Como as audaciosas “6 ondas de rádio” expuseram a farsa da autoimolação montada pelo regime chinês

Em memória dos heróis que interromperam o sinal de televisão a cabo em 2001 para "esclarecer a verdade" ao povo chinês enganado pela propaganda comunista

Por Joan Delaney, Epoch Times

Enquanto a perseguição contra o Falun Dafa se intensificava em toda a China no início dos anos 2000, alimentada por uma campanha massiva de propaganda de ódio, Liang Zhenxing espremeu o cérebro em busca de uma maneira eficaz de mostrar às pessoas que a disciplina de meditação não era o “culto maligno” que o Partido Comunista Chinês afirmava.

Com medo da imensa popularidade do Falun Dafa — a prática contava com cerca de 70 a 100 milhões de praticantes no final da década de 1990 — o então líder do Partido, Jiang Zemin, iniciou a perseguição em uma tentativa de eliminar a disciplina.

Em 20 de julho de 1999, o regime emitiu um mandado de prisão em todo o país e lançou uma campanha de propaganda implacável para atacar o Falun Dafa (também chamado Falun Gong) e difamar a prática tradicional que ensina os valores universais da Verdade, Compaixão e Tolerância.

A propaganda alcançou novos patamares em janeiro de 2001, quando na Praça Tiananmen aconteceu uma autoimolação em que cinco pessoas que, agindo sob as ordens do regime chinês, se fizeram passar por praticantes do Falun Dafa e atearam fogo em si mesmos.

Liang e seus amigos sabiam que a autoimolação, em que uma pessoa morreu, era uma fraude elaborada pelo Partido Comunista para retratar o Falun Dafa como perigoso e justificar sua brutal campanha de prisão arbitrária, tortura e assassinato. Mas o incidente e o subsequente bombardeio propagandístico tiveram o efeito desejado: o Falun Dafa estava agora realmente demonizado aos olhos do povo chinês.

Liang Zhenxing (Minghui.org)
Liang Zhenxing (Minghui.org)

Mais tarde, Liang assistiu “Fogo Falso”, um documentário que analisa as imagens do incidente e outras evidências que expõem os numerosos e enormes defeitos que existiam sobre a autoimolação. Ele falava a verdade que as pessoas precisavam saber. Mas como trazer essa verdade à luz?

Ele finalmente encontrou o que procurava depois de ler um artigo no Minghui, um site sediado no Ocidente que coleta informações sobre a perseguição, que tratava sobre a “interrupção de uma transmissão” e como se conectar a uma rede de televisão e transmitir um vídeo.

Liang sabia que isso seria muito mais impactante do que distribuir panfletos ou colar cartazes à noite — o método usado pelos praticantes na China para aumentar a conscientização sobre a perseguição, conhecido na comunidade do Falun Dafa como “esclarecer a verdade”.

Agora tudo o que ele precisava era de uma equipe para realizar essa atividade de alta complexidade.

(Minghui.org)
(Minghui.org)

Formar uma equipe, construir uma estratégia

Liang já havia sido preso em sua cidade natal, Changchun, por ter ido a Pequim para exigir o fim da campanha de perseguição. Enquanto esteve lá, ele se tornou amigo dos colegas praticantes Liu Chengjun e Liu Haibo, que, como Liang, se mantiveram firmes em não renunciar ao Falun Dafa, não importando o quanto fossem espancados ou torturados.

Depois que todos foram libertados, Liang recrutou-os para a tarefa que ele tinha em mente, junto com mais uma dúzia de pessoas que tinham as várias habilidades técnicas necessárias. A equipe principal era composta por seis pessoas, com apelidos: Lei “Irmãozinho” Ming, Liu “Grande Mar” Haibo, Liu “Grande Caminhão” Chengjun, Hou “O Macaco” Mingkai, Zhou “A Cozinheira” Runjun (a única mulher) e Liang.

A equipe alugou uma casa para usar como base e começou a desenvolver sua estratégia.

Eles adquiriram ganchos de escalada usados por técnicos da companhia de energia e aprenderam a escalar postes à noite em bairros locais. Durante o dia, eles praticavam em um centro de eletrônica abandonado que encontraram em um ferro-velho. Liu Haibo e Hou descobriram uma maneira de unir os cabos com antecedência, o que significava que apenas um ajuste rápido seria necessário na hora certa.

Lei Ming (Minghui.org)
Lei Ming (Minghui.org)

As coisas estavam progredindo bem quando de repente Liang foi preso. De alguma forma, a polícia descobriu que ele estava tramando algo. Os outros sabiam que a polícia iria torturar Liang em busca de informações e todos estavam esperando por aquela nefasta batida na porta de suas casas, mas no fim ela nunca chegou. Como sempre, Liang ficou firme como uma rocha e resistiu aos maus-tratos.

A equipe sabia que tinha que agir rapidamente, e no final de fevereiro de 2002, com Liu Chengjun agora no papel de líder, estava quase tudo pronto.

O plano era de quatro subequipes, vestindo uniformes e usando bicicletas e táxis para se locomover, conectassem oito canais a cabo em Changchun e a cidade vizinha de Songyuan para transmitir simultaneamente vídeos de esclarecimento da verdade do Falun Dafa.

O trabalho de Zhou Runjun era limpar a casa, sem deixar vestígios de que eles estiveram ali.

Liu Haibo com sua esposa (Minghui.org)
Liu Haibo com sua esposa (Minghui.org)

“Vocês do Falun Gong são tão incríveis”

Em 5 de março de 2002, 50 minutos de programação foram transmitidos simultaneamente em oito canais para 300 mil assinantes de tv a cabo em Changchun, informando a realidade da campanha de perseguição contra o Falun Dafa. Quase 100 mil famílias puderam ver “Auto-imolação ou farsa?” e “Falun Gong se espalha pelo mundo todo”. Dezenas de milhares de assinantes de TV a cabo na cidade de Songyuan viram os mesmos programas.

Em seu artigo principal “Nas ondas finas do rádio”, o autor e especialista em assuntos da China, Ethan Gutmann, descreveu a reação do público depois que os programas foram transmitidos. Muitos espectadores acreditavam que a campanha de perseguição havia acabado.

“Em alguns bairros, os funcionários locais do Partido ficaram desesperados e cortaram o fornecimento de energia, deixando as ruas na escuridão. Em outros, como aqueles próximos à Praça da Cultura, as pessoas saíram às ruas para comemorar. ‘A proibição acabou! Falun Gong está reabilitado!'”, escreveu Gutmann.

“Alguns praticantes deixaram as fábricas e esconderijos, distribuindo material abertamente.”

“Vizinhos, crianças, estranhos ao acaso, até mesmo mulheres idosas se aproximaram, todos falando ao mesmo tempo, transbordando, rindo, dando tapinhas de brincadeira, parabenizando-as. Alguns suspeitaram que aquilo não havia sido transmitido pelo regime, mas ainda assim sorriram agradavelmente e sussurraram: Como eles fizeram isso? Vocês, do Falun Gong, são incríveis!”

Ao voltar de Songuan para Changchun, Liu foi às ruas para ver por si mesmo o que estava acontecendo. No dia seguinte, com lágrimas nos olhos, ele disse a todos os membros da equipe: “Foi um grande sucesso! Obrigado a todos!”

“As pessoas falam sobre a verdade do Falun Gong em toda parte, mesmo em público, como nos ônibus. A transmissão durou mais de 20 minutos em uma rede e 30 minutos na outra! Os vídeos foram reproduzidos até o final, e as pessoas souberam a verdade. A cidade inteira ficou chocada”, disse ele, segundo o Minghui.

Esposa e filha de Hou Mingkai (Minghui.org)
Esposa e filha de Hou Mingkai (Minghui.org)

Invasões com prisões em massa

Só que a alegria durou pouco. Furiosas e aterrorizadas, as autoridades enviaram todos os policiais da cidade para procurar aqueles que haviam entrado na rede de televisão a cabo para transmitir os vídeos. A lei marcial foi promulgada. Liu Jing, então vice-ministro da Segurança Pública, voou a Changchun para supervisionar as invasões e prisões em massa.

Na primeira rodada de detenções em massa, mais de 5.000 praticantes do Falun Dafa foram presos. Interrogatórios e tortura começaram imediatamente com o objetivo de identificar os envolvidos na interrupção do sinal de televisão a cabo.

Lei Ming foi o primeiro a ser preso. Ele foi espancado no departamento de polícia e levado para um porão equipado com todos os tipos de dispositivos de tortura: um banco de tigre, bastões elétricos, sacos de plástico para cobrir a cabeça, uma barra de ferro em brasa, etc. Depois de ser torturado durante quatro dias e noites, ele estava quase morto. Lei foi condenado a 17 anos de prisão e foi solto precocemente devido a sérios ferimentos na coluna vertebral, situação que o levou à morte em 2006.

Lei Ming depois de ser libertado da prisão (Minghui.org)
Lei Ming depois de ser libertado da prisão (Minghui.org)

Liu Chengjun foi preso em sua casa, algemado e espancado com varas de madeira, enquanto sua família e vizinhos assistiam. Seu tio, tia e primo foram mantidos em um centro de detenção por 11 dias, onde o tio e o primo foram severamente espancados. Liu foi condenado a 19 anos de prisão, onde faleceu em 2003. Ele tinha apenas 32 anos de idade.

Liu Haibo foi preso na noite de 10 de março e morreu poucas horas depois, enquanto estava detido. Segundo o Minghui, a polícia inseriu um bastão elétrico no reto de Liu para eletrocutar seus órgãos internos. Ele morreu em poucos minutos.

Hou Mingkai foi preso em 20 de agosto de 2002, junto com outros três praticantes. Ele foi espancado até a morte naquela noite.

Zhou Runjun foi condenada a 20 anos, mas acredita-se que esteja morta.

Liang Zhenxing morreu em 1º de maio de 2010, após oito anos de prisão e tortura.

Em setembro de 2002, 15 pessoas foram julgadas no Tribunal Intermediário de Changchun pelas audaciosas transmissões na rede de televisão e sentenciadas a até 20 anos de prisão. Naquela ocasião, as sentenças de prisão foram as mais longas já impostas aos praticantes do Falun Dafa desde que a perseguição começou, em julho de 1999.

Esta é a última foto de Liu Chengjun. Devido à tortura, ele sofreu muitos ferimentos e não podia mais ficar sozinho, então teve que se encostar na parede (Amigos do Falun Dafa)
Esta é a última foto de Liu Chengjun. Devido à tortura, ele sofreu muitos ferimentos e não podia mais ficar sozinho, então teve que se encostar na parede (Amigos do Falun Dafa)

“A montanha se moveu”

Mas o sacrifício feito pelo grupo — que ficou conhecido como “6 ondas de rádio” — para esclarecer a verdade de maneira tão ousada, não foi em vão. O esforço não apenas restringiu, ainda que brevemente, o volume avassalador de propaganda do Estado, mas o trabalho dessa equipe foi pioneiro em uma nova era de conscientização sobre a perseguição. A iniciativa motivou os profissionais residentes no exterior a trabalhar no desenvolvimento de softwares anti-firewall que pudessem contornar o bloqueio do acesso à Internet realizado pelo Grande Firewall do regime chinês.

Gutmann escreveu: “A montanha se moveu. Com nomes como FreeGate, UltraSurf e Dynaweb, pequenas células profissionais operando a partir de escritórios no norte da Califórnia e salas na Carolina do Norte iniciaram o processo de derrubada do Grande Firewall chinês e forjaram uma conexão permanente da China com a Internet do ocidente”.

Em 2006, os praticantes formaram o Global Internet Freedom Consortium, uma aliança de organizações com sede nos Estados Unidos que contribuiu significativamente — através da implantação de tecnologias anti-censura para usuários da Internet em regimes opressivos — para o avanço da liberdade de informação na China, Irã, Birmânia e outras sociedades fechadas.

Não é de surpreender que Gutmann tenha descrito Liang como o homem cuja engenhosidade estimulou o trabalho do Falun Dafa pela liberdade da Internet.

 
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