China na América Latina: modelo parasita de expansão econômica

Um renomado professor da Universidade Politécnica de Madrid, o Dr. Julian Pavon, descreve a China como “o mais importante evento político e econômico do século”, e ilustra um modelo simples de desenvolvimento ambicioso deste país chamando-o de “parasita”.

Este modelo é o que vem sendo utilizado pelo gigante asiático em um esforço para expandir sua influência política, econômica e cultural em uma escala global, mantendo os preciosos recursos naturais do país escolhido, na necessidade de se obter moeda fresca, como no caso da Argentina por exemplo – tendo suas negociações facilitadas por governos que possuem afinidades com os interesses da China.

Este é um modelo que se expande com “discrição e feições amigáveis”, diz o professor. “Tenha em mente que o poder desta economia emana de uma ditadura do proletariado e não garante a liberdade de seus cidadãos”, acrescenta Pavon.

(http://ennuestrotiempo.blogspot.com.ar)
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O modelo consiste em 3 etapas ou elementos (conforme mostrado na figura):

  • Na China, empresas chinesas são criada para empregarem chineses com o objetivo de venderem produtos chineses fabricados por chineses;
  • As receitas das vendas dos produtos das empresas chinesas no exterior são incorporadas pelos bancos chineses, que transferem o dinheiro para a China, desta forma eles vão abastecendo suas divisas através de significantes reservas (US $ 3 trilhões atuamente);
  • Devido ao fato de possuir recursos suficientes acumulados em reservas, a China tem capacidade mais do que suficiente para comprar empresas estrangeiras que controlam matérias-primas estratégicas na América Latina e África.

“A China, sendo um país ateu, comunista, marxista, maoísta, com uma ditadura do proletariado, com um Partido Comunista que nem sequer fornece acesso à internet para os seus cidadãos, onde a defesa de gênero ou direito humano é inexistente, está parasitando o mercado das economias capitalistas do mundo ocidental com suas próprias armas”, disse o empresário e vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria da província de Salta, José Cornejo Solá.

O caso argentino

No intuito de elevar seu status de relacionamento com a China através de uma “abrangente parceria estratégica”, a Argentina fechou trinta dos acordos que foram assinados entre as partes, gerando preocupação entre os vários setores de opinião.

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“É impossível saber o conteúdo e o significado estrito desta associação porque o conteúdo do acordo não está disponível”, disse o diretor do Instituto para a Integração da América Latina,  Ricardo Carciofi, de acordo com o site Alquimias Econômicas.

A relação assimétrica com a China tem se tornado cada vez mais evidente nos últimos anos gerando um profundo desequilíbrio no comércio bilateral em favor da China. Embora a balança comercial tenha registrado um excedente para a Argentina até 2008, as importações da China cresceram mais de 140% nos últimos 5 anos e a maioria são compostas de produtos manufaturados.

Os dados de setembro de 2015, da Câmara de Exportadores da Argentina (CERA), revela este desequilíbrio. Produtos primários ou de origem agropecuária abrangem 83% do que a Argentina exporta para a China, enquanto o que se importa do gigante asiático comporta quase que inteiramente produtos advindos de processo industrial. A taxa de desequilíbrio comercial com a China já está na casa dos 6 trilhões (período de 2014/2015), sendo que a China é o maior parceiro comercial com os quais a Argentina exibiu o maior déficit.

Os amplos poderes concedidos na Macro Convenção de adjudicação direta de obras e aquisições que ocorrerão quando houver financiamento concessional da China, causaram incerteza entre os empresários.

Estes seriam usados como porta de entrada para a obtenção de infra-estrutura e fornecimento de insumos (livre de impostos) de forma a reduzir ao máximo a competitividade com a indústria nacional.

No entanto, as facilidades concedidas pela presença de trabalho chinês, mais o benefício do exercício lucrativo para aqueles que têm autorização para estabelecer residência e trabalhar, geraram inquietação entre os trabalhadores locais.

“A presença destas disposições, não detém um saldo favorável para a reversão do prognóstico real”, disse Carciofi.

Devido à necessidade urgente da China para estocar alimentos, energia e recursos naturais para seus mais de 1,6 bilhões de pessoas, o gigante asiático procura garantir, de alguma forma, segurança alimentar e energia objetivando seu próprio desenvolvimento industrial.

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Como disse o professor Pavon, “a decisão da China em começar com um investimento em massa no exterior é bastante recente; tendo se iniciado em 2005, devido ao fato das empresas chinesas no exterior não terem necessidade de parceria local e nem de contratação de mão de obra local”. Porém, isto não acontece da mesma forma quando as empresas estrangeiras decidem estabelecer-se na China, destaca Pavon.

Esse mecanismo “está alimentando o desemprego” nos países ocidentais incautos antes do avanço silencioso do gigante asiático, acrescentou o professor.

“A China protege a sua própria capacidade de moagem e as condições da industrialização agro-argentina, limitando a geração de maior valor agregado das exportações argentinas para a China”, disse o Doutor em Relações Internacionais, Luciano Damian Bolinaga, ao jornal La Nación.

“Um claro reflexo desta situação é que este processo é acompanhado por uma reprimarização da estrutura produtiva da Argentina. Pois este tipo de intercâmbio com a China reproduz a velha lógica comercial Norte-Sul: manufaturas por matérias-primas”, acrescentou Bolinaga.

Do total exportado pela Argentina, a soja foi responsável por 50% (2001-2004), 43% (2005-2009) e, finalmente, 70% (2010-2013). Em contraste, o óleo de soja foi reduzido de 26% para 20% e, em seguida, caiu drasticamente para apenas 9% nos mesmos períodos.

“Além disso é importante salientar que as exportações estão estagnadas desde 2008, quando a Argentina contraiu um déficit comercial que vem, desde então, se acumulando e já atingiu US $ 19 bilhões até o momento”, revelou Bolinaga.

Com esses argumentos, é fácil entender o interesse chinês na Argentina, que é um país abençoado com diversas riquezas naturais, e que portanto, está correndo o risco de se tornar um mero objeto de conquista.

“A China tem aproveitado oportunamente seus bancos e agências de crédito para penetrar em países com fraco acesso aos mercados financeiros – como no caso da América Latina, por exemplo, incuindo a Venezuela, o Equador e a Argentina.”, diz Carciofi.

Bolinaga também mencionou que o câmbio de divisas poderia ter um efeito adverso sobre a Argentina e a região, de forma a facilitar as compras de produtos manufaturados chineses. Desta forma, é de se esperar que o déficit comercial continue a crescer e não possa ser compensado por exportações de outras mercadorias”.

“Esta situação deixa a Argentina ancorada na China como fornecedora de insumos para a indústria, consolidando a deterioração da posição do Brasil no mercado argentino e colocando em risco o processo de integração”, conclui Bolinaga.

Se não fosse pelas atuais condições de urgência financeira na qual a Argentina se encontra e devido ao fato do país estar em desvantagem na posição de negociadora fica a questão, mencionada por Carciofi, sobre a oportunidade de negociar e ratificar os acordos governados:

Se a Argentina não tivesse a necessidade premente de um salvo-conduto (Swap) para fechar a lacuna de financiamento externo, tería ela acordado nas mesmas condições? Até quando o país continuará por este caminho?

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