Clima e poluição são uma combinação mortal em Pequim

O tráfego e as emissões industriais são amplamente responsáveis pela grave neblina urbana na China, mas o clima também pode tornar a poluição do ar muito pior.

Num novo estudo publicado na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences“, pesquisadores coletaram numerosas amostras do ar de Pequim, a capital da China e uma das áreas mais poluídas do mundo.

A cidade está tomada por uma grande quantidade de partículas finas (chamadas PM) na atmosfera que, eventualmente, resulta em problemas ambientais e de saúde, mas também em condições que afetam o clima.

Os padrões climáticos e as emissões do tráfego, indústrias e processos químicos decorrentes envolvendo aerossol se combinam para produzir condições extremamente poluentes, formando uma camada de névoa espessa que cobre a cidade por alguns dias.

“Percebemos em nosso estudo que as condições em Pequim são propensas à formação de PM, por causa de gases condensáveis extremamente abundantes”, diz Renyi Zhang, professor-emérito de ciências atmosféricas na Texas A&M University.

“As emissões de compostos orgânicos voláteis, como óxido de nitrogênio [proveniente] dos transportes urbanos, e dióxido de enxofre provocam a nucleação do aerossol proveniente da indústria regional e a acumulação continuada ao longo de vários dias, levando a um volume de partículas que excede em várias centenas de microgramas por metro cúbico”, diz ele.

Esse efetivo processo de formação de aerossóis é distinto do que ocorre em muitos outros centros urbanos em todo o mundo, embora a composição química dos aerossóis em Pequim seja normal.

Mortes prematuras

Os problemas poluição da China tem seu início três décadas, quando o país começou sua rápida modernização.

Das 20 cidades mais poluídas do mundo, a China é o lar de dezesseis delas. Pequim frequentemente excede em muitas vezes o padrão atmosférico aceitável estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA.

Às vezes, a poluição em Pequim pode ser tão intensa que a visibilidade é inferior a 15 metros e os limites para um ar de qualidade são superados em até quarenta vezes os níveis aceitáveis estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde, diz Zhang.

Um estudo, realizado pelo governo chinês em 2010, mostrou que a poluição contribuiu para 1,2 milhão de mortes prematuras no país e que provavelmente mais de 500 milhões de chineses terão suas vidas encurtadas por pelo menos cinco anos devido à má qualidade do ar.

(Shutterstock*)
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A meteorologia é um fator crítico para estabelecer o quão grave e densa é a neblina, diz Zhang. “Descobrimos que os episódios de PM em Pequim ocorrem num ciclo periódico, que é em grande parte impulsionado pelas variações do vento.”

“Quando o vento se desloca a partir do Sul, o problema começa, uma vez que a maioria das fábricas e usinas de energia está localizada na região sul. Em condições reativamente estagnadas os gases poluentes provenientes do tráfego da cidade e da indústria circundante reagem no ar, produzindo localmente uma grande quantidade de PM.”

O problema da neblina e da poluição parece ser mais intenso no outono, primavera e meses de inverno, já que no verão chove mais e isso tende a limpar o ar por ‘lavar’ as partículas da atmosfera.

O que a China deve fazer?

“A poluição em Pequim é similar a outras cidades urbanas na China”, diz Zhang. “Coletivamente, essas áreas urbanas, além de instalações regionais industriais, atividades agrícolas e emissões biogênicas, constituem as principais fontes de poluição em larga escala em toda a China, cobrindo milhares de quilômetros quadrados e com duração de vários dias.”

Enfrentando críticas crescentes do mundo e de seu próprio povo, o governo chinês prometeu melhorar a qualidade do ar, mas impor os controles estritos necessários sobre as muitas fábricas e usinas de energia e reduzir as emissões de automóveis não é tarefa fácil diante da expansão da economia chinesa nos últimos 25 anos.

“Nosso estudo sugere que os controles regulamentares direcionados às emissões precursoras de PM, proveniente da indústria regional e dos transportes, são necessários para reduzir a poluição urbana na China”, assinala Zhang.

“A formação de severa neblina urbana na China é atribuível às elevadas taxas de poluição combinadas a baixos padrões de qualidade para emissões de poluentes atmosféricos que estão, em última instância, associados ao rápido crescimento econômico, a rápida urbanização e uma população imensa.”

“Melhorar a qualidade do ar no país provavelmente terá consequências profundas na China ou mesmo na economia mundial.”

A pesquisa e Zhang foi fundada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia da China em colaboração com um programa de pesquisa conjunta da Texas A&M University, da Fundação Nacional de Ciências Naturais da China e da Fundação Robert A. Welch.

Fonte: Texas A&M University, republicado a partir da Futurity.org sob Creative Commons License 3.0.

*Imagens de “poluição” e “ciclista chinesa” via Shutterstock

 
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