China deve se preparar melhor para crianças de “rodas de enjeitados”

A informação de que um centro para abandono de bebê (conhecido como ‘roda de enjeitados’) na cidade de Guangzhou foi fechado temporariamente porque a equipe não podia cuidar do grande número de crianças que estão sendo deixadas lá provocou preocupação considerável na comunidade de bem-estar da cidade. De acordo com Xu Jiu, o diretor de um dos centros de bem-estar da cidade, 262 bebês foram abandonados desde que o centro foi aberto em 28 de janeiro. Desde 2011, cerca de 25 desses centros foram criados no continente em 10 províncias da China.

Centros de ‘roda de enjeitados’ são lugares onde as pessoas (em geral mães) podem trazer seus filhos, geralmente recém-nascidos, e deixá-los anonimamente num lugar seguro para serem cuidados. Estes centros têm existido de uma forma ou de outra por muitos séculos. Em 1198, as primeiras ‘rodas de enjeitados’ foram usadas na Itália. O nome refere-se ao fato de que as mães colocavam a criança num cilindro, que era girado de modo que o bebê entrasse numa igreja, enquanto a mãe tocava um sino para alertar os cuidadores.

Embora ‘rodas de enjeitados’ deixaram de ser usadas no final do século XIX, uma forma moderna da ‘roda de enjeitados’ (chamado de “caixa de bebês” na República Checa ou “janela da vida” na Polônia) foi introduzida novamente em 1952. Na sua forma moderna, ela é usada em muitos países, como na Alemanha, onde há cerca de 100 desses centros, e no Paquistão, onde há mais de 300 em uso hoje.

No passado, os bebês eram abandonados principalmente porque nasceram fora do casamento. Hoje, rodas de bebês são usadas por mães incapazes de cuidar de seus filhos, porque não querem divulgar sua identidade ou porque a criança está doente. Na Índia e Paquistão, elas são usadas para fornecer uma alternativa para o infanticídio feminino.

Alguns especialistas acreditam que o número desses lugares, conhecidos oficialmente na China como “ilhas de segurança para bebês”, aumentarão dramaticamente no futuro. Hoje, quase o mesmo número de meninas e meninos é deixado nesses locais. A criação desses centros tem provocado preocupação, porque muitas pessoas acreditam que isso incentivará mais pais a abandonarem suas crianças, uma noção contestada por pessoas como Fuxian Yi, um especialista em população da Universidade de Wisconsin–Madison.

Em alguns casos, crianças abandonadas têm graves defeitos congênitos, e os pais não são capazes de cuidar deles por causa dos altos custos envolvidos. Estima-se que pelo menos 900 mil crianças nasçam anualmente com alguma anomalia congênita na China. De acordo com funcionários do governo, rodas de enjeitados são necessárias porque muitas das crianças abandonadas têm deficiências que necessitam de atenção médica imediata.

Embora a China tenha um sistema de monitoramento de defeito de nascença desde 1986, e tenha programas de cuidado pré-natal, exames e triagem neonatal de doença, eles não são universalmente utilizados em todo o país. Ao mesmo tempo, exames pré-nupciais obrigatórios foram eliminados e, como resultado, caíram de 80% em 2008 para 41% em 2011, mesmo que sejam oferecidos gratuitamente em muitos casos. Como resultado, muitos casais tomam menos precauções contra a possibilidade de ter bebês com defeitos congênitos.

Embora não seja possível eliminar totalmente a possibilidade de ter filhos com defeitos congênitos já que muitos deles são devido a causas genéticas, as mulheres podem tomar uma série de precauções para diminuir a chance de isso ocorrer. As mulheres podem aumentar suas chances de ter bebês saudáveis por meio da adopção de comportamentos saudáveis e gerenciar as condições de saúde antes de engravidar.

Por exemplo, sabe-se que se uma mulher tem ácido fólico suficiente, o que é uma vitamina B, em seu corpo pelo menos um mês antes e durante a gravidez, isso pode ajudar a prevenir defeitos congênitos graves no bebê. As mulheres também devem evitar álcool em qualquer momento durante a gravidez, já que o álcool passa para o bebê através do cordão umbilical.

Mulheres grávidas também devem parar de fumar e evitar o uso de drogas “de rua”, e comunicar seus médicos sobre qualquer medicação que estejam tomando. Além disso, mulheres grávidas também devem evitar infecções, manter um peso saudável, manter o diabetes sob controle e ter todas as vacinas necessárias.

Para alguns especialistas, o número de crianças abandonadas na China é o resultado de deficiências no sistema de bem-estar social do país, especialmente para crianças que nascem com doenças ou deficiências. A este respeito, eles insistem que é importante o país ter um sistema de bem-estar unificado adequado e responsivo às necessidades da população.

Para aliviar o fardo das famílias, também deveria haver um programa nacional de seguro para todos os defeitos de nascimento e condições hereditárias. Esta política também diminuirá o número de mães que abandonam seus filhos, porque elas não podem arcar com os altos custos do tratamento médico.

Além disso, o governo poderia considerar relaxar os termos para adopção de crianças, especialmente aqueles que são portadores de deficiência. Ao adotar um conjunto de medidas de amplo alcance, o governo poderia lidar melhor com o que pode rapidamente se tornar um problema sério em relação a crianças abandonadas.

Dr. César Chelala, PhD, tem realizado missões de saúde em mais de 50 países do mundo e é recebeu o prêmio ‘Overseas Press Club of America’

 
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