Publicado em - Atualizado em 18/12/2017 às 16:24

Comercializando a religião na China

Políticas do Partido Comunista incentivam a transformação de templos e mosteiros em atrações turísticas lucrativas

Monges chineses participam de cerimônia no Templo Shaolin para comemorar o Ano Novo Lunar no Condado de Dengfeng, Província de Henan, em 28 de janeiro de 2017 (STR/AFP/Getty Images)

Monges chineses participam de cerimônia no Templo Shaolin para comemorar o Ano Novo Lunar no Condado de Dengfeng, Província de Henan, em 28 de janeiro de 2017 (STR/AFP/Getty Images)

Os monges Kung Fu do Templo Shaolin são famosos ascetas, conhecidos em todo o mundo e retratados em inúmeros filmes e programas de televisão.

Mas, sob o Partido Comunista Chinês (PCC), não resta mais senão a casca do templo histórico. Este não é mais um lugar para a meditação espiritual, mas um império do comércio. Várias empresas se estabeleceram: uma empresa de cinema e televisão, uma academia de pintura, uma editora e um grupo de artistas, entre outros.

Shaolin aluga seu espaço para a realização de eventos, inclusive foi realizado um concurso de beleza “biquíni fashion” no verão de 2009. Naquele ano, o templo também tentou marcar presença no mercado de ações. Certamente, a ideia de “vender-se” não poderia ser melhor exemplificada.

Essa flagrante comercialização da religião tem recebido apoio do regime chinês há décadas. Na época da Revolução Cultural, o líder do PCC, Mao Zedong, lutou contra as “velhas ideias, cultura, costumes e hábitos”, comandando a destruição de inúmeros locais históricos, templos, mosteiros e lugares de relevância cultural em todo o país. Mas com a abertura da economia chinesa, as autoridades locais começaram a ganhar muito dinheiro com o lucrativo potencial do crescente interesse das pessoas pelos templos budistas e mosteiros taoístas. Para impulsionar as economias locais, as estruturas destruídas foram reconstruídas, transformando-se em pontos turísticos.

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Mas aqueles não são mais lugares de culto. Como muitos fenômenos na cada vez mais materialista sociedade chinesa, a única motivação é ganhar dinheiro. Desde oferecer instalações com vistas panorâmicas para atrair turistas até vender estátuas de deuses para pessoas que procuram bênçãos e proteção.

Há pouco tempo, o PCC reconheceu que este marketing explícito é algo mal visto e pediu às organizações religiosas que diminuam essas ações. Em 23 de novembro, 12 departamentos pertencentes às autoridades centrais do Partido, incluindo o Departamento de Propaganda, a Frente Unida, a Administração do Ciberespaço e a Administração Nacional de Turismo, publicaram regras que proíbem as organizações budistas e taoístas de operar como empresas. É proibido ter capital para fazer negócios, investimentos pessoais ou contratos, bem como cobrar ingressos para entrada nas instalações do templo ou vender a primeira vareta de incenso que é colocada no incensário (acredita-se que essa vareta traz boa sorte).

Os monges colaboram com o Partido

Décadas de distorção religiosa deixaram sua marca. O Partido permitiu a existência de organizações budistas e taoístas para manter a fachada de liberdade religiosa quando, na realidade, comandava os abades como fantoches.

Shi Yongxin, abade do templo Shaolin, é o exemplo mais conhecido. Ele ocupou vários cargos administrativos, incluindo a vice-presidência da Associação Budista da China, corpo liderado pelo PCC que supervisiona as atividades do budismo; e a presidência da divisão da província de Henan da mesma associação. Shaolin está localizado no condado de Dengfeng, província de Henan. O ex-líder do PCC, Jiang Zemin, também fez de Yongxin o representante da legislatura servil do Partido, o Congresso Nacional do Povo.

Shi Yongxin (centro) no concurso de TV Estrela do Kungfu Chinês, que teve lugar no Templo Shaolin em 9 de setembro de 2006 (China Photos/Getty Images)

Shi Yongxin (centro) no concurso de TV Estrela do Kung Fu Chinês, que teve lugar no Templo Shaolin em 9 de setembro de 2006 (China Photos/Getty Images)

De acordo com um especial de agosto de 2015 da publicação comercial chinesa Caixin, Shi tinha um relacionamento estreito com Jiang; com o chefe do Partido em Henan, Li Changchun; e com o presidente da associação Budista, Zhao Puchu. Foi sob as instruções de Zhao que Shi transformou o templo de Shaolin em um império dos negócios, diz o relatório.

Desde que o PCC tomou posse do Tibete, os lamas tibetanos budistas precisam ser reconhecidos e aprovados pelas autoridades centrais. Para serem aprovados, alguns mosteiros tibetanos recorrem ao suborno e buscam o favor de funcionários do PCC. O mais alto entre eles é Zhu Weiqun, que era chefe do Departamento de Trabalho da Frente Unida, e que recebeu a tarefa de lidar com os assuntos do Tibete.

O turismo acima de tudo

Enquanto isso, templos famosos foram apropriados por autoridades locais e agressivamente remodelados e promovidos a locais abertos à visitação pública. As quatro montanhas sagradas do budismo, Wutai, Emei, Jiuhua e Putuo, receberam infraestrutura e agora são atrações turísticas, o que foi feito por autoridades locais ou empresas estatais.

O Templo Xingjiao na cidade de Xi’an, província de Shaanxi, é famoso por conter os restos mortais do monge Xuanzang da Dinastia Tang. Sua viagem à Índia para pesquisar escrituras budistas inspirou o famoso romance “Jornada para o Oeste”. Quando as autoridades locais quiseram que o templo fosse reconhecido pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, eles propuseram que grandes partes do complexo fossem demolidas e substituídas por um edifício mais novo, de acordo com um informe do South China Morning Post.

Vista aérea do Templo Xingjiao na Província de Shaanxi, em 13 de abril de 2013 (STR/AFP/Getty Images)

Vista aérea do Templo Xingjiao na Província de Shaanxi, em 13 de abril de 2013 (STR/AFP/Getty Images)

Em alguns casos, os planos de turismo falharam. No templo Famen de 1.700 anos, também em Shaanxi, as autoridades construíram um parque ao redor. No entanto, a enorme dívida que contraíram as levou a contratar falsos monges para perambular pelo local e pedir doações aos visitantes.

No templo de Panlong em Yunnan, os monges ficaram tão cansados com a onda de turistas que fecharam as portas, deixando a seguinte mensagem para os visitantes: “Tendo em vista que o condado de Jinning e o município de Jincheng desejam fazer comércio e transformar o templo Panlong em uma empresa, perturbando assim a ordem do templo, decidimos fechar temporariamente as portas para manter um ambiente de meditação tranquilo.”

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Alguns templos estão completamente ocupados por autoridades da Administração do Patrimônio Cultural, que se apossam de artefatos preciosos. Até mesmo o departamento de turismo e florestas assumiu o controle das terras circundantes.

O comentarista de atualidades Li Linyi observa que muitas autoridades locais estão motivadas a ganhar pontos políticos e obter promoções contribuindo para o aumento do PIB (Produto Interno Bruto). O turismo é uma maneira fácil de alcançar esse objetivo.

Orações em troca de bênçãos

Por que locais de culto ficaram tão populares? Li observa que muitos chineses se voltaram para os grandes seres iluminados na esperança de ganhar fortuna e bençãos. No templo Nainai da Província de Hebei, empresários podem assinar contratos com o templo para construir uma estátua e um altar representando o deus que eles quiserem, seja um “deus de si mesmo”, “deus dos estudos” ou um “deus funcionário do governo” ”

O jornal Apple Daily, de Hong Kong, informou em uma nota em 24 de novembro que o ex-líder do PCC, Jiang Zemin, e seus subordinados, visitam com frequência a montanha de Jiuhua e o templo de Shaolin a fim de aliviar a culpa que sentem por serem tão corruptos.

Colaboraram: Zhang Ting, Xue Fei e Luo Ya

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