Publicado em 08/02/2017 às 23:26 - Atualizado em 08/02/2017 às 23:26

Vaticano faz vistas grossas para médico acusado de tráfico de órgãos

Pesquisadores afirmam que os órgãos vêm de prisioneiros de consciência

Cúpula da Basílica de São Pedro na Cidade do Vaticano, em Roma, em 22 de setembro de 2011 (Peter Probst / Shutterstock)

Cúpula da Basílica de São Pedro na Cidade do Vaticano, em Roma, em 22 de setembro de 2011 (Peter Probst / Shutterstock)

A Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano vem sendo alvo de polêmica por convidar um orador envolvido em tráfico de órgãos na China para apresentar a versão do regime chinês sobre tráfico de órgãos e turismo de transplantes para a Cúpula do Vaticano, nos dias 7 e 8 de fevereiro.

A cúpula está sendo realizada na esperança de abordar os problemas de tráfico de órgãos e turismo de transplante, mas os pesquisadores sobre a colheita forçada de órgãos estão alegando que ele poderia acabar proporcionando uma propaganda vitoriosa ao pior perpetrador de extração forçada de órgãos do mundo – a China.

O Dr. Huang Jiefu, porta-voz oficial do regime chinês sobre transplante de órgãos, vai representar a China na próxima cúpula. Ele deve negar a prática da colheita de órgãos na China e alardear uma aparente reforma médica no país.

Essas afirmações, em meio a evidências crescentes sobre a colheita forçada de órgãos na China, fizeram com que especialistas no assunto pedissem que a Pontifícia Academia de Ciências oferecesse um balanço de evidências na cúpula.

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Huang é um dos principais e um dos mais antigos cirurgiões de transplantes da China e o presidente do Comitê Nacional de Doação e Transplante de Órgãos da China. Sendo um dos líderes em transplantes de fígado no país, ele fez uma demonstração de um complicado transplante fígado para um público seleto, na província mais ocidental de Xinjiang, em 2005, e chamou a atenção sobre a capacidade dos hospitais chineses de fornecerem órgãos sob demanda.

Como apoio para o procedimento, telefonou para os hospitais de Chongqing e Guangzhou para localizarem mais dois fígados de doadores compatíveis.

Os fígados foram entregues dentro de 24 horas, mas nunca utilizados, de acordo com quatro relatórios publicados por meios de comunicação chineses ligados ao regime.

O regime chinês afirma que os órgãos vêm de prisioneiros executados, cujas sentenças devem ser cumpridas dentro de sete dias, de acordo com a lei chinesa. Huang poderia ter obtido novos órgãos apenas se houvesse uma população prisioneira, com pré-seleção sanguínea, pronta para ser morta sob demanda, dizem os especialistas. A mais recente conclusão da  Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, bem como de vários pesquisadores, foi de que prisioneiros de consciência, principalmente os praticantes do Falun Gong, são a fonte principal desses órgãos.

Enquanto isso, o bispo Marcelo Sánchez Sorondo, chanceler da Pontifícia Academia das Ciências, rejeitou as alegações sobre a colheita de órgãos na China e sobre o papel de Huang como peçachave do regime nessa questão.

A Cúpula do Vaticano será um “exercício acadêmico, e não uma repetição de afirmações políticas contenciosas”, escreveu ele no dia 10 de janeiro, em resposta a Wendy Rogers, professora de ética clínica na Macquarie University e presidente do Comitê Consultivo Internacional da Coligação Internacional para Acabar com a Colheita de Órgãos na China.

Certos especialistas em colheita de órgãos haviam participado de “eventos políticos sobre a condenação da China”, como em uma audiência no Congresso dos Estados Unidos e no Parlamento Europeu, escreveu ele.

Rogers discordou: “Simplesmente dizer que as evidências sãoinferências políticas’ mascara a verdadeira questão, evita a verdade, e dá apoio àqueles que têm razões mais fortes para negar seus crimes”,  respondeu ela.

“É extremamente preocupante quando instituições internacionais altamente respeitadas, como o Vaticano, fornecem uma plataforma para perpetrar afirmações não verificadas sobre a reforma da doação de órgãos na China”, disse Rogers.

“Isso dá credibilidade a falsas alegações e ajuda a evitar a responsabilidade por aqueles que estiveram envolvidos na colheita forçada de órgãos”.

A atitude do Vaticano de aceitar placidamente os argumentos de uma figura tão questionável como Huang também perturbou Lord David Alton, um antigo defensor dos direitos humanos e um proeminente católico.

Em uma declaração escrita, ele disse que está “profundamente alarmado” por relatos contínuos e “bárbaros” de colheita forçada de órgãos na China.

“Incentivei a Pontifícia Academia a considerar convidar pesquisadores cujos achados sugerem que a colheita forçada de órgãos continua em uma escala muito maior do que se sabia anteriormente”, escreveu ele.

“É justo tentar se envolver com a China nessas questões, mas é vital que façamos isso de maneira crítica e com transparência, e não de uma maneira que simplesmente forneça à China uma vitória de sua propaganda”.

Essa transparência tem sido difícil de se obter, de acordo com Ethan Gutmann. Ele tem criticado o Dr. Francis Delmonico, ex-chefe da Sociedade de Transplantes (TTS) e um dos principais organizadores da cúpula, por não ter feito a China responsável pela colheita de órgãos.

Delmonico está “realmente dedicado” a trabalhar “de mãos dadas” com Huang para promover a idéia de que a China está fazendo reformas médicas, em vez de fazer perguntas sobre o que aconteceu anteriormente. Delmonico e Huang estão “enterrando a história, enterrando os corpos para que eles nunca sejam vistos novamente”, disse Gutmann.

“O que a China fez é o equivalente a uma corporação que produziu quantidades maciças de material incrivelmente tóxico e, em seguida, o enterrou onde ninguém mais pudesse encontrá-lo, na esperança de que ele, de alguma forma, fosse para as profundezas da água subterrânea e fosse esquecido.”

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