Associação de Tênis Feminino sai da China diante de censura à Peng Shuai

'Embora agora saibamos onde está Peng, tenho sérias dúvidas de que ela seja livre', afirma presidente da WTA

Por Eva Fu

A Associação de Tênis Feminino está suspendendo todos os torneios na China continental e em Hong Kong devido às preocupações com o tratamento de Pequim à estrela do tênis, Peng Shuai.

“Em sã consciência, não vejo como posso pedir aos nossos atletas para competirem lá, enquanto Peng Shuai não tem permissão para se comunicar livremente e aparentemente foi pressionada a contradizer sua alegação de assédio sexual”, afirmou o presidente e CEO da WTA, Steve Simon, em uma declaração no dia 1º de dezembro.

O bem-estar de Peng, tricampeã olímpica e ex-n° 1 mundial de duplas, tornou-se um assunto de preocupação internacional desde que ela fez acusações de assédio sexual contra o ex-vice-premiê chinês, Zhang Gaoli, no início do mês passado e, em seguida, desapareceu da vista do público por quase três semanas.

Sua postagem foi apagada em meia hora de sua conta pessoal na rede social chinesa Weibo, e posteriormente foi congelada. A discussão sobre Peng e suas alegações também sofreu forte censura online no país.

Desde o desaparecimento de Peng, a WTA está na vanguarda de uma campanha de pressão crescente para que Pequim forneça uma prova verificável da segurança da tenista. Nas últimas semanas, jogadores de tênis, governos e grupos de defesa soaram o alarme quanto a questão, entregando a Pequim uma enxurrada de problemas em suas relações públicas, menos de dois meses antes das Olimpíadas de Inverno de Pequim – um evento já sob escrutínio devido as crescentes violações aos direitos humanos na China comunista.

Em 21 de novembro, Peng apareceu em uma videochamada de 30 minutos com o Comitê Olímpico Internacional (COI), relatando aos oficiais que ela estava “segura e bem” e “gostaria que sua privacidade fosse respeitada”. Nos dias anteriores, a mídia estatal chinesa também divulgou fotos de Peng e uma captura de tela de um e-mail supostamente enviado da jogadora, onde ela retirava as acusações. Mas tais afirmações apenas levantaram mais dúvidas sobre sua segurança. Outros também ficaram insatisfeitos com a videochamada do COI com Peng, afirmando que o comitê não fez o suficiente para confirmar seu bem-estar.

Peng Shuai, da China, em ação contra Garbiñe Muguruza da Espanha durante a rodada de 64 partidas em Madrid, Espanha, no dia 6 de maio de 2018 (Susana Vera / Reuters)
Peng Shuai, da China, em ação contra Garbiñe Muguruza da Espanha durante a rodada de 64 partidas em Madrid, na Espanha, no dia 6 de maio de 2018 (Susana Vera / Reuters)

“Embora agora saibamos onde está Peng, tenho sérias dúvidas de que ela seja livre, segura e não sujeita a censura, coerção e intimidação”, declarou Simon.

Simon, que recebeu total apoio da diretoria da associação para a decisão, lamentou ter de tomar essa medida. Mas “os líderes da China deixaram a WTA sem escolha”, afirmou.

“A menos que a China tome as medidas que solicitamos, não podemos colocar nossos jogadores e equipe em risco ao realizar eventos na China”, afirma, acrescentando que continua esperançoso de que os apelos da associação “serão ouvidos” e os oficiais chineses irão estabelecer uma “ investigação completa e transparente”.

Vários legisladores dos EUA opinaram sobre o anúncio da WTA, com a senadora Marsha Blackburn (Republicana do Tennessee) agradecendo à organização por “ter a coragem de enfrentar o Partido Comunista Chinês”.

“Do desaparecimento da estrela do tênis Peng Shuai a forçar os uigures muçulmanos ao trabalho escravo, a China comunista não tem respeito pela humanidade”, escreveu ela no Twitter.

Uma série de figuras proeminentes do tênis também aplaudiram a postura da WTA.

Billie Jean King, fundadora da WTA, declarou que a organização “escolheu estar no lado certo da história”.

“Este é mais um motivo pelo qual o tênis feminino é líder nos esportes femininos”, escreveu ela no Twitter.

Martina Navratilova, uma jogadora aposentada que venceu 18 Grand Slams, em um post no Twitter chamou isso de “uma postura corajosa de Steve Simon e da WTA, onde colocaram o princípio acima de $ e defenderam as mulheres em todos os lugares, especialmente Peng Shuai”. O proeminente técnico e ex-jogador Darren Cahill, em um tweet, elogiou a WTA por mostrar “uma quantidade incrível de cuidado, preocupação e liderança”.

O ex-número 1 do mundo, Andy Roddick, declarou que a mudança o deixou “orgulhoso de estar na órbita do tênis”.

“Existem muitas organizações que podem pagar o preço de se fazer algo assim, muito mais do que a WTA pode”, escreveu ele em um tweet. “Fazer a coisa certa é muito mais fácil quando não há custos associados”.

Entre para nosso canal do Telegram

Assista também:

 
Matérias Relacionadas