Ausência de funcionário em Congresso do Partido Comunista Chinês sugere luta interna

No primeiro dia do 19º Congresso Nacional realizado em 18 de outubro, encontro político mais importante do calendário do Partido Comunista Chinês (PCC), a ausência de Luo Gan, ex-chefe de segurança, se fez notar.

O não comparecimento de Luo é particularmente digno de atenção porque, no dia anterior, ele havia sido nomeado membro da elite de 42 pessoas que compõem o Comitê Permanente do “Presidium” do Congresso Nacional. Todos os outros membros deste seleto grupo estavam presentes no 19º Congresso.

No final do evento em 24 de outubro, será anunciada a lista de candidatos para a próxima geração da elite governante do PCC.

O Presidium é composto de membros mais velhos do partido, bem como membros atuais e ex-membros do Politburo no topo da liderança. Suas assistências simbolizam o apoio ao poder do líder chinês Xi Jinping. É esperado, portanto, que todos participem.

Dos 42 membros do Comitê Permanente do Presidium, o único que não compareceu foi Luo Gan.

Luo, com 82 anos de idade, foi chefe da Comissão de Assuntos Políticos e Jurídicos, órgão do Partido Comunista que supervisiona o vasto aparelho de segurança interna, de 1998 a 2007, e um dos nove homens nas fileiras superiores do poder do Partido como membro do Comitê Permanente do Politburo de 2002 a 2007. Ele conseguiu subir na hierarquia graças aos favores do então líder do PCC, Jiang Zemin.

Jiang e aqueles que ainda são leais a ele — parte da facção de Jiang — estão atualmente em uma luta de poder contra Xi e seus seguidores.

Luo Gan no 18º Congresso Nacional em Pequim, em 14 de novembro de 2012 (Goh Chai Hin/AFP/Getty Images)
Luo Gan no 18º Congresso Nacional em Pequim, em 14 de novembro de 2012 (Goh Chai Hin/AFP/Getty Images)

Por ser um dos capangas de Jiang, o desaparecimento de Luo do Presidium provocou especulações por parte dos analistas quanto ao que isso pode significar.

Em 1999, Luo foi escolhido pessoalmente por Jiang para realizar sua campanha de perseguição contra praticantes da disciplina espiritual Falun Dafa. Com a grande popularidade do Falun Dafa, também conhecido como Falun Gong, chegando a 100 milhões de praticantes, Jiang julgou a presença desta disciplina da Escola Buda como uma ameaça ao seu governo autoritário e por isso procurou erradicá-la.

Luo, que supervisionava as instituições estatais de aplicação da lei como a polícia, os campos de trabalhos forçados, as prisões e o sistema judicial, ordenou a prisão e detenção de centenas de milhares de praticantes do Falun Dafa, que em inúmeros casos sofreram tortura e abusos durante o período de encarceramento.

Em 2009, o juiz argentino Octavio Aráoz de Lamadrid emitiu um mandado de prisão contra Luo, citando genocídio e tortura entre seus crimes. Esse caso ainda está aberto nos tribunais federais do país sul-americano. Outros países também abriram processos contra Luo e Jiang.

Sob a campanha anti-corrupção de Xi, muitos membros das facções de Jiang foram expurgados.

Depois que Li Dongsheng e Zhou Yongkang —ambos ajudaram Jiang na perseguição através de suas funções como chefe do Escritório 610 e chefe da Comissão de Assuntos Políticos e Jurídicos, respectivamente — foram derrubados por Xi, analistas se perguntaram quando seria a vez de Luo.

Nesta foto tirada antes de julho de 1999, praticantes de Falun Dafa praticam os exercícios em Shenyang, província de Liaoning, na China (Minghui.org)
Nesta foto tirada antes de julho de 1999, praticantes de Falun Dafa praticam os exercícios em Shenyang, província de Liaoning, na China (Minghui.org)

Quanto ao desaparecimento de Luo do último evento do Partido, Chen Simin, analista de assuntos contemporâneos na China, apontou o recente expurgo de Wu Aiying, cuja saída foi anunciada no final da sétima sessão plenária do Comitê Central em 14 de outubro. Estas são reuniões obrigatórias, com a participação de altos funcionários do Partido antes do Congresso Nacional.

Wu teve uma ascensão em sua carreira graças ao aparato jurídico do PCC e, eventualmente, exerceu o cargo de ministro da Justiça.

Quando Luo trabalhou no Escritório 610, ele nomeou Wu como líder de um grupo de “manutenção da estabilidade” na província de Shandong, um eufemismo para “esmagar a dissidência”. Wu supervisionou a perseguição contra os praticantes locais do Falun Dafa naquela ocasião. O não comparecimento de Luo ao Presidium pode ter algo a ver com seu recente expurgo, sugeriu o analista Chen.

Também não passou despercebido que muitos daqueles que já foram aliados de Jiang não foram convidados para o Presidium, dentre eles Hui Liangyu, ex vice-primeiro ministro, e Wang Lequan, ex-membro do Politburo e chefe do Partido responsável pela região de Xinjiang.

Muitos membros da facção de Jiang que se apresentaram como delegados do Congresso já foram expurgados por Xi.

Enquanto isso, a ordem de aparição na lista de participantes do Presidium também refletiu a luta pelo poder.

O nome de Jiang apareceu depois de todos os membros atuais do Politburo — algo totalmente diferente do Congresso Nacional anterior, quando seu nome apareceu logo depois de Hu Jintao, líder do PCC. Jiang, que exerceu grande poder nos bastidores enquanto Hu era nomeado líder, teve seu nome inserido na frente do nome do então primeiro-ministro Wen Jiabao e de outros membros do Politburo naquela ocasião.

Analistas políticos vêm isso como sinais de que a influência de Jiang sobre o PCC está visivelmente diminuída.

Colaborou: Gu Qing

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