Brasil tem maior taxa de cesariana do mundo, segundo Unicef

Operação cesariana. (Brendan Hoffman/Getty Images)

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa de cesariana ideal deve ficar em torno de 15%, já que a cirurgia só é indicada em casos emergenciais e põe em risco a gestante e o bebê. Segundo a organização, esta é a média real correspondente aos partos complicados em que a intervenção cirúrgica é realmente necessária.

Dados do Ministério da Saúde indicam que a cesariana representa graves riscos de mortalidade para ambos mãe e bebê. A parturiente que escolhe dar à luz por cesariana tem risco de vida seis vezes maior em relação àquela que opta pelo parto normal. De acordo com o ministério, a cesárea aumenta as chances de a mãe contrair uma infecção ou ter uma hemorragia e quadruplica os riscos de o bebê ir para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Quando a criança nasce normalmente, as chances de ela ser internada são de 3%, contra 12% do nascimento cirúrgico.

Ainda segundo o Ministério da Saúde, os partos que apresentam maiores riscos são as chamadas ‘cesárias eletivas’, quando simplesmente se agenda uma cirurgia para o nascimento do bebê. Nesses casos, a gestante não chega a entrar em trabalho de parto, havendo, portanto, grande probabilidade de a criança ter problemas de saúde, já que o feto não está totalmente pronto.

Estudos reconhecidos pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) relacionam diretamente o alto índice de bebês prematuros com o alto índice de cesarianas antes da completa maturidade fetal, e apontam estes fatores entre as principais causas da alta morbimortalidade perinatal, que é a soma das taxas de mortalidade e de morbidade (deficiência física) em recém-nascidos e da gestante. Segundo estas pesquisas, aqueles que nascem com 37 ou 38 semanas têm 120 vezes mais chances de possuir problemas respiratórios em relação àqueles com 39 semanas.

De acordo com o ‘Guia dos Direitos da Gestante e do Bebê’, publicado pelo UNICEF e pelo Ministério da Saúde em agosto de 2011, “A cesariana desnecessária é inaceitável. Mas, se for preciso fazer uma cesariana, deve ser realizada, geralmente, apenas depois do início do trabalho de parto. A natureza tem ritmos e razões que cesarianas com hora marcada por conveniências desrespeitam. Se tudo vai bem, a cesariana é desnecessária mesmo para parto de gêmeos (com ambos de cabeça para baixo), prematuro, gestante adolescente e mulheres com hipertensão moderada”.

Segundo o documento, a cesárea é recomendada apenas nos seguintes casos: “quando há risco de vida para a mãe, para o bebê ou para ambos; quando a mãe tem hipertensão grave; em casos nos quais a gestante é soropositiva para o vírus da AIDS; quando a cabeça do bebê é maior do que a passagem da mãe (desproporcional); quando o cordão umbilical sai antes do bebê; nos casos em que a placenta descola antes do nascimento do bebê; quando a localização da placenta impede a saída do bebê; em situações que o bebê está sentado ou atravessado; ou em parto de gêmeos quando um dos bebês está sentado”.

Ainda de acordo com a publicação, o parto normal é um direito que deve ser reivindicado pelas gestantes, assim como ser informadas sobre as razões que as impedem de optar pelo parto normal caso a cirurgia for realmente necessária. “Na maioria dos casos, o parto normal é a maneira mais segura e saudável de ter filhos e, por isso, deve ser estimulado por meio de uma assistência humanizada (parto natural) segura e de qualidade.

Outras vantagens do parto normal em comparação com a cesárea são a recuperação mais rápida da mãe e o aleitamento regular. “O organismo materno se prepara para o nascimento. Os hormônios prolactina e ocitocina, fabricados durante o trabalho de parto, são fundamentais para ajudar a acelerar a produção de leite. Quem faz uma cesárea não produz quantidade suficiente desses hormônios e o leite pode demorar a descer”, afirmou o obstetra Jorge Kuhn, um dos fundadores da Casa Moara, espaço dedicado às mulheres grávidas e suas famílias na cidade de São Paulo, segundo publicou o portal do Governo Federal.

Gestante participa da Marcha pela Humanização do Parto no Rio de Janeiro, em 5 de agosto. (Joana Ferreira/The Epoch Times)

Parto humanizado

Os princípios de assistência e humanização do processo de gravidez, parto e nascimento vêm sendo institucionalizados no país desde os anos 90 e embasam a atual política do Estado brasileiro. Eles fundamentam o Rede Cegonha, programa do Ministério da Saúde que prevê atenção à gestante e ao bebê até o seu segundo ano de vida e conta com orçamento de mais de 9 bilhões de reais até 2014, de acordo com o Governo. Respeito à liberdade feminina, acompanhamento e atendimento humanizado e direito a um acompanhante de escolha da mãe no período do parto e pós-parto são algumas das características da estratégia, que funciona pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O secretário de atenção à saúde do Ministério da Saúde, Helvécio Magalhães, afirmou ao portal do ministério que o excesso de partos cirúrgicos ocorre em grande parte por falta de informação da parturiente. “A questão do setor privado é escandalosa. Tem hospitais em que (o índice de cesárias) se aproxima de 100%. E isso é inaceitável. Tem muito desconhecimento. Tem muitos dogmas, como a questão da dor, por exemplo. Nós estamos insistindo que é direito ter analgesia. É direito ter um acompanhante para ter mais proteção”, afirmou o secretário. “Tem que ter o trabalho de parto acompanhado para não ter risco e até para, se for preciso, indicar a cesariana.”

Outro fator que pode estar interferindo na decisão pelo parto normal na hora efetiva do trabalho de parto é a violência obstétrica. Uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC e publicada em fevereiro do ano passado revelou que 25% das mulheres que deram à luz por parto natural sofreram algum tipo de violência verbal pelos médicos durante o trabalho de parto. Dessas, 74% foram ofendidas em redes públicas, e 17% em redes privadas. As outras 8% sofreram a agressão verbal em ambas as redes.

 
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