Brasil pode se retirar da ONUDI, analistas questionam influência da China na agência da ONU

Países ocidentais estão preocupados porque a ONUDI, liderada pela China, está sendo usada por Pequim para promover sua iniciativa "Um Cinturão, Um Caminho"

Por John Phillips, Epoch Times

O Brasil poderá manter o regime chinês à distância se o candidato à presidência Jair Bolsonaro, um crítico aberto de Pequim, for eleito na próxima semana, apesar de um diplomata brasileiro negar a persistente especulação de que seu governo esteja na iminência de se retirar da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI), controlada pela China.

Diplomatas da União Européia, baseados em Viena, especularam que o Brasil, que vem reduzindo os compromissos com organizações internacionais, deixaria a ONUDI com uma dívida iminente.

No entanto, André João Rypl, diplomata do Brasil responsável pelo portfólio da ONUDI, negou veementemente que o Brasil planeje deixar a ONUDI e insistiu que o Brasil tenha praticamente liquidado sua dívida.

“Nos últimos dezoito meses nós efetuamos pagamentos superiores a 23 milhões de euros e liquidamos grande parte de nossa dívida”, disse ele em um e-mail.

“Agora nós devemos apenas um pequeno valor residual correspondente a uma fração da contribuição de 2017 (aproximadamente 1 milhão de euros). A contribuição de 2018 (juntamente com este resíduo de 2017) deve ser paga no final de dezembro. De acordo com a lei brasileira, qualquer contribuição só é devida até o último dia útil do ano, então não estamos em atraso com as taxas de 2018”.

O embaixador acrescentou que o Brasil continua ativo na ONUDI, destacando que “por exemplo, em novembro próximo, realizaremos um seminário sobre Diplomacia e Tecnologia em Brasília com o orador principal da ONUDI”.

No entanto, muitos países ocidentais estão preocupados com o fato de que a ONUDI possa estar sendo usada por Pequim para promover suas políticas duvidosas de desenvolvimento, como a iniciativa de “Um Cinturão, Um Caminho” (OBOR) globalmente. Caso Bolsonaro ganhe, o Brasil pode rever sua política sobre a ONUDI, bem como questões políticas mais amplas com a China, um importante parceiro comercial, dizem as fontes em Viena. Bolsonaro retratou a China, seu maior parceiro comercial, como um predador que busca controlar setores-chave da economia brasileira.

“A China está fazendo o inferno com a ONUDI e a está usando abertamente para implementar o OBOR em todo o mundo”, disse uma fonte da UE sediada em Viena, falando sob condição de anonimato.

A China divulgou formalmente o OBOR em 2013, revelando um esquema ambicioso para ligar a China por mar e terra a mais de 60 países da Ásia, Europa e África.

Li Yong, ex-vice-ministro chinês do Ministério das Finanças, ocupa o cargo de diretor-geral da ONUDI desde 2013; seu mandato termina em dezembro de 2021.

Em setembro de 2017, a ONUDI organizou uma conferência internacional sobre o OBOR em Viena, juntamente com o Centro Financeiro para a Cooperação Sul-Sul, liderado por um ex-funcionário de alta importância do setor bancário, Cai E’sheng.

Altos funcionários da ONU, incluindo o secretário-geral António Guterres, descreveram repetidamente o OBOR como o principal pilar dentro do plano patrocinado pela ONU para reduzir a pobreza mundial até 2030.

Operários da construção civil do Sri Lanka trabalham em uma estrada em Colombo, em 5 de agosto de 2018. O banco central do Sri Lanka anunciou em 3 de agosto que havia obtido um empréstimo da China de um bilhão de dólares, já que a ilha, um elo chave da ambiciosa iniciativa de Pequim, "Um Cinturão, Um Caminho", estreitou seu relacionamento com os chineses (Lakruwan Wanniarachchi/AFP/Getty Images)
Operários da construção civil do Sri Lanka trabalham em uma estrada em Colombo, em 5 de agosto de 2018. O banco central do Sri Lanka anunciou em 3 de agosto que havia obtido um empréstimo da China de um bilhão de dólares, já que a ilha, um elo chave da ambiciosa iniciativa de Pequim, “Um Cinturão, Um Caminho”, estreitou seu relacionamento com os chineses (Lakruwan Wanniarachchi/AFP/Getty Images)

A iniciativa chinesa tem “um imenso potencial” e promete maior acesso ao mercado para os “países que anseiam por se integrarem mais à economia global”, disse Guterres em discurso antes do fórum “Um Cinturão, Um Caminho” em Pequim, em maio de 2017.

No entanto, Pequim enfrenta críticas cada vez maiores por colocar uma carga insustentável sobre nações empobrecidas e alimenta a preocupação de que o programa OBOR seja um cavalo de Tróia fabricado para projetar os interesses econômicos e militares da China, e que o programa esteja envolvido em um esquema de corrupção generalizada.

Autoridades do governo do Quirguistão foram acusadas de conspirar com empreiteiras chinesas para desviar fundos do OBOR por meio do aumento excessivo dos custos do projeto; dois ex-primeiros-ministros foram presos por acusações de corrupção.

No Sri Lanka, o porto de Hambantota foi ideia do então presidente Mahinda Rajapaksa. Enquanto a ilha estava isolada internacionalmente após uma dura repressão militar contra o grupo separatista Tigres Tamil, que incluiu violações massivas dos direitos humanos, Rajapaksa se aproximou da China em busca de empréstimos. Grandes somas de dinheiro teriam saído do fundo de construção do porto chinês para a campanha eleitoral de Rajapaksa, informou a imprensa estrangeira. No entanto, apesar do apoio chinês, Rajapaksa perdeu as eleições.

Também foram levantadas questões sobre investimentos chineses que teriam fomentado a corrupção no Paquistão, na Malásia e nas Maldivas. O anterior governo da Malásia, liderado pela coalizão da Frente Nacional, terminou este ano.

O novo governo da Malásia revisou o que considerou acordos OBOR unilaterais assinados pela administração anterior e cancelou vários contratos.

“Tamanha estupidez nunca foi vista antes na história da Malásia”, disse o primeiro-ministro Mahathir Mohamad.

Além da ONUDI, o controle chinês do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UN DESA) desempenhou um papel importante na promoção do OBOR. Desde 2007, a China ocupou o primeiro lugar no DESA, que antes era considerado um remanso das Nações Unidas, onde foram realizadas conferências e estudos de casos econômicos para os países subdesenvolvidos. O atual chefe da UN DESA é o ex-embaixador chinês nas Nações Unidas, Liu Zhenmin.

Em 2016, Helen Clark, da Nova Zelândia, então diretora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), assinou o primeiro memorando de entendimento com a China, prometendo cooperação no OBOR. Clark estava em campanha para se tornar o secretário-geral da ONU e estava buscando o apoio da China na votação, disse a revista Foreign Policy. No entanto, ela nega veementemente o apoio ao OBOR, a fim de promover sua ambição de liderar as Nações Unidas.

O ex-secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson alertou em março que as “práticas predatórias de empréstimos” chinesas encorajam a dependência das nações africanas e “minam sua soberania”. Autoridades da UE e líderes europeus também expressaram preocupação com as consequências geopolíticas do aumento do investimento chinês no sul da Europa.

Os Estados Unidos se retiraram da ONUDI em 1996. A Grã-Bretanha retirou-se em 2012 depois que sua Revisão da Assistência Multilateral em 2011 concluiu que não havia “nenhuma evidência de que a ONUDI tivesse um impacto significativo na pobreza global” e que a agência foi assediada por “uma ampla gama de fraquezas organizacionais que incluíam transparência limitada, relatórios ruins de resultados e gerenciamento financeiro ruim”, e de que ela era uma duplicação de outras organizações das Nações Unidas.

Analistas da ONU acreditam que a promoção que a China faz de seus interesses através da ONUDI e da UN DESA é parte de uma apropriação mais ampla das Nações Unidas por parte de Pequim e de outras organizações internacionais, destacada pela negativa da Interpol em permitir que Taiwan participe de uma conferência em Dubai, em novembro, e do bloqueio da ilha para que não possa participar de uma recente reunião da Assembléia da Organização das Nações Unidas para a Aviação Civil.

Este relatório foi atualizado em 26 de outubro com comentários do representante brasileiro André João Rypl e da UNIDO para refletir que o Brasil não fez nenhum anúncio de que está deixando a UNIDO, e que o Brasil pagou 23 milhões de euros para liquidar sua dívida. O Epoch Times lamenta a omissão.

 
Matérias Relacionadas