Como entender o islã no conflito da Síria

Uma mesquita na cidade de Rawalpindi, Paquistão, durante as comemorações islâmicas do Ramadã (Farooq Naeem/AFP/Getty Images)

Alianças políticas no Oriente Médio e no Norte da África são profundamente influenciadas pela divisão entre sunitas e xiitas no islã.

Muitas vezes é difícil para o público ocidental entender o mundo muçulmano, mas acompanhando as revoltas da “Primavera Árabe” e como o conflito sírio tem atraído a intervenção ocidental, compreender o islã pode ajudar o cidadão do mundo a navegar melhor o mapa político.

Cerca de 60% dos 1,62 bilhão de muçulmanos do mundo vivem na região da Ásia-Pacífico, segundo dados de 2010 do Centro de Pesquisa Pew. Apenas 20% dos muçulmanos vivem em países árabes.

A maior população muçulmana está na Indonésia. Irã e Turquia não são nações árabes, mas a maioria de seus cidadãos é muçulmana.

O termo “árabe” também é um tanto incompreendido e difícil de definir. Ser “árabe” está relacionado, em parte, à linguagem, em parte, à cultura e etnia e, em parte, a uma designação política como tal. O Irã, onde os persas étnicos são maioria, não é considerado uma nação árabe.

A maioria dos árabes é muçulmana, mas alguns adotaram outras religiões, como o cristianismo ou drusos, uma religião monoteísta que começou no Oriente Médio no século 11.

Os muçulmanos estão divididos principalmente em dois grandes grupos, sunitas e xiitas, e os dirigentes dos países árabes costumam alinhar-se com um ou outro.

Sunita e xiita se dividem

O profeta Maomé, nascido na cidade de Meca, na Arábia Saudita, foi o fundador do islã no século 7. A divisão entre sunitas e xiitas começou imediatamente após a morte do profeta no ano 632 e não por causa de diferenças espirituais, mas por uma disputa de liderança.

Os xiitas queriam que o próximo líder fosse da família de Maomé. Eles acreditavam que seu primo Ali bin Abu Talib, casado com a filha de Maomé, deveria ser o novo líder. A palavra “xiita” é uma abreviação do termo “Shiat Ali”, o partido de Ali.

Sunita significa em árabe: “seguir a tradição do profeta”. Os muçulmanos sunitas acreditam que o novo líder deve ser eleito entre os mais capazes para assumir o papel. Eles disseram que não havia nenhuma base no islã para uma classe privilegiada hereditária de líderes espirituais e elegeram Abu Bakr, o conselheiro do profeta Maomé, como seu líder.

A divisão inicial não era espiritual, mas sim relacionada com a liderança política e até hoje muçulmanos xiitas e sunitas compartilham os cinco principais pilares da crença islâmica: o credo (shahadah), as orações diárias (salat), atos de caridade ou dar esmola (zakat), jejuar no mês do Ramadã e peregrinar à Meca (hajj) pelo menos uma vez na vida.

Mas, com o tempo, a vida espiritual dos sunitas e xiitas desenvolveu algumas diferenças. Por exemplo, os sunitas privilegiam os ensinamentos do profeta (sunna). Os xiitas dão mais peso à orientação de seus líderes espirituais. Os clérigos de alto escalão, aiatolás, são considerados reflexos de Deus na Terra.

Adeptos de ambos os grupos fundaram organizações terroristas. O Al-Qaeda é afiliado aos sunitas e o Hezbollah aos xiitas, por exemplo.

Islã na Síria atual

No Oriente Médio e Norte da África, a maioria dos países tem maioria sunita e a liderança também é sunita. No entanto, os países de maioria xiita incluem o Irã, Iraque e Bahrein, explicou Vali Reza Nasr, o reitor da Escola Johns Hopkins de Estudos Internacionais Avançados e especialista em Oriente Médio. Quase metade da população do Líbano também é xiita.

Na Síria, apenas 15% são alawi, uma seita do grupo xiita, mas o presidente sírio Bashar Assad é alawi. Estas afiliações se refletem no mapa político do Oriente Médio em geral e no conflito sírio em particular.

De um lado, a aliança xiita do Irã, Síria e o Hezbollah no Líbano apoia Assad. Por outro lado, o que é chamado de “eixo sunita” – incluindo a Turquia, Jordânia, Arábia Saudita e Emirates Árabes Unidos (EAU) – apoia os rebeldes sírios. Os apoiadores dos rebeldes podem ter fornecido ajuda financeira, mas nenhum enviou ajuda militar.

Segundo o professor Uzi Rabi, diretor do Instituto Dayan em Israel: “Diferentemente do Egito e da Tunísia, a Primavera Árabe na Síria não é apenas uma luta entre um líder e os rebeldes, mas entre sunitas e xiitas e, portanto, também inclui o Líbano e o Iraque.”

O Prof. Eyal Zisser, decano da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Tel Aviv, Israel, explicou que os rebeldes são da classe rural sunita. As minorias na Síria, em sua maioria drusos e cristãos, não estão lutando contra Assad, pois muitos têm medo de um regime islâmico extremista se os rebeldes vencerem.

Zisser disse que a situação é muito mais complexa: “A Síria se tornou, como o Afeganistão e o Iraque, um centro onde milhares de extremistas sunitas de grupos jihadistas se voluntariam para lutar contra o regime de Assad, que eles descrevem como um ‘regime alawi infiel apoiado pelos xiitas’.”

Ele disse que a saída de Assad não seria o fim da luta entre sunitas e xiitas na Síria, a luta continuará e ninguém pode prever quando isso terminará.

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