Aviões rejeitados na China por problemas de segurança são vendidos e doados a outros países

Oficiais da Força Aérea da Indonésia observam um avião MA-60 da Merpati Nusantara Airlines, após um pouso forçado no aeroporto El Tari em Kupang. "Ficamos muito surpresos", disse Imam Purnomon, o administrador do aeroporto, à mídia local (Gamaliel/AFP/Getty Images)
Oficiais da Força Aérea da Indonésia observam um avião MA-60 da Merpati Nusantara Airlines, após um pouso forçado no aeroporto El Tari em Kupang. “Ficamos muito surpresos”, disse Imam Purnomon, o administrador do aeroporto, à mídia local (Gamaliel/AFP/Getty Images)

Uma companhia chinesa fabricante de aeronaves e componentes aeronáuticos tem vendido aviões rejeitados, por temores de segurança, pela própria indústria de aviação da China.

O primeiro sinal de problema ocorreu em 22 de junho de 2000, quando um avião Y-7 sofreu um terrível acidente num aeroporto na cidade de Wuhan, no centro da China, matando os 44 passageiros e tripulantes a bordo e 7 outras pessoas em terra. O acidente foi posteriormente atribuído ao mau tempo, mas desse momento em diante o Y-7 foi efetivamente banido na China.

Então, a fabricante do avião instalou um motor canadense e uma hélice norte-americana, acrescentou 20 assentos e redecorou o interior: eis o nascimento do MA-60. Ambos os aviões são derivados, por meio de engenharia reversa, de um avião militar soviético chamado Antonov An-24.

Um início nada auspicioso

Mas o próprio MA-60 logo começou a apresentar problemas: Em 2002, num exercício-teste no aeroporto de Yichang, novamente em Wuhan, o piloto não conseguiu estender o trem de pouso e o avião deslizou na pista de barriga (uma ocorrência repetida não poucas vezes ao longo dos anos pelo MA-60). O resultado deste incidente e a tragédia de 2000 tornaram o MA-60 um pária na China. Empresas nacionais sentem-se mais confortáveis com os aviões Boeing e Airbus.

Qual foi o próximo passo da Xi’an Aircraft Industrial Corporation, a fabricante de aviões apoiada pelo Estado chinês? Começar a exportar o MA-60, principalmente para países do Sudeste Asiático. Em alguns casos, os aviões são até doados. O registro não parece bom.

O problema foi destacado abruptamente em junho, com dois incidentes no mesmo dia, na Indonésia e Burma.

Dividido ao meio

Em 10 de junho, uma aeronave chinesa MA-60 com 50 pessoas a bordo partiu em dois após um pouso forçado de barriga num aeroporto no leste da Indonésia. “Ficamos muito surpresos”, disse Imam Purnomon, o administrador do aeroporto, à mídia local. “As rodas da frente quebraram, fazendo as duas hélices quebrarem também, quando tocaram no chão.” Ninguém morreu, mas dois passageiros ficaram feridos.

Em seguida, no mesmo dia, um MA-60 operado pela Myanma Airways, uma companhia aérea estatal birmanesa, transportando cerca de 60 pessoas (a capacidade do avião), deslizou 60 metros além da pista num aeroporto doméstico no sul da Birmânia. Ninguém ficou ferido, mas as autoridades birmanesas ordenaram a inspeção de todos os MA-60 no país.

Um avião MA-60 sai da pista em Burma (Imagem de tela)
Um avião MA-60 sai da pista em Burma (Imagem de tela)

Cautela da Nova Zelândia

Mais recentemente, o governo da Nova Zelândia suspendeu milhões de dólares em ajuda de turismo para Tonga, por preocupação com a segurança dos MA-60 da empresa Xi’an, que foram presenteados pela China numa cerimônia ao rei de Tonga.

A cerimônia e a doação destacam o papel político que a aeronave desempenha na diplomacia chinesa. O avião é vendido com grande desconto e outras vezes doado. Relatos da mídia estatal chinesa promovem a aeronave como o carro-chefe da florescente indústria de aviação do país. Mas questões de segurança têm atormentado o MA60 desde que este entrou em produção.

Decolar?

De acordo com um resumo da aeronave em “Pronto para decolar: Avanços na Indústria Aeroespacial da China”, um livro sobre a indústria de aviação da China, o avião foi citado por “problemas de confiabilidade e dois estouros de pista”, levando a sua retirada de serviço em 2006.

Yu Dawei, um repórter da revista de negócios chinesa Caixin, escreve que a Sichuan Airlines rejeitou o primeiro MA-60 que recebeu, após identificar problemas de decolagem em seus testes. Apenas nove MA-60 foram vendidos na China, escreve Yu, mas nenhum deles está voando atualmente, desde que foi retirado de serviço para abrir caminho para o novo modelo, o MA-600.

Publicidade estatal

Mas enquanto o avião era rejeitado e retirado de serviço na China, ele era vendido no exterior e recebia comentários elogiosos sobre suas proezas na mídia estatal da China. “De concepção e produção própria, o MA-60 foi pioneiro em vários aspectos na história da indústria de aviação civil da China”, disse um repórter da emissora estatal China Central de Televisão (CCTV), numa matéria-propaganda em inglês sobre a aeronave.

Depois de passar por testes de voo na Indonésia em 2006, segundo a reportagem, este se tornou o primeiro avião chinês no mercado exterior. “Isso abre o caminho para novas importações dos países do Sudeste Asiático”, disse a CCTV. No mesmo ano, a Merpati Nusantara Airlines, uma grande transportadora da Indonésia, comprou 15 deles, o “maior negócio da história da indústria chinesa de aviação civil”, disse a CCTV.

O Diário do Povo, outra mídia estatal porta-voz do Partido Comunista Chinês (PCC), afirmou que “mais de 400” devem ser encomendados nos próximos 20 anos. Mas isso não se concretizou.

‘Grande número’ de acidentes

A litania de acidentes, listados na Airforceworld.com, um site chinês de recursos de aviação, pode indicar o motivo.

Em 2009, no Aeroporto Caticlan nas Filipinas, o trem de pouso de um MA-60 que pousava cortou por uma proteção de segurança, tombando o avião para a esquerda e esmagando uma cerca da pista.

No aeroporto de Harare, no Zimbábue, também em 2009, um MA-60 decolava, quando aparentemente bateu num javali na pista, quebrando o trem de pouso e fazendo-a girar fora de controle. Alguns passageiros não acreditaram na história do javali.

Um total de 10 incidentes foi listado com datas específicas, frequentemente com dados de voo e números de registo. Três ocorreram na China e os outros no estrangeiro. De acordo com dados da Aviation Week, há 30 MA-60 em serviço, 27 fora da China. Alguns incidentes parecem ser devido a erro do piloto e a Indonésia é conhecida por seu pobre histórico de segurança de aviação, mas uma taxa de incidentes de um terço é incomum na indústria, segundo especialistas em segurança de aviação.

“Considerando o número desses aviões por aí, é definitivamente muito alto”, disse Allan Pamm, presidente da Avicor Aviation, uma empresa de consultoria de aviação. “Porque sua tecnologia é antiga e de construção barata, ele não é o mais seguro dos aviões”, disse ele. “Os casos parecem ser mais mecânicos do que erro humano.”

Modelos do MA-60 na 9ª Exibição Internacional de Aviação e Aeroespacial da China, na cidade de Zhuhai (Michael Blank)
Modelos do MA-60 na 9ª Exibição Internacional de Aviação e Aeroespacial da China, na cidade de Zhuhai (Michael Blank)

Subsidiado e premiado

Ainda assim, esses aviões foram promovidos pela Xi’an e sua parceira a Aviation Industry Corporation of China (AVIC), um enorme conglomerado estatal com mais de US$ 50 bilhões em ativos.

Na Exibição Aérea de Dubai em 2011, anos após os problemas com o avião serem evidentes, a AVIC ainda promovia a aeronave para venda.

Os termos extremamente generosos em que os MA-60 são oferecidos podem dar uma indicação do porquê eles ainda chegam ao mercado. “Normalmente, estes aviões são vendidos com financiamento a juros baixos”, disse Roger Cliff, um dos coautores de “Pronto para decolar” e um especialista na indústria de aviação chinesa.

“Mas, sobretudo quando se fala de países como a Indonésia ou a Birmânia, poderíamos pensar em outras razões para os oficiais adquirirem estes aviões”, disse Cliff, como “subornos ou outras motivações políticas”. Uma frota de aeronaves pode ser vendida em condições favoráveis como um sinal de boa vontade, por exemplo, ou, como no caso de Tonga, simplesmente doado.

Erro de sistema

O deficiente MA-60 oferece lições importantes sobre a indústria de aviação da China e seu sistema político, que estão interconectados, segundo um engenheiro mecânico chinês que passou anos no sistema estatal na China e que agora vive em Melbourne, Austrália. Ele preferiu ser identificado apenas por seu sobrenome Sun.

“Os líderes de várias grandes fábricas estatais são oficiais comunistas e, para promoção própria, eles se preocupam muito com a conclusão de um produto num prazo específico e para alcançar certas metas de lucro, então eles não consideram de má qualidade peças de aeronaves que possam causar problemas de segurança”, disse Sun.

Buracos de ar que não deveriam estar lá num cilindro, por exemplo, podem passar por inspetores, diz Sun. “Aqueles que detêm o poder real nas fábricas são frequentemente fracos em nível técnico”, disse ele. “Os oficiais silenciam os técnicos que abordam problemas de qualidade”, porque corrigir erros significaria perder benefícios e criaria embaraço para os líderes da fábrica.

Um ex-piloto da China Southern Airlines disse ao Epoch Times que as próprias companhias aéreas chinesas normalmente recusam a compra de aviões produzidos no país, devido à situação retrógrada da indústria de aviação na China.

Quanto à erupção de problemas de segurança com o MA-60, não há sequer como conseguir uma palavra clara da Xi’an se o modelo oficialmente tem problemas. “Eles pararam a produção do MA-60”, disse Cliff. “No entanto, não sabemos se foi para corrigir uma falha de projeto que tenham descoberto, mas provavelmente não é do interesse deles divulgar isso.”

A AVIC International, a empresa-mãe da Xi’an Aircraft Industrial Corporation, que vende o MA-60 no estrangeiro, não respondeu a um pedido de comentário.

Problemas de integração

Cliff acrescentou que apesar da aeronave ter componentes de ponta (e de produção estrangeira), fatores sobre como eles são integrados, sua estrutura e uma série de outras questões ainda podem atormentá-los. “Isso é apenas mais um lembrete de que desenvolver aeronaves comerciais de confiança e seguras não é fácil”, disse ele. “A China pode ter ambições, mas será difícil promover-se como um fornecedor confiável.”

“Eu entendo que eles estejam tentando decolar seu negócio de aviação”, disse Steve Abdu, vice-presidente-executivo da Expert Aviation Consulting, “mas obviamente essa não é a maneira de fazê-lo se o avião cairá do céu.”

No mundo globalizado de hoje, problemas com aviões em países menores como a Indonésia e Tonga podem ter impactos globais – a recusa da Nova Zelândia em conceder investimentos a Tonga para o turismo é um exemplo. “Se houvesse problemas com o avião, então os passageiros não teriam o mesmo nível de confiança em segurança que esperariam em outras partes do mundo”, disse Abdu.

Ele acrescentou: “A Boeing é conhecida em todo o mundo por sua qualidade, se você tiver problemas com eles, então isso se refletiria e prejudicaria a empresa… Acho que, se o mesmo nível de expertise fosse empregado neste avião, eles provavelmente não teriam tantos problemas.”

“Se isso não é bom o suficiente para a China, por que seria para qualquer outra pessoa?”, questionou Abdu.

 
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