A vida no Chipre em meio aos problemas financeiros

Funcionários do Banco Laiki do Chipre participam de um protesto em frente ao Parlamento em Nicosia, Chipre, em 22 de março de 2013 (Patrick Baz/AFP/Getty Images)

A imagem da ruína financeira do Chipre que se destaca para o fotógrafo Patrick Baz é a de portas de lojas com sinais de “fechado”.

“O que mais me impressionou nos últimos seis meses são as lojas que estão fechando, os restaurantes que estão fechando, os cafés que estão fechando”, disse Baz de Nicósia, no Chipre, numa entrevista pelo Skype na quarta-feira. “Não é o Chipre que eu conhecia.”

Os bancos estão fechados por duas semanas enquanto políticos se embaralham para reestruturar as instituições e conseguir empréstimos da zona do euro para evitar a inadimplência, mas eles estão programados para reabrir na quinta-feira.

Baz, um fotógrafo da ‘Agence France-Presse’ (AFP) libanesa e que vive no Chipre de tempos em tempos por 17 anos, descreveu alguns aspectos da vida no Chipre.

Um de seus colegas fotografou na quarta-feira cinco contêineres cheios de dinheiro alinhados no banco central – o bloco europeu liderado pela Alemanha enviou cerca de US$ 6,4 bilhões (5 bilhões de euros) para ajudar a estocar os bancos para a reabertura de quinta-feira.

Guardas de segurança vigiam o perímetro de cada agência bancária. Pessoas fizeram filas fora da Cruz Vermelha em números inéditos, o que não se vê há muitos anos.

Um ano atrás, os fotógrafos da AFP já estavam preparados para a grande novidade que cerca os dois maiores bancos do Chipre, o Banco de Chipre e o Banco Laiki. Eles foram orientados a tirar fotos do logotipo Laiki.

“Todo mundo viu a crise chegando, mas eles não viram”, disse Baz. “As pessoas ainda tinham dinheiro no banco. Eles tinham tal confiança em seu governo e acreditavam que o governo os protegeria.”

Os membros do conselho administrativo dos dois bancos foram substituídos por administradores que supervisionarão a reestruturação, segundo a Associated Press (AP). O Chipre aceitou um acordo com autoridades da zona do euro em Bruxelas na segunda-feira para fechar o Laiki completamente e parte dele será absorvida pelo Banco de Chipre.

Pessoas esperam na fila para retirar dinheiro de um caixa eletrônico numa agência do Banco Laiki na capital do Chipre, Nicósia, em 21 de março de 2013 (Patrick Baz/AFP/Getty Images)

Dinheiro difícil de obter

O cipriota Chris Petallides vive em Nova York, mas sua filha Irene está de volta ao Chipre. Ultimamente, ela não recebeu salário da empresa de transporte onde trabalha, porque os bancos não estavam abertos para processar os pagamentos. Ele se sente impotente, incapaz de lhe enviar dinheiro.

Quando os bancos abrirem na quinta-feira, o limite de retirada será elevado de 130 para 386 dólares (de 100 para 300 euros) e pagamentos de salários serão processados, informou a AP.

“O problema é conseguir dinheiro para fazer qualquer coisa, seja para obter itens básicos ou gás”, disse Petallides. “Ninguém quer aceitar cartões de crédito ou cheques.”

As pessoas retiraram tanto dinheiro dos caixas eletrônicos, disse Baz, que o governo tem encorajado as pessoas a escondê-lo de maneiras criativas. As longas filas nos caixas eletrônicos têm sido a principal atração para os turistas, brincou Baz.

Turistas, em sua maioria, parecem desconhecer a situação, disse Baz, e imigrantes que desembarcam ilegalmente na costa da ilha ficam ainda mais atordoados.

Quando imigrantes chegam em embarcações vindos do Oriente Médio e Norte da África, a lei cipriota não dita que eles sejam deportados.

“Eles vêm para encontrar o Eldorado e não entendem que não há dinheiro”, disse Baz.

Manifestantes pacíficos e civis

O fotógrafo, cujos dias têm sido longos e cheios ultimamente, estima que cerca de 500 a 1.000 manifestantes estejam nas ruas diariamente na capital de Nicósia. Pode parecer um número pequeno, mas proporcional à população da cidade de cerca de 250 mil é substancial, disse Baz.

Enquanto a filha de Petallides lhe disse que os ânimos estão irritados com as máquinas de ATM, as pessoas tentam lidar com a circunstância difícil e estressante; Baz disse que os protestos são muito civis.

“Acho que é porque é um lugar pequeno onde todos se conhecem”, disse ele. A população total do Chipre é de pouco mais de 1 milhão. A polícia escolta os manifestantes e protege as instituições, mas tudo é feito de forma pacífica.

Manifestantes cipriotas dirigem particularmente seus slogans a chanceler alemã Angela Merkel, pois o Chipre teve de garantir US$ 7.5 bilhões (6 bilhões de euros) para receber o resgate da União Europeia de US$ 13 bilhões (10 bilhões de euros). Slogans como “Merkel, você roubou nossas economias” ou “Tire as mãos do Chipre” apareciam impressos nos sinais dos manifestantes.

A empresa G4S de segurança privada implantará guardas extras quando os bancos abrirem na quinta-feira, mas o diretor da empresa João Argyrou disse à AP, “Pode haver incidentes isolados, mas é nossa cultura ser civil e paciente, assim, não espero nada sério.”

Baz disse que não pode prever o que acontecerá quando os bancos abrirem. “Isso será uma grande surpresa”, disse ele.

Quanto ao futuro, se o Chipre puder tocar em seus recursos de gás natural, atualmente em disputa com a Turquia, talvez seja possível se recuperar. O Chipre não tem um setor industrial forte e sua economia é essencialmente baseada em serviços.

Normalmente, Baz é um fotógrafo de guerra, mas ele tem acompanhado a situação no Chipre, pois é onde ele tem sua base e moradia. Ele refletiu que, pode não ser uma guerra, mas “Você pode derrubar um país sem disparar um único tiro.”

Com reportagem de Genevieve Belmaker.

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