Colapso da credibilidade da China

Bandeiras do regime chinês são içadas na Praça Tiananmen em Pequim em 12 de setembro de 2004. (Frederic J. Brown/AFP/Getty Images)

Recentemente, a comunidade internacional tem manifestado sua desconfiança sobre a China numa variedade de perspectivas, tanto política como econômica. Mesmo negócios sujos entre empresários ocidentais e o governo chinês estão sendo expostos pela primeira vez desde meados da década de 1990. A credibilidade da China parece estar entrando em colapso.

A desconfiança política pode ser vista na reação da comunidade internacional pelo julgamento de Gu Kailai por homicídio. Uma vez que este era um caso de grande repercussão envolvendo a esposa de Bo Xilai, um poderoso político chinês recém-deposto do Partido Comunista, o mundo assistiu de perto. Como o governo chinês tratou este complexo e importante caso, desde o tratamento dos réus até o nível de informação divulgada, o desempenho do sistema judicial da China foi avaliado e julgado.

O que as pessoas viram foi um julgamento manipulado com um resultado predeterminado. Declarações contraditórias sobre a participação de um terceiro no assassinato, a química usada para matar o empresário britânico Neil Heywood e o motivo dos acusados pelo assassinato, levantaram suspeitas e deixaram muitas perguntas sem resposta.

Um artigo de 12 de agosto no The Telegraph, intitulado “Julgamento de assassinato de Neil Heywood: A ‘Rainha Vermelha’ da China caiu em sua espada para salvar sua família”, levantou questões mais graves.

“A encenação do julgamento, fechado para a imprensa estrangeira, mas aberto a alguns membros selecionados do público, foi ensaiada várias vezes, segundo uma fonte. Dois oficiais chineses inclusive vestiram trajes como os funcionários consulares britânicos que foram convidados a participar da audiência, permitindo que a Sra. Gu praticasse como reagir e se comportar enquanto estivesse sob escrutínio”, afirmou o artigo.

Céticos têm sugerido que o envenenamento de Heywood é um aviso sério para os investidores estrangeiros que fazem negócios com a China. O bom relacionamento com os representantes chineses, uma vez considerado fundamental para um negócio bem sucedido na China, está agora sujeito à desconfiança, intensificada pelo resultado deste caso.

Um artigo do New York Times de 14 de agosto sugere que investidores chineses podem encontrar maior escrutínio das autoridades chinesas e norte-americanas. Uma série de investigações levantou questões sobre a intersecção sombria e emaranhada entre política e negócios na China.

O artigo relatou que o FBI, o Departamento de Justiça e a Comissão de Câmbios e Títulos dos EUA estão investigando um possível suborno envolvendo o magnata dos casino Sheldon Adelson do Las Vegas Sands Corporation.

A Administração Estatal de Câmbio da China também começou uma investigação de algumas subsidiárias da Sands, acusadas de envolvimento na utilização de fundos para outros fins comerciais do que os relatados às autoridades.

Na verdade, essa situação é muito comum. As autoridades chinesas normalmente fecham os olhos para operações impróprias quando têm boas relações com o investidor estrangeiro. Documentos obtidos pelo jornal mostram que o Ministério do Comércio da China e os tribunais chineses congelaram contas bancárias da empresa e de secretários de algumas das subsidiárias da Sands.

Nos Jogos Olímpicos de Londres, os atletas chineses foram sujeitos a grande suspeita da mídia britânica. O jornal britânico Daily Telegraph publicou um comentário de Brendan O’Neill, “Por que nós britânicos olhamos para os atletas chineses como fraudes, malucos e robôs?” Ele discutiu as calúnias amplamente divulgadas sobre as realizações sobre-humanas da nadadora Ye Shiwen e como as jogadoras de badminton chinesas foram desclassificadas após tentarem perder propositalmente uma partida. O autor levantou questões sobre por que exatamente os britânicos veem os chineses como esquivos e fraudulentos que não entendem de jogo limpo.

O indicador mais revelador da perda de credibilidade nacional da China é a dúvida recente generalizada sobre os dados econômicos oficiais do país. Embora houvesse dúvidas no passado, elas não chegaram a um consenso entre os economistas.

Em 2010, um telegrama secreto da embaixada dos EUA em Pequim expostos pelo WikiLeaks revelou que em 12 de março de 2007, quando Li Keqiang, o secretário do Partido Comunista Chinês (PCC) da província de Liaoning, foi jantar na residência do embaixador dos EUA, ele revelou que os números do PIB da China são forjados e não confiáveis. Li Keqiang também disse as autoridades norte-americanas que, para avaliar a economia da província de Liaoning, ele se concentra em três números: o consumo de energia, o volume de carga ferroviária e o volume de empréstimos feitos. Apesar desta declaração reveladora, muitos economistas estrangeiros preferiram ignorar esta mensagem. Agora, as suspeitas se tornaram dominantes.

Em 22 de junho, o NY Times relatou que os governos locais chineses exigiram que as usinas locais relatassem números de consumo de energia falsos, para não denunciarem a extensão da desaceleração a Pequim.

Um artigo de 25 de julho amplamente difundido no Also Sprach Analyst, um website econômico e financeiro de Hong Kong, disse, “Temos algumas razões sobre por que você deve simplesmente parar de acreditar na liderança chinesa quando se trata de gestão econômica.”

Um documentário “Morte pela China”, que estreou em Los Angeles em 15 de agosto, destaca a intensidade ameaça que alguns norte-americanos sentem sobre a China.

Produzido por Peter Navarro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Califórnia, Irvine, o filme de 80 minutos de duração apresenta entrevistas com políticos norte-americanos e outras vozes de todo o espectro político, destacando a relação comercial destrutiva EUA-China sobre os empregos nos EUA. O filme expõe o desrespeito das autoridades chinesas pelos direitos humanos, o sistema chinês de trabalho forçado e os perigos para os consumidores norte-americanos a respeito dos alimentos tóxicos e mercadorias importados da China. O filme agora está sendo exibido em Nova York até 30 de agosto, antes de ir para uma série de exibições em Ohio.

Ao longo dos anos, slogans populares sobre a China mudaram de “Febre Chinesa” em 2001 para a altamente elogiada “Ascensão Pacífica” em 2005, além da previsão de Joshua Ramo de que o “consenso de Pequim substituirá o consenso de Washington”. Hoje, a credibilidade nacional da China é suspeita por observadores externos nas áreas da política, economia e ética. Quem é o culpado por fazer a credibilidade nacional da China chegar a este ponto tão baixo?

Acredito que se deva culpar o governo chinês, incluindo os políticos e empresários que representam a China e lidam com países estrangeiros.

Da década de 1990 até 2009, a atitude dominante dos países ocidentais era uma vontade de confiar na China; muitos países, incluindo a França, estavam dispostos a acreditar e esperar por uma China forte, a fim de conter os Estados Unidos.

Durante esse tempo, apenas alguns observadores expressaram suspeita sobre a China. A primeira vez parece ter sido em fevereiro de 2001, num artigo publicado no Far Eastern Economic Review. O artigo, “República Popular da Fraude”, descreve como a China se tornou a República Popular da Fraude.

O professor Carsten A. Holz da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong publicou um artigo, “Acadêmicos chineses foram comprados?”, no Far Eastern Economic Review em 2007. O artigo analisou a situação dos acadêmicos chineses e discutiu como muitos deles obtiveram oportunidades de pesquisa e acesso à informação como resultado de agradarem ao governo chinês.

“Acadêmicos que estudam a China, incluindo o autor, habitualmente satisfazem o Partido Comunista Chinês, às vezes conscientemente, e muitas vezes inconscientemente”, disse Holz. “Nossos incentivos são nos conformarmos e nós fazemos isso de várias maneiras: por meio das questões investigativas que fazemos ou não, pelos fatos que relatamos ou ignoramos, por nosso uso da linguagem e pelo que e como ensinamos.” Holz citou uma longa lista de fatos, que tocou as mazelas de seus pares, provocando uma recepção fria para o artigo.

O presidente norte-americano Abraham Lincoln tem uma famosa citação, “É verdade que você pode enganar todas as pessoas por algum tempo, você pode até enganar algumas pessoas todo o tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas todo o tempo.”

A credibilidade de Pequim agora é questionada por todo o mundo. A situação mostra que a utilização generalizada de mentiras e boatos levará à morte política.

He Qinglian é uma proeminente autora chinesa e economista. Atualmente baseada nos EUA, ela escreveu “China’s Pitfalls”, que diz respeito à corrupção na reforma econômica da China na década de 1990, e “The Fog of Censorship: Media Control in China”, que aborda a manipulação e restrição da imprensa. Ela escreve regularmente sobre questões sociais e econômicas da China contemporânea.

 
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