China anuncia plano de liberalização bancária

Reguladores na China deram mais detalhes nesta terça-feira sobre como pretendem liberalizar o sistema bancário. O setor privado criará bancos independentes e a taxa limite sobre depósitos poderia ser levantada dentro de dois anos.

Os bancos privados planejados, parte dos amplos planos de reforma anunciados no ano passado, operariam de forma independente e de acordo com os princípios de mercado, disse Shang Fulin, presidente da Comissão Regulatória Bancária da China. Ele não deu um calendário para quando abririam ou detalhes do tamanho pretendido.

Defensores da reforma reclamam que bancos estatais seguram a economia, emprestando principalmente para a indústria estatal, ao invés de empreendedores que criam novos empregos e riqueza. Os juros pagos sobre a poupança são baixos, efetivamente forçando o contribuinte chinês a subsidiar os mutuários politicamente favorecidos.

“As taxas de juros extremamente baixas tornaram tudo isso possível. As empresas estatais, que precisam de uma grande quantidade de dinheiro, podem emprestar tanto quanto querem por baixo custo. Aqueles que economizam –famílias e trabalhadores – estão efetivamente subsidiando estas operações por meio de seus depósitos bancários, porque eles têm poucas opções onde colocar seu dinheiro”, disse o economista Tianlun Jian ao Epoch Times.

O primeiro-ministro chinês Li Keqiang, a principal autoridade econômica do país, prometeu nesta semana dar às forças de mercado um “papel decisivo” na alocação de crédito e outros recursos na esperança de fomentar um crescimento mais sustentável no longo prazo.

Jian disse que os consumidores investem principalmente no setor imobiliário para obter algum rendimento e que isso não é sustentável: “Eles têm outro lugar: o mercado imobiliário. Para a maioria das pessoas, o investimento em imóveis é o único lugar que pode obter uma taxa razoável de retorno sobre seu dinheiro que é superior a inflação de preços ao consumidor. Como resultado, o investimento maciço em habitação criou uma bolha enorme.”

O investimento em imóveis representou 13% do produto interno bruto (PIB) da China em 2011, enquanto a receita de venda de terras responde por 30-50% das receitas dos governos locais.

Novos bancos

Os novos bancos privados devem oferecer taxas mais elevadas para os depositantes, segundo os princípios de mercado. Cada novo banco deve ter pelo menos dois investidores privados, Shang disse numa coletiva de imprensa realizada durante a reunião anual do órgão legislativo da China. Ele disse que o trabalho preparatório ainda estava em andamento.

Dois dos investidores bancários são o Grupo Alibaba, uma das maiores empresas de comércio eletrônico do mundo, e o Tencent Holdings Ltd., o provedor de jogos online mais popular da China. Ambos lançaram serviços financeiros online que têm desviado depósitos que normalmente iriam para os bancos e pagando juros mais altos.

Além do Alibaba e Tencent, o jornal estatal chinês Diário do Povo disse que as 10 empresas envolvidas incluem o Grupo Wanxiang, um fabricante de autopeças; o Grupo Fosun, um conglomerado que é dono da empresa de turismo francesa Club Med; e o Grupo Huabei, um promotor imobiliário.

As novas instituições deverão se concentrar em empréstimos para empresas de pequeno e médio porte, disse Shang, usando o termo do Partido Comunista Chinês para as empresas privadas. Ele disse que eles serão obrigados a ter um “testamento”, ou planos para encerrar um banco falido, para evitar que o fardo recaia sobre os contribuintes.

Os primeiros bancos serão localizados em Shanghai e na cidade de Tianjin, a leste de Pequim, e nas províncias do sudeste de Guangdong e Zhejiang.

Sistema bancário colateral

A falta de concessão de empréstimos dos bancos estatais a empresários privados tem alimentado o crescimento de um mercado clandestino de altas taxas de juros. Reguladores bancários chineses permitiram este mercado a fim de apoiar empresas privadas, mas mais recentemente têm tentado aumentar o controle sobre ele depois que descobriram que empresas e bancos estatais estavam envolvidos, expondo-se a perdas potenciais.

“Um grande problema do setor bancário da China é que os bancos estatais concedem a maioria de seus empréstimos a empresas estatais. É muito difícil para pequenas e micro empresas privadas obter um empréstimo”, disse Shen Jianguang, da Mizuho Securities, ao New York Times.

Em julho, os reguladores desmontarão os controles sobre as taxas de empréstimos. Isso permitirá que os mutuários com fortes registros de crédito negociem empréstimos mais baratos, reduzindo seus custos e estimulando o crescimento econômico.

Também na terça-feira, o diretor do banco central disse que Pequim provavelmente facilitará os controles sobre as taxas de juro pagas sobre poupança dentro de dois anos. Isso permitiria aos bancos competirem por depósitos e colocaria mais dinheiro nos bolsos das famílias chinesas.

“Sobre a liberalização das taxas de depósito, este deve ser o último passo na mercantilização da taxa de juros”, disse Zhou Xiaochuan. “Eu, pessoalmente, acredito que é muito possível realizar isso dentro de um a dois anos.”

No entanto, ainda não se sabe se esta iniciativa terá sucesso. Taxas mais elevadas para os depositantes deve significar maiores taxas de empréstimos – ou perdas para os bancos. Ambas as alternativas precisam ser evitadas para mais reformas ocorrerem.

O setor empresarial chinês, endividado e sem dinheiro, não pode pagar taxas mais elevadas sobre os empréstimos. E o regime chinês não pode se dar ao luxo de socorrer seus bancos estatais.

 
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