Argentina: o suicídio que não houve

Muita água ainda vai rolar por baixo dessa ponte e espero, sinceramente, que esse crime não fique impune como o das vítimas da AMIA, que o promotor Alberto Nisman pagou com sua vida por defender a verdade e tentar fazer justiça.

Em 18 de julho de 1994, a Associação Mutual Israelense Argentina (AMIA) sofreu um violento atentado que deixou um saldo de 85 pessoas mortas, 300 feridas e o desmoronamento de sua sede, um prédio de sete andares. O atentado à AMIA foi o segundo contra os judeus na Argentina. Em 1992 uma bomba explodiu em frente à embaixada de Israel em Buenos Aires, matando 29 pessoas e ferindo 242. A comunidade judaica atribuiu o atentado ao Irã e ao Hezbolah.

Em 2004, o então presidente Néstor Kirchner designou o promotor Alberto Nisman na Unidade Especial de Investigação do Ministério Público para conduzir as investigações que, até aquele ano, não haviam ainda posto os autores (intelectuais e materiais) do ato terrorista na cadeia, embora fosse classificado como crime de lesa-humanidade. Passados pouco mais de 10 anos de exaustivas e minuciosas investigações, no dia 14 de janeiro de 2015 Nisman dá entrada no Centro de Informação Judicial (CIJ), pertencente à Corte Suprema de Justiça, a um documento com quase 300 páginas onde denuncia um complô orquestrado pela presidente Cristina Kirchner e o chanceler Héctor Timerman, entre outros, para encobrir os terroristas iranianos responsáveis pelo atentado à AMIA, a fim de se beneficiar em acordos comerciais bilaterais.

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Nesse mesmo dia 14, Nisman foi entrevistado no programa “A dos voces”, conduzido por Marcelo Bonelli e Edgardo Alfano, no canal “TN” (Todo Noticias), onde fala com toda segurança e desenvoltura sobre suas descobertas e que na segunda-feira (19), iria à tarde prestar depoimento no Congresso. Suas denúncias causaram perplexidade na imprensa, pois ninguém jamais havia tido coragem de denunciar a presidente da República e ainda mais a respeito de um caso que incomodava não somente à comunidade judaica mas a todos os cidadãos argentinos pela brutalidade e impunidade até então. A entrevista completa pode ser vista abaixo:

Alberto Nisman tinha 51 anos, era divorciado da juíza federal Sandra Arroyo Salgado e tinha duas filhas. Antes do dia 14 ele estava de férias em Barcelona com as filhas, que moravam com a mãe, mas voltou para fazer essa entrega ao CIJ e depor no Congresso. Desde 2007 foi-lhe designado uma guarda composta por 10 policiais da Polícia Federal, que se revezavam de 5 em 5. No sábado ele dispensou os escoltas e disse que voltassem no domingo às 11:30 da manhã que ele tinha um compromisso. Na segunda-feira (19) pela manhã, as manchetes do mundo inteiro anunciavam que Nisman foi encontrado morto no chão do banheiro de seu apartamento, envolto numa poça de sangue e com uma arma a seu lado. De imediato divulgou-se que ele havia cometido “suicídio”.

Sobre as denúncias

Durante todos esses anos Nisman foi auxiliado por uma equipe que fazia o trabalho de inteligência e, além de coletar dados, com autorização da justiça ele possuía 300 gravações de conversas telefônicas entre pessoas ligadas diretamente ao governo Kirchner e aos iranianos, que ele iria apresentar pessoalmente no depoimento ao Congresso. Segundo ele, existia um sofisticado plano delitivo destinado a favorecer ilegalmente e desvincular de forma definitiva e fraudulenta os suspeitos iranianos por sua participação no atentado contra a AMIA. Além disso, ele provou que esta manobra começou dois anos antes da assinatura do Memorando de Entendimento com o Irã, em 27 de janeiro de 2013, depois da morte de Néstor Kirchner que havia criado esta unidade especial exclusivamente para investigar o caso AMIA, e que a mesma envolveu pessoal da Secretaria de Inteligência (SI) e negociações diretas com um dos principais acusados pelo atentado, Mohsen Rabbani, ex-adido cultural do Irã na Argentina.

Esta confabulação criminosa foi decidida por Cristina Kirchner e posta em funcionamento por seu Ministro de Relações Exteriores, Héctor Timerman. A denúncia ainda cita a participação ativa criminosa de terceiros, entre os quais o deputado Andrés Larroque, o ex-promotor federal e ex-juiz de instrução Héctor Luis Yrimia, o líder comunitário Alejandro “Yussuf” Khalil, pessoal da Secretaria de Inteligência da Presidência, o dirigente piquetero Luis Ángel D’Elía, e o líder do Quebracho (MST argentino) Fernando Luis Esteche. A propósito de Esteche e sua organização, o encontro do Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo, reunido na Cidade do México em 17 de março de 2013, emitiu uma resolução onde respalda o pedido de nulidade do julgamento e prisão do mesmo.

Na causa AMIA, ficou claro e determinado que as máximas autoridades do Irã em 1994 foram as que tomaram a decisão de cometer o atentado terrorista, planejaram os detalhes e encomendaram a execução à organização terrorista libanesa Hezbolah.

Em consequência disso, solicitou-se a captura nacional e internacional do ex-presidente da Republica Islâmica do Irã, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, do ex-ministro de Relações Exteriores, Ali Akbar Velayati, do ex-ministro de Inteligência, Ali Fallahijan, do ex-chefe da Guarda Revolucionária, Mohsen Rezai, do ex-chefe da Força Al Qud e ex-ministro de Defesa, Ahmad Vahidi, do ex-Adido Cultural da Embaixada do Irã na Argentina, Mohsen Rabbani, do ex-terceiro Secretário da Embaixada do Irã na Argentina, Ahmad Reza Asghari e do ex-Embaixador da República do Irã na Argentina, Hadi Soleimpanpour.

O Memorando de Entendimento selava acordos comerciais em que a Argentina oferecia carne, grãos e armas, em troca de petróleo. Apesar de ter sido aprovado pelo Congresso, com a etiqueta de “alerta vermelho” e ordem de captura por parte da INTERPOL, o Memorando nunca foi posto em prática.

Não quero me alongar nesses detalhes, pois o que me interessa analisar é a morte suspeitíssima do promotor Nisman. A denúncia completa em espanhol, para quem quiser conhecer todos os detalhes, foi lançada no portal da CIJ ontem à noite e anunciada sua liberação ao público pela imprensa.

O que foi dito e os cabos soltos

No domingo (18), às 21:37, ao menos duas horas antes que se encontrasse o promotor Nisman morto, o jornalista kirchnerista Roberto Navarro dava um “furo” no canal C5N: “me disseram há algum tempo, que (Nisman) não vai ao Congresso. Te dou como um adiantamento que talvez não vá”. O “adiantamento ele deu, ao vivo, a Ricardo Alfonsín a quem estava entrevistando no noticiário. Vejam no vídeo abaixo:

Bem, quando os escoltas do promotor Nisman chegaram no domingo ao seu prédio, exatamente às 11:30 da manhã conforme acordado, fizeram uma chamada para avisá-lo mas ele não atendeu. Esperaram mais um pouco e voltaram a ligar às 13:30 e como ele novamente não respondeu, telefonaram para sua secretária que também comunicou-se com a mãe do promotor. Todos foram ao prédio, porém, ninguém explica porque somente às 19:00 subiram ao apartamento. Também compareceu ao local a promotora Viviana Fein que assumiu o caso. Lá chegando, afirmam que a porta estava trancada com a chave por dentro. Chamaram um chaveiro que abriu a porta e todos entraram. A luz do banheiro estava acesa e um dos escoltas foi com a mãe de Nisman até lá, mas não conseguiu abrir (estava entreaberta) porque o corpo no chão impedia. O escolta não quis entrar e a mãe confirma tratar-se do seu filho. Depois disso chegam ao local o Secretário de Segurança Sergio Berni – que não se sabe porque estava ali, uma vez que o caso deveria ser tratado pela Magistratura -, o chefe da Polícia Federal, Román Di Santo e o juiz Ariel Lijo.

O canal TN denunciou que Berni entrou no banheiro do promotor com Di Santo mas não permitiu a entrada dos peritos, ficando os dois sozinhos lá dentro durante um longo tempo. Depois, em declarações ao programa “Página Abierta” da Radio América, Berni disse que não entrou no banheiro, nada fora mexido e que a mãe do procurador fez questão de acompanhar toda a perícia.

As primeiras notícias sobre o caso diziam que Nisman levara um tiro “no peito” com uma pistola calibre .22 longo de marca Bersa, que se encontrava a seu lado. Segundo informe encaminhado à promotora Fein, a autópsia foi realizada às 9:00 da manhã e concluída ao meio-dia. O corpo apresentava um orifício de bala com entrada no parietal direito que ficou alojada em sua cabeça e tinha perda de massa encefálica. Ainda segundo a promotora, um médico da Swiss Medical foi chamado logo cedo da manhã e, ao reconhecer a vítima, recusou-se a examinar o corpo e foi embora. Entretanto, no dia 20 tomou-se conhecimento de que no domingo 18 o SAME (Sistema de Emergências Médicas da Cidade) recebeu duas chamadas para que fosse ao domicílio de Nisman: a primeira foi recebida às 22:45 e a segunda às 23:30, porém, nas duas ocasiões o segurança do edifício pediu que se retirassem. A última ambulância entretanto permaneceu no local até as 2:45 da manhã, quando novamente insistiram para que se retirasse e foi registrado pelas câmeras do canal TN que já se encontrava no local.

A notícia de suicídio espalhou-se rapidamente pela imprensa, numa declaração patética da presidente pelo Facebook, e logo os jornais iranianos corroboravam a tese governamental. Tudo isso antes de uma rigorosa perícia! Ao contrário dos que tinham e têm interesse em sepultar o caso afirmando tratar-se de suicídio, jornalistas, amigos e pessoas que conviveram com o promotor Nisman recusam-se a aceitar tal hipótese, uma vez que ele não demonstrava qualquer indício de depressão, nervosismo e mesmo medo em suas últimas declarações e o depoimento que estava ansioso por fazer no Congresso. Também o jornalista Andrés Oppenheimer escreveu uma nota surpreso, pois depois de assistir à entrevista dada no dia 14, Oppenheimer trocou e-mails com Nisman, a quem queria entrevistar, e este respondeu: “Obviamente que me interessa. Na segunda-feira deponho como convidado pela Comissão de Legislação Penal e provavelmente se estenda até tarde. Falemos na segunda, tipo 7 ou 8 da tarde para ver se já me desocupei”. Ora, isso não é atitude de quem planeja de suicidar dias depois! Ademais, o único bilhete encontrado em sua casa era para a empregada, com uma lista de compras que ela deveria fazer na segunda-feira. Essa pessoa ainda não foi contactada.

Como se tudo isso já não fosse esquisito o bastante, a varredura eletrônica (segundo a perita Olga Fernández Chávez, o exame mais moderno e sofisticado para detectar resíduos de pólvora) não havia detectado qualquer resíduo na mão do promotor, nem gases em suas roupas. A promotora Viviane disse que esse tipo de arma, por ser de pequeno porte, pode não deixar resíduos e portanto, um teste com a mesma arma deverá ser feito. Mas coisas básicas não foram observadas: a quem interessava o silêncio definitivo de Nisman? A mãe de Nisman disse que não viu arma alguma junto do corpo do filho, ao contrário de Berni que nega ter entrado no banheiro. Se ele não entrou, quem lhe disse que havia essa arma ou quem a pôs lá? A cena do crime foi adulterada? Quantas balas havia na arma encontrada ao lado do promotor? A arma encontrada teria sido disparada há pouco tempo ou não foi com essa arma que foi desferido o tiro fatal? Mas a promotora Viviana parece ter um interesse especial em que se decrete o “suicídio”, tanto que em uma entrevista na “Radio Mitre” cometeu um ato falho e disse textualmente: “A perícia de busca de restos de pólvora nas mãos lamentavelmente deu negativo”, e remendando, acredita que pode ter sido um “suicídio induzido” causando grande revolta nas redes sociais.

As informações vão chegando aos poucos e a imprensa tenta montar esse quebra-cabeças macabro. De um lado, há os chapa branca que reforçam a tese presidencial e defendem Cristina Kirchner das acusações gravíssimas feitas pelo promotor Nisman, e do outro lado, os jornalistas independentes que conhecem bem o tipo de governo que têm, que é montado na mentira, na fraude e trapaça, e que não se necessita muito esforço para perceber que se trata de um crime, um homicídio por parte daqueles que têm muito a perder com o trabalho de Nisman.

No fim da tarde de ontem (21) alguns fatos novos vão sendo revelados e corroborando a tese de assassinato. O chaveiro que abriu a porta do apartamento do promotor disse que a porta da cozinha estava com a chave por dentro mas não estava trancada, que ele a derrubou e quando colocou outra chave cedida pela mãe de Nisman, não precisou destravar pois estava só com o trinco fechado. Outro fato novo foi a descoberta pelos investigadores de um terceiro acesso ao apartamento do promotor, em que detectaram uma pisada recente e uma impressão digital, que vão investigar se pertence a algum técnico que utilizou o local ou de uma terceira pessoa.

Trata-se de um corredor estreito que comunica o apartamento de Nisman com outro, que está habitado por um cidadão estrangeiro, onde estão situados aparelhos de ar condicionado contra uma grande parede, em frente aos quais há uma espécie de barra de proteção por onde se deslocam os técnicos. Em um e outro extremo há pequenas portas metálicas que os investigadores estão tentando determinar de que maneira pode-se fechar e travar por dentro. Esse corredor está situado no décimo terceiro andar (andar do apartamento de Nisman) e só se pode acessar desde o interior de um ou outro apartamento, devido a altura da construção, pois pelo exterior seria necessário se pendurar, como fazem limpadores de vidros de prédios muito altos. Quem é esse cidadão estrangeiro vizinho de Nisman, qual sua nacionalidade e o que faz na Argentina? Ninguém sabe, ninguém pergunta, ninguém investiga.

A consternação vem de todos os lados, não somente da AMIA e da DAIA (Delegação de Associações Israelitas Argentinas), mas da Igreja Católica argentina, do povo em geral que no dia 19 fez um imenso panelaço na Praça de Maio chamando Cristina de “assassina”, do governo de Israel, do jornal New York Times e até mesmo de jornalistas venezuelanos que sabem do apoio criminoso que Chávez sempre ofereceu ao governo, aos bandos de vândalos piqueteros e à penetração iraniana no governo da senhora Kirchner. Entretanto, um silêncio ensurdecedor se fez nos países membros do Foro de São Paulo, notadamente o do Brasil, cuja imprensa parece ter sido proibida de citar o caso, a senhora Rousseff não dá um pio, e hoje viajou à Bolívia para a enésima posse governamental do cocalero Evo Morales, seu comparsa no Foro de São Paulo.

Muita água ainda vai rolar por baixo dessa ponte e espero, sinceramente, que esse crime não fique impune como o das vítimas da AMIA, que o promotor Alberto Nisman pagou com sua vida por defender a verdade e tentar fazer justiça. Miguel Ángel Toma, ex-chefe do SIDE, falou acerca da morte do promotor e encerro com suas palavras porque reflete o mesmo pensamento meu.

“Estamos frente a um homicídio. É uma discussão política restabelecer ou não relações com o Irã. O delito se dá quando para conseguir esse objetivo político tenta-se desincriminar o que está em uma investigação judicial e ademais cria-se uma pista falsa, pelo qual não só tentava-se ocultar um crime e seus responsáveis, senão incriminar inocentes. Isto é o que Nisman põe em evidência”.

Editado por Epoch Times

 
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