Bank of America: China está em um caminho sem volta

O regime chinês ainda tem um poder considerável sobre os mercados. Após uma queda de 7 % no Shanghai Composite, em 4 de janeiro, o país ainda conseguiu reverter uma segunda queda de 3 % em 05 de janeiro.

Logo, por um curto período, tudo estárá bem. Mas em longo prazo, e mesmo em 2016, o Bank of America prevê grandes problemas na economia chinesa.

De acordo com os analistas, o regime chinês tem que lutar em várias batalhas ao mesmo tempo e acabará perdendo a forças no mercado.

“Julgamos que a situação da dívida da China provavelmente já esteja em um caminho sem volta e vai ser difícil reverter o atual cenário”, afirma um relatório do estrategista-chefe, David Cui, do Bank of America.

O relatório assinala que um aumento na dívida do setor privado quase inevitavelmente levará a uma crise financeira. A dívida privada da China, em relação ao PIB, subiu 75%, entre 2009 e 2014, aumentando a dívida total  em relação ao PIB  para 300 %. É um aumento muito substancial para ser sustentado.

Analistas ocidentais, muitas vezes, opinam que a China pode lidar com isso e que Pequim tem encontrado a sua própria forma, através do capitalismo patrocinado pelo Estado, o que pode impedir que uma crise aconteça.

Cui mostra que esse pressuposto está errado desde o início, dado que a China já passou por todas as formas de dívida (de desvalorização da moeda, hiper-inflação, e de recapitalização bancária) desde a reforma e a abertura política, iniciada em 1978.

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“O setor Bancário NPL (Non-Performing Loans) atingiu cerca de 40% no final de 1990 e no início de 2000, sendo que o governo teve de retirar cerca de 20% do PIB equivalente à inadimplência do sistema bancário entre 1999 e 2005”, revelou Cui.

Ele também afirmou que as suposições dos investidores  sobre como o regime chinês admnistra a economia  enfrentarão outro severo teste em 2016. Os pressupostos são os seguintes:

• O PIB vai continuar crescendo rápido;
• O yuan vai apreciar em relação ao dólar;
• O regime irá apoiar o mercado de ações;
• Nenhuma grande empresa irá reembolsar a sua dívida;
• O regime vai sustentar o mercado imobiliário.

Com a entrada de 2016, pôde-se notar que a maior parte destas premissas não são verdadeiras. Além disso, os participantes do mercado e do regime fizeram o problema da dívida ainda pior ao aderirem a estes pressupostos.

Isto é “…um caso clássico de estabilidade em curto prazo, que leva à instabilidade em longo prazo .  É a nossa avaliação de que quanto mais tempo esta prática se arrastar, maior será o risco de instabilidade do sistema financeiro, e mais dolorosa será a derradeira queda”, escreveu Cui.

Para a crise vindoura, Cui acredita que a China vai, provavelmente, ter que desvalorizar sua moeda, amortizar dívidas incobráveis, recapitalizar os bancos, e reduzir o peso da dívida com alta inflação.

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E mesmo que o regime queira continuar seguindo os cinco pressupostos, ele não será capaz, pois, às vezes, ele mesmo se contradiz. Por exemplo, é impossível evitar a falência do crescimento econômico apenas imprimindo dinheiro, sem gerar uma futura queda da moeda.

Então, após os acontecimentos de agosto do ano passado, e depois que o Fundo Monetário Internacional finalmente incluíu a China em sua cesta de moedas de reserva, o regime abandonou completamente o objetivo de manter a moeda estável, e deixou o yuan flutuar ainda mais para baixo.

Outro ponto chave que Cui não menciona, mas que é importante, é a reforma. O regime promete a reforma e ainda a segue em alguns casos. Ma se a pressão é muito forte, ele recorre novamente ao planejamento central para moldar o mercado de acordo com suas necessidades, tendo cada vez menos sucesso nesta operação.

“Parece que as opções políticas do governo estão se esgotando rapidamente – basta lembrar como tem sido difícil para o governo chinês sustentar o crescimento do PIB, desde meados de 2014. Um abrandamento do crescimento econômico é tipicamente um prelúdio para a instabilidade do setor financeiro “, escreveu Cui. Cui ainda prevê que o Shanghai Composite irá cair 27%, em 2016.

 
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