China: quando a política não passa de uma caricatura

Entre outras coisas que faz com que, na China, política e caricatura andem tão fortemente unidas, pode-se indagar por que muitas das instituições do Estado chinês dizem pertencer “ao povo”, enquanto o povo chinês de fato não tem quase nenhuma abertura para fazer sugestões ou críticas.

Piada da semana

Certa vez, fui a um restaurante de massas e pedi uma sopa de carne com macarrão. Entretanto, não havia nenhum pedaço de carne na sopa. Irritado, eu perguntei ao dono do restaurante: “Por que não há nenhum pedaço de carne nesta sopa de carne com macarrão?” Foi então que o dono respondeu: “Convenhamos, você já viu algum ‘povo’ no Grande Salão do Povo [Edifício parlamentar da China Comunista]?” – Zhouyw

A palavra “povo” (“人民” em Chinês), aqui, refere-se às “pessoas comuns” como contrapostas aos oficiais do governo ou outros “delegados do povo” que conspiram com aqueles no poder para benefício próprio. Apesar de ser ditatorial, o Partido Comunista Chinês nomeia suas instituições de governo com o atributo de “Do Povo”, incluindo o legislativo figurativo, as cortes, polícia, hospitais e numerosas outras agências. Essa profunda ironia é observada pelo (verdadeiro) povo chinês.

O senhor Wang, uma vez, partiu em uma longa viagem de fim de semana. Por conta da preocupação de que sua casa pudesse ser roubada, antes da partida ele deixou na mesa de jantar uma nota de 100 yuan. E, juntamente, uma nota que dizia: “Caro Sr. Ladrão, por favor, aceite este dinheiro. Você não precisa perder tempo procurando minha casa, uma vez que não há quase nada valioso. Por outro lado, o meu vizinho é um oficial do Ministério das Ferrovias. Deve haver um monte de dinheiro escondido em sua casa, e além do mais, ele não pode chamar a polícia, pois o dinheiro é roubado. Atenciosamente”. Uma semana depois, Wang voltou e descobriu que o dinheiro que ele deixou sobre a mesa havia crescido para 200 mil yuan. Na parte de trás de sua nota, foram encontradas as seguintes palavras: “Por favor, aceite gentilmente esta taxa pela consultoria, Atenciosamente.” – Creaders

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Melhor do Weibo

MyDF: “A política da China é muito parecida com o entretenimento, e a indústria do entretenimento parece muito com a política”. – Qiwen Lu

ResetTor: “Uma das coisas mais ridículas sobre a China é o seguinte fato: Dos funcionários do Partido para as pessoas comuns, quase todo mundo escolhe emigrar [para Taiwan] se for dada a oportunidade. Enquanto isso, eles gostam de impor ao resto do mundo o que eles pensam, e às vezes até forçar os outros a admitir que ‘eles [os taiwaneses] são chineses’. Tal comportamento nacionalista é simplesmente absurdo para qualquer outro país no mundo. ‘Eu posso emigrar, se eu quiser, mas você tem que dizer que você é chinês [da China comunista]’. Tal é comunismo nacionalista da China” – Botanwang

@ Szeyan1220: “As fotos no topo são os políticos de Taiwan; as fotos em baixo são cidadãos chineses. Isto mostra claramente a diferença entre ter o direito de votar ou não. O artista chinês Wu Yuren disse: ‘Aqueles que têm o direito de votar fazem o poder se curvar a eles, enquanto que aqueles sem o direito de voto são os primeiros a se ajoelhar’.” – Aboluo

Xangai invictus

O governo de Xangai foi alvo de mais de 200 processos jurídicos e, incrivelmente, não perdeu um único deles, de acordo com a mídia da China continental – report

O relatório oficial foi feito com o tom de exaltar melhorias no “Estado de direito” chinês. O número de ações movidas por pessoas contra o governo teria crescido de apenas 14 em 2014, para 242 em 2015. O artigo também citou um juiz que afirmou que “o governo de Xangai fez um bom trabalho na regulação de seus atos administrativos”.

No entanto, muitos usuários de internet chineses se esforçaram para discordar de um modo mais firme. Um comentário com a melhor nota no Weibo disse: “Você está contando a história como se houvesse justiça e direito na China.” Outro comentário no Sina Weibo disse: “Qual é a mensagem escondida aqui? Você está tentando dizer que o governo de Xangai fez um trabalho muito bom no ano passado, ou melhor, avisar as pessoas de que não adianta processar o governo porque nunca se vai ganhar dele?”

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Debate na China sobre a história de Obama-Biden

Em uma entrevista à CNN, o vice-presidente dos EUA, Biden, contou uma história sobre como o presidente Obama o impediu de vender sua casa para ajudar seu filho, Beau, que teve que parar de trabalhar para receber o tratamento de um câncer. O presidente prometeu oferecer qualquer ajuda financeira necessária.

A história foi originalmente concebida para descrever a relação pessoal que se desenvolveu entre os dois homens, mas os usuários de Internet chineses viram nela algo diferente.

O relatório traduzido em ifeng.com, site com base em Hong Kong, tornou-se um tema quente, atraindo mais de 3.600 comentários. A grande maioria deles não tinha nada a ver com a amizade entre os dois líderes nacionais – em vez disso, foi sobre por que o vice-presidente dos Estados Unidos teve que vender sua casa para apoiar seu filho. Muitos chineses consideravam a ideia como “impensável”, mesmo para um funcionário governamental de baixo nível na China.

O debate foi por vezes intenso. Uma linha de comentário expressou escárnio contra os Estados Unidos, com comentários do tipo: “Se o vice-presidente do paraíso tem que vender sua casa para salvar seu filho, então o que isso difere do inferno?” A expressão “paraíso” e “inferno” referem-se aos Estados Unidos e à China neste contexto.

Em resposta, outro usuário disse: “A diferença é que o vice-presidente no inferno nunca precisaria vender sua casa – ele tem mil maneiras de usar do seu poder.” Outro comentário observou: “Na China, o vice-presidente se sentiria incomodado apenas com o fato de ter tantas casas e não saber qual delas vender!”

 
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