Como o monopólio das patentes afeta criadores e agricultores no mundo

A produção mundial de alimentos – dos grãos aos derivados de animais – caminha gravemente para o monopólio, imposto pelas patentes das indústrias de transgênicos.

Ao contrário das promessas de benefícios econômicos e melhoramento na vida dos agricultores feitos pelas indústrias de OGMs e transgênicos, os agricultores estão constatando sua grave dependência, e mesmo empobrecimento, depois de assinarem contratos com as empresas de transgênicos.

Esses contratos os proíbem de replantarem as sementes produzidas em suas colheitas, o que os obriga a comprarem novas sementes transgênicas para cada novo plantio. Também os atrela à tecnologia exclusiva de manejo das sementes transgênicas patenteadas, que exigem formas fechadas de manejo das sementes e da plantação, dentro de um processo que requer insumos exclusivos – como certos produtos químicos e pesticidas específicos – produzidos exclusivamente pelas mesmas empresas de transgênicos. Isso os torna definitivamente dependentes de empresas transnacionais como a Monsanto – a maior indústria de transgênicos do mundo, que no Brasil atua através da Agroceres, Agracetus, Agroeste Sementes, CanaVilis Monsanto, Monsoy e outras.

Na Índia, a Monsanto domina praticamente todo o mercado de sementes de algodão, o que obriga os agricultores a comprarem suas sementes transgênicas. Porém, os preços das sementes da Monsanto são quatro vezes maiores do que os das sementes convencionais – o que, segundo a empresa, se deve ao preço embutido de sua tecnologia patenteada – levando os agricultores a graves endividamentos, que se transformam, muitas vezes, em perdas de suas terras e mesmo de suas casas.

Além disso, devido às modificações genéticas feitas pela Monsanto em sementes nativas, as perdas ocasionadas em algumas safras têm sido desastrosas para os agricultores, levando milhares de famílias à ruina financeira e chefes de família ao suicídio.

Desde 2001 os engenheiros agrônomos Kiran Sakhari e Abdul Gayum estudam comparativamente o algodão convencional e o transgênico no distrito Wrangal, na Índia.

“Num estudo que publicamos em 2001, nós já tínhamos observado essa doença em algumas plantas BT [plantas transgênicas nas quais foi introduzida geneticamente a toxina BT, que vem de uma bactéria encontrada no solo chamada Bacillus thuringiensis]. Com o tempo, a doença foi se espalhando e ocorrendo em cada vez mais cultivos de algodão-BT e em cultivos convencionais também. Eu, pessoalmente, acho que se trata de uma interação não desejada entre a planta na qual o gene foi inserido e o gene BT. Essa interação criou uma fraqueza na planta, que agora não consegue resistir à Rhizoctonia [um tipo de fungo que ataca as plantas]”, disse diz Sakhari no documentário ‘O mundo segundo a Monsanto’.

Somente na Índia, no estado de Maharastra, 1.280 agricultores suicidaram-se no período de junho de 2005 a dezembro de 2006. Estima-se que boa parte desses suicídios deveu-se ao comércio das sementes transgênicas da Monsanto.

O agrônomo indiano Tarak Kate, que tem vivenciado a dura realidade das famílias agricultoras, onde os suicídios se tornaram um pesadelo cotidiano, disse: “É um desastre absoluto, sim. Todas essas biotecnologias estão deixando os agricultores na total dependência do mercado, porque você tem que pagar muito mais pelas sementes e também tem de comprar herbicida. Eles dizem que não é preciso, que o BT dispensa herbicida, mas é uma grande mentira!”, segundo o documentário ‘O mundo segundo a Monsanto’.

Além de contribuir para esse cenário desumano, mediante monopólio de mercado, dos altos preços de suas sementes transgênicas e dos danos que vêm ocasionando nas safras, a Monsanto cria estratégias profundamente ambiciosas e desumanas como a “Tecnologia Terminator”. Essa tecnologia, criada pelos cientistas da Monsanto, faz com que todas as sementes transgênicas de certas espécies de plantas se auto esterilizem quando maduras – tornando-se estéreis e inutilizáveis para um novo plantio pelos agricultores.

A Dra. Vandana Shiva Navdanya, física, ativista ambiental indiana e diretora da Research Foundation for Science, Technology and Ecology, em Nova Déli, na Índia, aborda no livro ‘Sementes do suicídio’ as estratégias antiéticas e o impacto severo das indústrias de transgênicos, como a Monsanto, na vida e na economia dos agricultores da Índia, do Punjab e de outros países. Vandana é também autora dos livros ‘Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento’, ‘Monoculturas da mente’ e ‘Guerras por água’.

Ganhadora do respeitado prêmio Right Livelihood Award, que premia pessoas que oferecem respostas práticas e exemplares para os problemas mais urgentes da humanidade atual, Vandana disse no documentário ‘A corporação’: “Para elas [que produzem transgênicos] é legítimo criar uma tecnologia exterminadora, para que, então, agricultores não consigam guardar suas sementes [para um novo plantio]… É preciso ter uma mente bestial… É uma guerra contra a evolução pensar nesses termos. Mas, na mente deles, o lucro é muito mais importante”.

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