Candidato a transplante de cabeça muda de ideia depois de se apaixonar e se tornar pai

Spridonov se casou com a especialista em tecnologia química Anastasia Panfilova em uma cerimônia realizada em Moscou há cerca de um ano

Por Chris Jasurek

O homem que se ofereceu para ser o primeiro a se submeter a uma cirurgia para transplantar toda a cabeça para um novo corpo não foi operado — e não pretende mais fazê-lo, pois tem uma vida nova e melhorada.

Valery Spiridonov sofreu toda a sua vida com a doença de Werdnig-Hoffmann, que causa atrofia de seus músculos. Ele não pode ficar de pé, muito menos andar. Ele passou a maior parte de sua vida preso em uma cadeira de rodas.

Spiridonov, agora com 33 anos, ouviu falar sobre a pesquisa inovadora do neurocirurgião italiano Dr. Sergio Canavero em 2015.

Canavero publicou um artigo em 2013 em que descrevia o procedimento para o transplante de cabeça completo: unir uma cabeça saudável a um corpo doador. Ele publicou seus planos atualizados em junho de 2015, e Spiridonov ofereceu-se imediatamente como voluntário.

“Eu mal consigo controlar meu corpo”, disse Spiridonov ao Medical News Today em 2015. “Preciso de ajuda todos os dias, a cada minuto. Agora tenho 30 anos, embora as pessoas raramente vivam mais de 20 anos com esta doença”.

Em seu artigo de 2015, Canavero estimou que uma equipe de 100 cirurgiões levaria 36 horas para concluir a operação.

Grande parte da comunidade médica estava cética. Mesmo Canavero teve que admitir que, embora a reconexão das veias e artérias fosse relativamente fácil, a conexão das duas medulas espinhais (fusão espinhal ou SCF) seria extremamente difícil.

No documento de 2015, Canavero disse: “A chave para a SCF é o corte agudo da própria medula, com o consequente dano mínimo tanto aos axônios da substância branca como aos neurônios das camadas cinzentas. Este é um ponto chave”.

Spiridonov sabia que a data mais próxima possível para a cirurgia seria, pelo menos, dois anos depois. No entanto, Canavero disse à Newsweek que estava confiante de que havia 90% de chance de sucesso.

Cirurgião italiano Sergio Canavero participa de coletiva de imprensa em 18 de novembro de 2016 em Glasgow, na Escócia (Jeff J. Mitchell/Getty Images)
Cirurgião italiano Sergio Canavero participa de coletiva de imprensa em 18 de novembro de 2016 em Glasgow, na Escócia (Jeff J. Mitchell/Getty Images)

Pesquisa sobre transplante de cabeça se desloca para a China

No entanto, logo se revelou que a possibilidade de sucesso era nula.

Quase exatamente dois anos depois que Canavero publicou seu segundo artigo, Spiridonov admitiu publicamente que a cirurgia não iria acontecer, relatou o jornal Daily Mail. Em junho de 2017, Spiridonov disse que Canavero decidira realizar a cirurgia na China.

É possível que o médico tenha mudado seus planos para aproveitar as leis de ética médica mais flexíveis da China e evitar complicações legais caso a cirurgia falhasse.

Em novembro de 2017, Canavero anunciou que havia transplantado com sucesso a cabeça de um cadáver para outro. Trabalhando com uma equipe liderada pelo Dr. Xiaoping Ren, da Universidade de Medicina de Harbin, na China, Canavero enxertou a cabeça de um cadáver no corpo de outro, um procedimento que durou 18 horas, de acordo com o jornal The Telegraph.

Canavero e Xiaoping haviam se unido anteriormente para transplantar a cabeça de um macaco em outro, informou The Telegraph. O macaco nunca recuperou a consciência e, se tivesse feito isso, teria ficado paralisado: os cirurgiões não tentaram unir as duas medulas espinhais.

O próximo passo será uma troca de cabeças entre dois doadores de órgãos com morte cerebral, disse Canavero ao jornal The Sun. Depois disso, ele irá trabalhar com um doador chinês com uma doença ou deficiência como a que Spiridonov tem.

Isso levantou algumas dúvidas sobre a origem dos corpos chineses que estão sendo usados para os experimentos, dada a baixa credibilidade das fontes dos órgãos oficiais na China. Investigadores independentes têm denunciado que a verdadeira fonte de órgãos para a enorme quantidade de transplantes na China são os prisioneiros de consciência — pessoas presas por causa de sua fé, em sua maioria praticantes do Falun Dafa (ou Falun Gong), e também cristãos, budistas tibetanos e uigures.

Os resultados indicam que a enorme população de prisioneiros é usada como um banco de órgãos vivos, e em face da necessidade de um órgão para transplante, o prisioneiro compatível é morto durante o processo em que seu órgão é removido para transplante.

O próprio Spiridonov expressou preocupação com a falta de informação sobre os experimentos do Dr. Canavero na China.

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“Não lamento que Canavero não tenha alcançado seu objetivo… ou que tenha realizado mas fracassou”, disse ele ao jornal russo Komsomolskaya Pravda.

“Todos poderiam se beneficiar com as informações sobre o que deu errado na China e por quê. Hoje em dia, eu não tenho essa informação e isso não ajuda a continuar investigando. Eu realmente espero que um dia Canavero publique tudo em detalhes”, acrescentou Spiridonov.

Apesar de ter perdido a oportunidade de ter um corpo saudável, o programador nascido na Rússia não está desapontado.

“Sinto que um peso está sendo retirado do meu peito”, disse Spiridonov ao Daily Mail. “Nunca tive motivos fúteis para querer ser o primeiro [a se submeter a um transplante de cabeça]. Eu dei dois anos da minha vida para este projeto. Ficarei feliz em ver isso acontecer [com outra pessoa].”

Uma vida boa apesar da doença

Valery Spridinonov não viveu esses dois anos em vão.

Enquanto aguardava a resposta de Canavero, o especialista em computadores projetou uma cadeira de rodas “inteligente” que responde a comandos de voz — perfeita para suas necessidades.

Spiridinov mudou-se para a Flórida, onde ingressou na Universidade da Flórida para estudar análise computadorizada de emoções, relatou o The Sun. Enquanto isso, ele está envolvido em trabalhos de consultoria.

No entanto, as mudanças mais importantes em sua vida não foram técnicas ou médicas, mas românticas.

Spridonov se casou com a especialista em tecnologia química Anastasia Panfilova em uma cerimônia realizada em Moscou há cerca de um ano. Ela se mudou para os Estados Unidos para ficar com ele e recentemente deu à luz ao primeiro filho do casal, um menino.

“Nós morávamos na mesma cidade e costumávamos nos encontrar em ambientes profissionais, e logo percebemos que nos sentíamos muito bem juntos”, disse Spiridonov ao Daily Mail.

“Ela tem vários diplomas. Nos casamos há pouco mais de um ano em Moscou.”

A doença de Werdnig-Hoffmann pode ser transmitida para os filhos. Pouco depois de saber que estava grávida, Panfilova se submeteu a exames e os resultados mostraram que a criança não herdou o gene danificado que causa a doença.

Spiridonov considerou um verdadeiro “milagre”.

O novo e corajoso pai não se lamenta por não ter um corpo saudável.

“Sou profundamente grato a Canavero”, disse Spiridonov ao The Sun. “Graças aos nossos esforços conjuntos, muita coisa está mudando para melhor e para mim também”.

 
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