Coordenador da perseguição ao Falun Gong é investigado na China

Uma única frase postada em 20 de dezembro num website do regime chinês anunciou a investigação de um funcionário de alto escalão que ajudou a realizar a perseguição à disciplina espiritual do Falun Gong nos últimos 14 anos. Com este anúncio, o Partido Comunista Chinês (PCC) reconheceu pela primeira vez a existência da organização secreta do PCC que coordena esta perseguição.

O anúncio no site do Comitê Central de Inspeção Disciplinar do PCC listou Li Dongsheng nos cargos de vice-diretor da “Equipe de Liderança” que lida com o Falun Gong, diretor da Agência 610, vice-secretário do PCC e vice-ministro do Departamento de Segurança Pública, embora o anúncio utilizasse os títulos formais desses cargos sem mencionar as palavras “Falun Gong” ou o nome comumente usado “Agência 610”.

A Equipe de Liderança e a Agência 610 são organizações extrajudiciais e operam secretamente, segundo um relatório a respeito de Li Dongsheng, publicado pela ‘Organização Mundial para Investigar a Perseguição ao Falun Gong’ (WOIPFG).

O sr. Xia Yiyang, diretor de investigações da WOIPFG, disse: “Nenhuma organização ou website formal ou oficial na China reconheceu antes publicamente a existência da agência [Equipe de Liderança], embora outras mídias e websites tenham mencionado a agência ocasionalmente.”

O anúncio não só reconheceu a existência da Equipe de Liderança, mas, ao listá-la em primeiro lugar, chama a atenção por destacá-la, apontou Xia. “Como a carreira de Li Dongsheng nos últimos 14 anos está relacionada principalmente a esta organização secreta, isso [o anúncio de investigação] revela que a perseguição [ao Falun Gong] já dura 14 anos”, disse Xia.

Equipe de Liderança

A Equipe de Liderança foi fundada em junho de 1999 pelo ex-líder chinês Jiang Zemin.

A Agência 610, criada em 10 de junho de 1999, foi formada especificamente para lidar com as operações diárias da Equipe de Liderança na perseguição ao Falun Gong, diz o relatório da WOIPFG. “A Equipe de Liderança não é uma organização legal; ela é um braço do PCC e a perseguição é um movimento político liderado pelo PCC”, disse Xia.

Antes de configurar a Equipe de Liderança e a Agência 610, Jiang Zemin estabeleceu suas razões para perseguir o Falun Gong (também conhecido como Falun Dafa) numa carta que circulou no Politburo na noite de 25 de abril de 1999.

Jiang enfatizou quantas pessoas praticavam o Falun Gong – naquela época os números oficiais do Estado mostravam 70 milhões de adeptos, mais do que os membros do Partido Comunista. Praticantes dizem que mais de 100 milhões, ou 1 em cada 12 chineses, praticavam o Falun Gong.

Jiang temia que um grupo que não estava sob o controle do PCC se tornasse muito popular e que os ensinamentos morais do Falun Gong fossem mais atraente ao povo chinês do que a ideologia ateísta do PCC.

Papel de Li Dongsheng

Li Dongsheng esteve lá desde o início para ajudar a levar a cabo a campanha de Jiang.

Ele foi nomeado vice-diretor da Agência 610 e encarregado da propaganda anti-Falun Gong. Naquela época, ele também foi vice-diretor da China Central de Televisão (CCTV), cargo que ocupou entre 1993-2000.

O programa “Focus” da CCTV, que Li comandou para produzir 102 episódios de programas anti-Falun Gong entre 1999-2005, apresentou 70 episódios em 5 meses, de julho a dezembro de 1999, diz o relatório da WOIPFG.

Um dos vídeos veiculados na CCTV afirmava que cinco praticantes do Falun Gong se imolaram na Praça da Paz Celestial em janeiro de 2001. A CCTV começou a exibir o vídeo dia e noite quase imediatamente após o suposto evento e isso afetou profundamente a forma como os chineses viam e julgavam o Falun Gong, fazendo com que um grande número de chineses passasse a apoiar a campanha do PCC contra o Falun Gong.

Depois que a mídia fora da China teve a oportunidade de analisar o vídeo, ele foi considerado uma fraude completa. O documentário premiado “Fogo Falso” analisou o vídeo quadro a quadro, mostrando problemas nele e citando comentários publicados no Washington Post, National Review e outras mídias.

Em 2009, Li foi promovido a diretor da Agência 610 e também se tornou vice-secretário do PCC e vice-ministro do Departamento de Segurança Pública. Nestas posições, Li assumiu a responsabilidade de promover a perseguição ao Falun Gong.

Em 2010, o PCC anunciou uma campanha de três anos para fazer lavagem cerebral em todos os praticantes do Falun Gong na China, que foi seguida pela campanha “Batalha Final”, a desdobrar-se entre 2013-2015.

De acordo com o Centro de Informação do Falun Dafa, durante toda a perseguição centenas de milhares de praticantes do Falun Gong foram detidos, sofreram lavagem cerebral, tortura e abusos.

O Centro documentou 3.731 praticantes que morreram de tortura e abusos, mas o número real é certamente muito maior. Além disso, dezenas de milhares de praticantes foram assassinados para extração forçada de seus órgãos para o comércio de transplante.

Investigando Li

O anúncio em 20 de dezembro é de qualquer forma uma notícia significante. Li é o segundo membro do Comitê Central, juntamente com o cabeça da indústria petrolífera Jiang Jiemin, a ser investigado desde o 18º Congresso do PCC em novembro de 2012.

Como Jiang Jiemin, Li está intimamente associado ao ex-chefe da segurança pública Zhou Yongkang, que também está atualmente sob investigação, e os três – Zhou Yongkang, Li Dongsheng e Jiang Jiemin – pertencem à facção do ex-líder chinês Jiang Zemin.

O curto anúncio afirmou que Li Dongsheng estava sendo investigado por “violações graves da lei”, mas não deu qualquer dica sobre que violações eram essas.

“Colocar a identidade de Li Dongsheng como vice-diretor da Equipe de Liderança e como diretor da Agência [610] na frente de outros títulos sugere que sua grave violação da disciplina está diretamente relacionada com esta identidade”, segundo o investigador Xia Yiyang.

O anúncio pode também significar uma mensagem mais ampla. “A liderança atual pode ter segundos pensamentos sobre a perseguição ao Falun Gong. Pelo menos ela não quer assumir a responsabilidade pelos crimes que o regime de Jiang Zemin cometeu”, disse Xia.

Xia disse que as pessoas envolvidas na perseguição estão cansadas depois de 14 anos de campanha e não é fácil encontrar pessoas dispostas a continuar a perseguição ativamente como os ex-funcionários do PCC que a começaram, como Luo Gan, Zhou Yongkang, Bo Xilai, Liu Jing e Li Dongsheng.

“A perseguição ao Falun Gong precisa de indivíduos tanto cruéis como ativos. Mas não é fácil encontrar pessoas assim, mesmo neste sistema maligno [do PCC]”, disse Xia. “Sem ninguém para assumir a perseguição, agora é muito difícil mantê-la como antes.”

O impacto da queda de Li é incerto, mas as pessoas envolvidas na perseguição ao Falun Gong perderam outro funcionário-chave que os apoiava. Xia disse: “Não há mais segurança política para os que ainda estão envolvidos na perseguição.”

 
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