalai Lama.

Em casos de disputas comerciais, como a recente decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a China a respeito de elementos de terras raras e outros metais, o professor Mark Wu, da Escola de Direito de Harvard, disse: “Embora o painel da OMC tenha decidido contra a China, ele não exigiu que a China pagasse uma indenização. Conforme predeterminado, a remediação da OMC não é retrospectiva… O objetivo principal da solução de controvérsias da OMC é forçar o cumprimento da lei, em vez de proporcionar justiça econômica para um mal passado. A OMC, na verdade, oferece aos países um passe livre para violar suas regras temporariamente. Desde que o país violador interrompa sua política ilegal num período razoável de tempo após um julgamento final, ele não precisa se preocupar em ser punido.”

Num Estado autoritário, onde um sistema jurídico independente e a imprensa livre não existem, investidores estrangeiros provavelmente não buscarão um parecer favorável ou justo de um tribunal chinês quando surgir um litígio, como muitas empresas estrangeiras têm eventualmente descoberto. Por exemplo, em 2009, o Grupo Danone da França foi forçado a abandonar seu investimento no Grupo Wahaha, uma das maiores empresas de bebidas da China, vendendo sua participação de 51%.

Em 2011, a Itália, a oitava maior economia do mundo, teria buscado ajuda da China para resgatar sua dívida nacional. Uma estratégia mais sábia para a Itália e outros estados-membros seria sugerir a China que importe mais produtos da UE, sobretudo porque a China possui uma enorme reserva de moeda estrangeira de uns US$ 3,82 trilhões, que vem em parte do superávit comercial com a Europa.

Afinal, a UE tem a vantagem competitiva de produzir alguns dos produtos da mais alta qualidade no mundo que são amplamente desejados nos mercados da China. Por fim, não se pode ignorar que a UE, uma união de democracias, não está mais lidando com a China feudal que Marco Polo testemunhou cerca de 800 anos atrás.

Não mais a China de Marco Polo

Apesar de seu esforço de reforma econômica, a China hoje ainda é uma ditadura comunista com as chamadas ‘características chinesas’, que politicamente a equivale à Coreia do Norte, Irã, Cuba, bem como à Rússia, a maior exportadora de equipamentos militares para a China. Mais notavelmente, a China permanece em silêncio sobre a questão da Ucrânia, apesar de sua plena consciência da posição da UE sobre o assunto.

Nesta era da tecnologia digital, ainda não é possível acessar o Facebook, Google, YouTube ou Twitter na China. Na verdade, uma pessoa pode ser jogada na cadeia e até mesmo morta na China por ser um adepto da disciplina espiritual do Falun Gong ou um ativista pró-democracia. O progresso econômico nos últimos 30 anos não transformou a China numa sociedade civil regida pelo estado de direito; em vez disso, reforçou um regime draconiano que desrespeita a ordem e as normas internacionais. Ainda há diferenças fundamentais nos sistemas de valores da Europa democrática e da China comunista.

Os estados-membros da UE não têm interesse de longo prazo em negociar seus princípios democráticos fundamentais em busca de crescente cooperação econômica com a China. O que é bom para a Europa, e para humanidade em geral, em última análise é ver a China se tornar uma democracia, e não um dragão tirânico que mais tarde ‘morderá a mão que alimenta’. Pelo menos por enquanto, a Europa e a China não avançam na mesma direção, nem política nem economicamente. A compreensão clara de ambos os lados além da cortina de bambu é essencial para o sucesso do comércio significativo e da diplomacia.

Sun Tzu (544-496 a.C.), o conhecido estrategista militar chinês, escreveu em “A Arte da Guerra”: “Conheça a si mesmo e seu inimigo, você ganhará uma centena de guerras.” A China será um dia integrada na comunidade de democracias? Todos esperamos e acreditamos que sim. Mas até lá, o filósofo romano Lúcio Aneu Séneca (c. 4 a.C.–65 d.C.) nos ofereceu a melhor sabedoria: “Se a virtude nos precede, cada passo será seguro.”

Erping Zhang é diretor da Associação de Pesquisa Asiática sediada em Nova York.

 
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