Ciberespionagem e aquisições da China preocupam Canadá, diz ex-ministro da defesa

Quando se trata do relacionamento do Canadá com Pequim, a segurança nacional deve ser de extrema preocupação, alerta o ex-ministro da defesa, Peter MacKay.

“Não me sinto confortável de muitas maneiras em ter os chineses cada vez mais integrados ao nosso sistema tecnológico”, disse MacKay, que serviu como ministro da justiça, ministro da defesa e ministro das relações exteriores durante o governo conservador de Stephen Harper.

“Em particular, o fato de termos ampla evidência de suas atividades de ciberespionagem, incluindo em infraestruturas críticas, bancos e departamentos governamentais, temos que ser muito francos e diretos sobre a proteção de nossos interesses”, afirmou.

“Não quero dizer que não possamos fazer negócios com eles, mas esperamos que eles joguem pelas regras e joguem justo.”

As palavras de advertência de MacKay vem logo após o primeiro-ministro Justin Trudeau concluir uma missão comercial de cinco dias à China, que acabou se tornando uma viagem anual para estreitar os laços bilaterais entre os dois países.

De acordo com um relatório recente da Segurança Pública do Canadá, houve mais de 2.500 ciberataques patrocinados por Estados estrangeiros entre 2013 e 2015 contra as redes eletrônicas do governo canadense. O relatório não nomeou qualquer país específico; no entanto, a China está entre os países mais ativos no mundo na realização de ciberataques, incluindo o destacado ciberataque patrocinado pelo regime chinês aos sistemas informáticos do Conselho Nacional de Pesquisa do Canadá em 2014.

Livre-comércio

MacKay adverte sobre certa “imprudência” na busca do livre-comércio com a China, particularmente dado que o regime não opera segundo as mesmas regras que o Canadá.

“Particularmente tendo em conta o que está em jogo na perda do controle sobre coisas como nossos recursos naturais, os principais impulsionadores econômicos do nosso país”, disse ele.

Ottawa e Pequim estão buscando um acordo de livre-comércio desde que o governo liberal assumiu o poder. No entanto, os dois lados não chegaram a um acordo para iniciar negociações formais de livre-comércio durante a viagem de Trudeau pela China e disseram que continuarão as conversas exploratórias.

MacKay disse que há muitas preocupações num acordo de livre-comércio entre um país democrático como o Canadá e um Estado comunista como a China.

Leia também:
• Inteligência alemã adverte sobre crescente ciberespionagem da China
• Canadá é um alvo-chave para China, diz ex-funcionário da inteligência canadense

“[A China] não é um país democrático, não é um país que necessariamente compartilha nossos valores, certamente não é um país que tenha qualquer semblante de direitos humanos, estado de direito ou economia de mercado”, afirmou.

“Eles não querem se preocupar com os padrões trabalhistas ou compartilhar os lucros; há uma visão completamente diferente da economia num país comunista em relação a um país democrático como o Canadá, então você deve prosseguir com extrema cautela.”

Além disso, disse ele, tal acordo poderia prejudicar os esforços do Canadá nas renegociações do NAFTA com os Estados Unidos e México.

“Não podemos nos distrair no que diz respeito a garantir que o NAFTA sobreviva e permaneça intacto”, disse ele.

Os ex-colegas de gabinete de MacKay no governo conservador anterior, James Moore e Rona Ambrose, que fazem parte do painel consultivo do NAFTA sob a administração Trudeau, expressaram preocupações semelhantes.

Aquisições

O embaixador da China no Canadá, Lu Shaye, deixou claro que Pequim não quer que os direitos humanos façam parte ou interfiram das negociações comerciais com o Canadá. Além disso, ele disse que as empresas estatais chinesas deveriam ter acesso irrestrito à economia canadense, afirmando que a China consideraria como protecionismo qualquer tentativa de impedir que suas empresas estatais possam adquirir empresas canadenses por motivos de segurança nacional.

No início deste ano, quando o governo federal aprovou a aquisição da empresa de comunicações por satélite Norsat International Inc., com sede na cidade de Vancouver, sem exigir uma revisão abrangente de segurança, isso provocou críticas pesadas dos círculos de inteligência e segurança, incluindo da Comissão de Revisão de Economia e Segurança EUA-China, um órgão do Congresso dos Estados Unidos. A Norsat produz equipamentos e sistemas de rádio utilizados pelos militares estadunidenses e outros parceiros canadenses na OTAN.

Antes disso, a aprovação do governo para a aquisição por uma companhia de Hong Kong da ITF Technologies, uma empresa de tecnologia laser baseada em Montreal, gerou críticas semelhantes, especialmente porque o governo conservador anterior bloqueou a venda citando preocupações de segurança.

“Eu acho isso muito preocupante”, disse MacKay.

“O pano de fundo de tudo isso é que os chineses são ciberhackers compulsivos dentro da economia canadense e, por isso, entregar o controle de uma importante empresa de tecnologia, eu acho isso preocupante quando eles não fazem uma verificação de segurança detalhada, quando eles não fazem uma análise rigorosa conforme exigido por uma boa razão; e isso é para proteger o interesse do Canadá”, observou.

“O Politburo [do Partido Comunista Chinês] não tem o mesmo interesse em proteger os valores e a prosperidade canadenses que o governo do Canadá tem.”

Leia também:
• Hackers comprometem sistema bancário mundial
• Hackers patrocinados por governo chinês abrem negócios na Darknet
• Como ciberpirataria e espionagem sustentam crescimento da China

MacKay disse que também está preocupado com a aquisição proposta da gigante canadense de construção Aecon pela empresa estatal chinesa CCC International Holding Ltd.

No final da semana passada, após a viagem de Trudeau pela China, a Aecon anunciou que a venda proposta obteve aprovação regulamentar nos termos da Lei Canadense de Concorrência. No entanto, isso ainda precisa ser submetido a uma revisão nos termos da Lei de Investimento do Canadá, invocada quando grandes investimentos estrangeiros no Canadá estão envolvidos.

MacKay disse que se a empresa estatal chinesa adquirisse uma grande empresa de construção canadense, o governo chinês poderia efetivamente abocanhar grandes projetos de construção que são financiados pelos contribuintes, especialmente agora que o governo está lançando um programa substancial de atualização da infraestrutura.

“Eles estariam concorrendo por contratos para essas construções maciças de infraestrutura que foram propostas pelo governo. Isso significa que as empresas canadenses estarão agora perdendo contratos para uma grande empresa de construção estatal chinesa?”

Além disso, uma estatal chinesa é mais provável que use aço e outros materiais que são importados de outras empresas estatais chinesas para o Canadá. Isso seria uma ameaça real para a indústria siderúrgica do Canadá, uma vez que a China é notória pelo dumping de aço no Canadá, vendendo o produto a um preço inferior ao valor de mercado para repelir e quebrar a concorrência local.

Numa decisão controversa, o governo conservador anterior aprovou a venda da gigante de petróleo e gás Nexen para a estatal chinesa CNOOC em 2012.

MacKay disse que o grupo conservador estava “sempre muito desconfortável” com a venda, acrescentando que havia mais concorrência nesse setor, o que tornaria o caso da Aecon um pouco diferente.

“Posso dizer-lhes que isso passou por uma análise muito rigorosa, mas não foi sem controvérsia ou desentendimento no nosso próprio governo”, diz ele.

Ao anunciar a aprovação da aquisição da Nexen, bem como a aquisição da Progress Energy pela Petronas da Malásia em 2012, o primeiro-ministro Harper disse que, no futuro, quaisquer aquisições similares só seriam permitidas em “circunstâncias excepcionais”.

“Quando dizemos que o Canadá está aberto para negócios, não queremos dizer que o Canadá está à venda para governos estrangeiros”, disse Harper.

Estado de direito, direitos humanos

MacKay citou preocupações sobre o respeito pelo estado de direito e os direitos humanos como um aspecto importante ao se considerar negócios com a China.

“O estado de direito é muito importante não só em disputas contratuais, mas também é muito importante quando se trata de dar uma resposta completa em defesa”, afirmou.

“Eu sou muito cauteloso sobre a maneira como a China trata não só os seus cidadãos mas aqueles que visitam seu país.”

Existem atualmente vários canadenses detidos na China. Eles incluem Sun Qian, uma residente de Vancouver e fundadora de uma empresa de bilhões de dólares que foi detida por praticar o Falun Dafa, uma disciplina espiritual que é perseguida pelo regime chinês; o dissidente uigur Huseyin Celil; e John Chang, um proprietário de adega na Columbia Britânica que foi preso junto com sua esposa Allison Lu por uma questão de disputa aduaneira. Allison Lu foi liberada mais tarde, mas continua proibida de deixar a China.

Enquanto na China, Trudeau disse que abordou com a liderança chinesa questões de direitos humanos e casos consulares específicos envolvendo cidadãos canadenses detidos. Até agora, nenhum canadenses foi liberado.

“Você também precisa ter honestidade no relacionamento. Você deve falar sobre questões sensíveis como os direitos humanos e ser capaz de resolver esses casos consulares”, disse MacKay.

O Canadá deve ser muito cauteloso em seu relacionamento com Pequim, acrescentou MacKay.

“E mover-se num ritmo que garanta que os direitos e interesses dos canadenses sejam protegidos.”

 
Matérias Relacionadas